domingo, julho 06, 2008

Alcantis da Noite



Para a Ana e o Diogo
que estão sempre lá




Fomos pelos arredores da alegria,
tomando caminhos exíguos onde,
entre os três, dividimos alguns
sorrisos benignos. E o corpo
era a entrega mais fácil, o que primeiro
se adapta, desperdício vagante que
algumas vezes não pesa mais
que a ligeira impressão de não haver
regresso. Um gesto simples

e no ínicio da noite ficava extinta,
num cinzeiro, a primeira criança
que berrou, virando-se num desaire
afectivo - baloiço estragado
de um parque que há muito
deixou de facilitar-te ingenuidades,
delírios infantis e sonhos molhados.

Rumámos, calmos, com os estranhos
na obsidiante mistura de perfumes -
higiene prática entre sórdidos desvios,
harmonias despedaçadas,
senhas e contra-senhas
na lotaria da matéria carente:
Bem-me-quer, mal-me-quer -

gramáticas ordinárias e fruta
de uma época morta, crivada de ardores
e desejos em segunda-mão. É a elegia
possível, aturando olhares sem fundo
e despojos de novelas amorosas
a demorar nos degraus que te antecipam
todos os sentidos e quedas prováveis.

De bar para bar as pedras de gelo
acabariam por derreter (pensávamos).
E dançou-se mal, tão mal - mas o prazer
não passa também de uma variação
no modo, um livre estilo da mesma infeliz
desgraça. As mãos pareciam enfim
suficientes na reprodução hábil
dos males de consumo ou soluções
de melancolia, a treva estupefaciente
e tudo aquilo que pôde moderar
as tuas vagas palavras
- só assim significantes.

Estávamos a olhar as ruas, e nós próprios
a subir ou a descê-las, congestionadas
- descolorando lentamente
sob o vómito das flores, gastas
e enjoadas nos canteiros e varandas.

Tombados, distraídos com a indefinição
do fumo ou dos nossos contornos,
da cidade velha que sem caber em nós
nos suspirava - lânguidos transeuntes
atropelados sem surpresa
por um meridiano muito triste. E assim,
atravessando escolhos e coisas de nada,

assistimos enquanto desfiava a última
metáfora, estúpido vazio
declarando-se depois de tantas promessas.
Entretanto já o sol se armava nos pontos
mais elevados, e por aí percebemos
que nunca seríamos as testemunhas
daquilo que sucederá
no limite desta outra noite.

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