contemplas com os olhos grudados, trémulos,
as conhecidas paredes familiares, os acumulados livros,
fotografias e lembranças que, silenciosos, acompanham o teu agreste despertar.
Soam ainda nos teus ouvidos ardentes músicas,
gargalhadas frenéticas, frases supostamente lúcidas.
Ainda podes ver rostos que circulam na penumbra, luminosos recantos,
e sentir em quente vizinhança os húmidos lábios,
a suave pele que tua mão de leve tocara.
Tudo aquilo que o pesado torpor, definitivamente, desfez.
Já de pé, vacilante, impreciso,
por um momento afastas-te das coisas,
realidades e sonhos separam-se, confundem,
e através do teu peito, da tua testa,
dançam, geladas sombras, os fantasmas do vinho.
Como um tapete espesso e cor de cinza
pelo chão espalha-se a tristeza,
o esplendor em náuseas se transforma
e o que foi paixão é um fato amarrotado,
o fato azul que está sobre a cadeira.
Em breve a água resvalará pelo teu corpo
e palavras, trabalho hão-de tirar-te sem esforço do abismo.
Outro dia, mais um, vestirá os teus ossos
e o protocolo da compreensão perdoará as tuas leves faltas.
Os fantasmas do vinho, escondidos em tenaz espera,
o seu seguro ensejo, o seu renascer aguardarão:
Já os conheces, também conheces o seu poder,
sabes que esse instante, poderoso e breve,
em que te afundas, sem amarras te aproximas
dos que tua insegura verdade, tua impotência cercada e extrema partilham,
há-de voltar. Mas não te importes,
entrega-te, impuro e por isso mesmo limpo,
mostra as cegas frinchas do teu coração, as suas trémulas brechas.
Paga depois o preço estipulado e esquece-os,
nem louvados nem ímpios, fantasmas
de uma noite, tecidos de humana solidão,
doloroso testemunho que o amanhecer te traz
e que fugitivos, agora, vês perderem-se, diluirem-se na distância.
- Juan Luis Panero
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