Na Vester Farimagsgade, neste quarto
de hotel sombrio, tentas escrever
um poema sem nicotina e ignoras quase tudo:
a língua em que te falam, os materiais
de construção do prédio em frente, o destino
dos comboios que perfuram o subsolo de Copenhaga.
Mas também o nome das flores e das plantas
que alastram pelas fachadas - ou que nuvens trazem
ou não trazem chuva à janela que deixaste aberta.
Não há muito para ver, esta noite. Bicicletas
louras atravessam uma estrada húmida
e fumegante, percorrem talvez felizes a ausência
de neve e de sentido. Enquanto não muito longe
(prometeste o segredo que não chegas a trair)
alguém toma por missão o que é obra
apenas do acaso: a poesia, essa doença
branda mas incurável que hoje se recusa
a visitar-te - com ou sem cigarros, impossível.
Asfixiada, quase gentilmente, pelas luzes todas do Tivoli,
onde o esquecimento obedece a tarifas sem retorno.
Deixa; não te fará mal - nem bem - menos
um poema na tua vida. No reflexo de múltiplas janelas,
em todos os comboios que perderes, encontrarás
somente a certeza da desaparição (embora, ao teu lado,
um corpo de mulher sonhe obstinadamente com a neve).
- Manuel de Freitas

Sem comentários:
Enviar um comentário