quinta-feira, julho 10, 2008

É tão difícil
ir além do tempo e do lugar a que se pertence.


João Miguel Fernandes Jorge

Antes da ávida rebentação matinal,
aquela frouxa luminescência concedeu
uma oportunidade de retirada
ao animal que, no escuro, esfacelava
o pouco espírito que lhe causava ainda
algum prurido na pele.
Despediu-se das suas ausências
e dos solícitos fantasmas que competiam
a sua bebedeira, e foi-se,
apressando as ruas, rolando
como uma pedra que o medo atira,
certo que o nascer do sol
é o milagre mais difícil de engolir,
mesmo para uma garganta habituada
a segurar horizontes
para a longa e oscilante travessia
dos mais ébrios veleiros.

O dia veio trepando os muros e as casas,
puxando fogo às palhotas da noite
e devastando mundos menores
com as suas culturas de ócio
e o intensivo recreio de horas perdidas
à partida. Cada encosto onde os animais
se abandonaram, a ronronar ao lume dos vícios,
veio dissolver-se numa luz absoluta
e por aí se estendeu a formação
nervosa e cafeinada de gente
em marcha, missionários e fervorosos
seguidores, construindo esse amanhã
que há-de ser melhor, passando recibos
e epitáfios, fazendo tudo
por não se desconcentrar
entre suicídios e outras advertências.

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