Ao Vítor Nogueira
Era um carro de lata. Era amarelo.
Não era carro para uma marca só:
a maior parte das vezes era um Plymouth,
mas também podia ser um Dodge
ou mesmo um Caddillac.
Dependia.
Não era maior que uma romã,
uma romã de lata e amarela.
A imaginação tinha de se encolher muito
para entrar nele. Mas uma vez lá dentro
partia à desfilada na berma do passeio,
ultrapassando caricas, fazendo acrobacias
para não chocar com pontas de cigarro.
Roncava com os seus doze cilindros,
buzinava, enchia a rua de som.
Era um carro. Era de lata. Era amarelo
e faiscava. Dava duzentos à hora.
E podia até levantar voo,
bastava eu querer.
Alguns despistes foram-lhe amolgando
a chapa. Nada de grave.
Até que um último acidente atirou com ele,
derrapando num pião desgovernado,
para uma arca do sótão
e daí para a sucata irrevogável.
Ainda deve existir, mas já não anda.
A poeira das décadas soterrou-o
e vai-o corroendo,
metodicamente e por esta ordem:
primeiro o amarelo, depois a lata,
depois a memória.
Dentro, perpetuamente encarcerados,
estendendo os braços aflitos para mim,
os meus oito anos.
O STUDEBAKER
Nesse tempo, na vila, havia
um Studebaker em terceira mão.
Era como um avião que tivesse
descido entre nós,
optando pela estrada:
tinha um perfil aéreo, o pára-brisas
igual ao da carlinga dum Spitfire.
Bem vistas as coisas, era um avião.
Voava entre as bermas.
Era verde, faiscavam-lhe os cromados.
Dizia-se que dava duzentos à hora.
Víamo-lo passar a cento e vinte
e esses cento e vinte pareciam
os tais duzentos de que a vila falava
com assombro e temor
e algum orgulho colectivo.
Nós, os mais pedestres dos garotos,
viajávamos nele a duzentos à hora,
e ele parado.
Um dia, deixou de ser visto nas ruas.
Avariou, não havia peças no mercado,
foi removido até ver para um alpendre
– seu hangar derradeiro.
Ainda lá está, mas já não sai do sítio.
A ferrugem comeu-lhe toda a mobilidade,
cresceram-lhe ervas por baixo,
os pneus ressequidos estão sem ar
e o verde da pintura, corroído
do pó e do sol,
já nem se pode dizer que seja verde.
Há ninhos de ratos nos estofos de trás,
onde tanto amor canalha
se fez (diz-se na vila).
E nós próprios trocámos
os olhos com que o víamos então.
Visto de certo modo, aquele destroço imoto
ainda conserva qualquer coisa
de aeronave em terra.
Mas na verdade assemelha-se mais a um atleta
decrépito a quem – como acontece
com todos os atletas –
o reumatismo acabou por ganhar
a última corrida.
Ou a um relógio que, no irreparável
desconcerto das engrenagens,
já perdeu a memória
e o desejo do tempo.
Aquele que em prise dava
duzentos à hora
jaz agora em perpétuo ponto morto.
O avião que nele voava
despenhou-se no alpendre.
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2 comentários:
Parabéns pelo blog e selecção Diogo. Gosto muito da poesia aqui colocada, com especial destaque para a poesia "pobre", assim é apelidada por muitos quando se fala de Manuel de Freitas ou José Miguel Silva que tanto aprecio.
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