Um domingo e um caderno e uns versos.
Nunca nada e ninguém são o mesmo.
Pois o tempo, que morreu nos nossos braços,
assinalará apenas domingos, mortos
domingos com malhas, com manchas, sóis.
José Ángel Cilleruelo
de versos. A impressão de um afecto vadio e
sombras esvaídas que o narrador,
ainda meio embriagado, fará um esforço
por recordar. Neste último lagar
(ou caderno de apoio à esplêndida ruína
do corpo), cada pensamento
se dedica agora
à reconstrução dos factos, forjando
algumas provas, enunciando
os diminutivos todos e algumas observações
de natureza eufemística.
Aqui assoma-se o inconstante retorno
da pouco diversa fauna
nocturna que, por estas e outras linhas,
vai recuperando de dívidas em atraso,
fugas e evasões frustradas, desvios
impossíveis e mais coisas acumuladas
ao longo da semana. Era uma vez...
e depois outra, hábitos proibidos e
a despudorada confissão de segredos,
tudo o que álcool devolve à banalidade,
o mais puro estado que se consegue. E o mundo
começa assim também a parecer um lugar habitável
para quem goza, ainda que fugazmente,
desta estranha nacionalidade.
Corpos em liquidação, próximos, deixavam-se
ficar a ver cair uns restos de chuva,
num estacionamento com as luzes apagadas,
descontando num charro tudo aquilo
que não quer ter de se explicar em mais
que meia palavra.
Um pouco para lá da hora de fecho
das piores casas que nos recolhem, afinal,
a cidade mostrava conhecer tão bem como nós
a dolorosa beleza de ser isto
um breve, às vezes estúpido, momento
de passagem
para um mais completo vazio.
Mais tarde, atravessando um postigo,
já num after hours, a música
ajudaria ainda a escoar o que restava
da alma. Uma aquietada dança
desembaraçava a falência dos intocáveis,
a falta de jeito de um último desejo
antes que as luzes se acendessem de novo.
Assim, depois de uns olhares,
com um gracejo lançado
além do bem e do mal, celebrava-se
outro acordo tácito, uma troca de nadas
por tempo muito indeterminado (naturalmente)
entre dois fins de mundo.
Hoje nem sequer acordaste, mas voltou
a ser domingo. Recuperas devagar o nome
e a triste pressa das coisas que se estragam.
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