A noite não começou muito mal.
Alguns passos de anónimo sentido, entre tantos,
e outra vez uma esplanada que merece
melhor publicidade e só por isso não leva
uma referência. De um lado o mar, enfadado,
do outro mais uma feira de livros,
novos e usados, corrigindo para melhor
ou pior o calão algarvio daqueles que,
talvez como nós, precisam menos de cultura
e mais de um sossego que não se lê nem escreve.
Morámos ali por um tempo largo
e depois fomos voltando a casa, à varanda,
aos temas mais inofensivos e aos vícios do costume.
Antes das primeiras deserções acho que ainda senti
uma espécie de satisfação. Pareceu-me feliz
aquela piada que fizeste sobre a mais insignificante
das coisas. Mas aos poucos a noite foi deixando
de nos pertencer – alguém se lembrou de alguém
que devia estar ali connosco e já não estava.
Falar mais alto não adiantou,
a quem podia interessar já não nos ouvia.
E uma noctâmbula hora destas não nos perdoa
que estejamos para aqui vivos e sem nenhum sono.
A lua esgotada como a última rodela ácida de limão
no copo, o réclame à morte no tabaco
que começa a fazer alguma impressão
e os brasileiros que aqui em baixo,
pela noite dentro, nos mantêm reféns
de uma alegria sem mundo, de um ritmo
e música insuportáveis.
Voltei para dentro porque a conversa
apesar de estar longe de se tornar séria, meteu-se
pelos caminhos da popular melancolia
e eu sou mais fraco para gracejos rastejantes
do que para o álcool. Antes de prostituir alguma ideia
e juntar o suficiente para o poema,
pus-me a ler alguns versos de poetas mais avisados,
que, tardando em explicar-me porque permanecemos
entre tão podres significados, viajam por mim
por destinos mais nomeáveis e igualmente indiferentes
onde caem, depressa como aqui,
os corpos, na esquina de alguma nociva ilusão,
ferindo-nos a vista e um pouco mais que isso.
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