quarta-feira, agosto 20, 2008

Memórias da minha avó (parte I)

Estamos velhos, fatalmente velhos, quando nos começamos
a dividir em preocupações por pingos noctívagos das torneiras
mal fechadas, pelo medo vago, confuso a botijas de gás
e carteiros, versão pós-moderna dos homens que traziam
bilhas de leite e perguntas desinteressadas acerca da família.
Estamos irremediavelmente velhos quando decaímos
em conjunto com a casa, mais depressa é certo, com ela
ainda assim. Nos móveis negros acumulam-se agora trapos
de cor incerta vestidos lustrosos de outrora, que se vestiam
de acordo com o calendário litúrgico e que se deixavam despir
por mãos que a noite de ginja e canastra desorientava, nos
movimentos bruscos de ilhargas ou bocas secas e medrosas;
despiam-se
apesar de protestos frágeis e das risadas nervosas da senhora
e dos gemidos daquela porção de cabeça e cabelo sobretudo
que habita no berço entre panos turcos e exigências de leite
e fraldas de pano. O chão tabuado ondula e estala ao andamento
andante triunfal do dueto de bisavós e ginja, e com eles, ainda
na mesma pulsão se agitam fotografias nevoentas de tardes
na praia, casamentos vários e aquela outra de um soberbo
mancebo saído do CEP, com as patilhas porém revoltas e o ângulo
improvável das guias do bigode a jurar fidelidade eterna
se não à nação, pelo menos ao modelo lusitano da república,
homem lêvedo na jaqueta coçada de medalhas compradas nas
traseiras de alfaiates duvidosos, modelo bem diverso do gaulês,
excessivamente feminino, excessivamente firmes os seios
e nada de patilhas, que vergonha, nada de trombas nem ensaiada
seriedade que também se vê nos botequins por detrás de peças
não de artilharia mas de dominó. De estas gavetas sai o olor
inconstante do tempo em que um e outro tipo de peças pouco
se distinguem sobretudo agora que recordamos o garboso oficial
em instantes de fúria, suor adocicado e nádegas contraídas nos
gestos que mandam ao chão os caixilhos dos retratos da propaganda.

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