sexta-feira, julho 18, 2008

Ode ao surrealismo por conta alheia

Que levas ao colo,
embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado abomináveis trutas e outros preconceitos?
Um sacerdote? Um gato? A timidez?

Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo, no xaile pespontado e verde com que limpas o suor, o sémen, as fezes, tudo o que abonas, ofereces, vendes, expulsas, injectas, convocas, reprovas, descreves, etc.? Embalas e não respondes.

Temes a polícia, o tapete, o capacho, o telefone, as campainhas de porta, as pessoas paradas pelas esquinas reparando em por debaixo das roupas das outras que passam?
Temes as palavras?
Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos, satisfações apressadas em campos de arrabalde?
Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros, as capelistas, a inflação, as úlceras do estômago ou sociais?

Que transportas ao colo
em silêncio e num xaile?
É a vida? Anúncios luminosos? Casas económicas? O mar? Irmãos? Reivindicações? Um livro?
Embalas e não respondes.

É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto? Um olhar? Um quadro? Uma poesia lírica?

(Oportunamente interrompida pela chegada de uma pessoa conhecida.)

- Jorge de Sena

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