domingo, julho 13, 2008

Del país de nunca jamás

Algumas invenções casuais e sem apelo
chegam-se ao papel por um momento
e outro de falso despertar,
tão próxima a cama da secretária
ou a janela, meio fechada, do corpo.
Uma dor mansa escreve-se mentindo
de um jeito bastante sincero, avizinhando-se
de outros quartos
tão inevitáveis quanto este -
por baixo de um vulcão, por entre abalos
de um fascínio drogado. A morosa
sintaxe e o desastroso vocabulário
discorrendo, saneando emoções sujas
de outras horas, muito vagas, literalmente
inanimadas.

Tardes de desmancho e a poesia,
como a solidão, desarrumada e dispersa.
Desviando a cortina verás o que quiseres:
domínios de sombra, lugares públicos,
uma presença muda que te não pertence
e que talvez queira, como tu, atirar-se pelos olhos
para fora do corpo. Recuas e distrais-te,
mordes um silêncio até te fixares na estante
dos livros. As escolhas mais difíceis.
Há uns meses e agora, daqui a uns anos descon-
tinuadamente, as palavras de Juan Luis Panero
ou as divisões e os corredores que espreitas,
mas nunca saberias dizer.

E pode ser que descubras agora (para o esqueceres
a seguir) que já não terás existido
assim que te falhe a respiração,
e que foste calçando o silêncio, para trás e
para trás, cada passo um sinónimo,
um insulto onde se veio lavando o teu rosto,
a tua pele e o que quiseste dizer. Repetindo as ruas,
deixando estragos, danos materiais
e impressões desvalidas, com uma esferográfica
que enfim secou sem nunca se cravar no olho de deus.

1 comentário:

Abssinto disse...

"There´s a war".