Os lados positivos vão dependendo
da luz, da noite a roçar-se na fotografia
rasgada e recuperada, um corpo
que se move de acordo com princípios
da mecânica aplicada
no jogo sujo de um pop-rock-azul,
coisa acídula, meio consternada -
não sei que nome lhe daria um musicólogo -
o que descreve são gestos encardidos
por acordes de ritmo supérfluo, conveniente
a esta era do pós-seja-o-que-for
a jukebox cansada, ali no seu canto,
é hoje uma homenagem aos surdos,
antecipadamente liberados do implacável ruído
que nos compromete
seguindo pela fita adesiva -
a carteira de fósforos de uma cadeia de hóteis
estrangeira, posta de lado,
as mãos navegando no tanque circular
de águas paradas,
propagando-se fora dos cinzeiros,
sobre a mesa, a ternurenta cinza
em volta de considerações de tranquila
natureza, distorção de factos,
coisas leves com que
uma discricionária inconsciência vem pentear um mundo
de acabadas certezas
desordem sem efeito e intrigas mínimas
estalando fora de horas,
a inutilidade pública que deixa flores
no cadáver dos dias, e, quanto a isso,
não me pergunte o leitor
se sou eu quem o diz ou se me limitei
a traduzir o refrão,
que importa?,
desiste-nos no colo mais
alguma ilusão, mas já vem lá outro
copo alto, abismal, de cerveja
para dar um rasto às estrelas e doirar
o implante de um sorriso
entretanto
uma miúda de séria beleza,
matéria para odes e romances, aparece,
passa o olhar com vida e promessas
no ângulo curto onde o hábito se senta em nós
e depois, como quem se enganou,
volta atrás, some-se
(para sempre, posso adiantar)
e não foi apenas um truque da imaginação, até porque
a uma hora destas, essa, já não dá para tanto
no bar vão apagar as luzes,
depois recolhem as cadeiras da esplanada, é tarde
e cá estamos outra vez acorrentados, por assim dizer,
ao cenário de um poema
de baixo orçamento e sem quaisquer apoios,
nesta mole vileza dos que se fazem servidos
de horas fáceis de esquecer,
da delonga das madrugadas e destas frases
que simplesmente não deflagraram.
Sem comentários:
Enviar um comentário