Morrendo em conjunto, morreremos menos.
Daí à eternidade é só um passo.
A. M. Pires Cabral
doença obcecada com cada gesto que faças,
aquela flor ali que já nem quer que lhe chames
flor. Teve os seus dias, mas hoje
já não se importa com o sol, pasma
perante a sua própria sombra.
E em breve toda ela será apenas sombra
antes de se reduzir a pouco mais que nada.
O que acontece às flores acontece-te a ti.
A molesta tarde aproxima-se e senta-se
no lugar, sempre vago, junto a ti
e acompanha-te no que quer que tu estejas a beber.
Cicuta - seria talvez uma resposta bastante
poética, mas nos meus poemas raramente
se encontrará alguma virtude genuína,
só este deselegante e emudecido choro.
«Era outra imperial, por favor.»
A esta hora - já o observei antes -
cada parque, cada jardim ou esplanada,
tudo são estações terminais, imundas
praças que recolhem o que sobeja
das vidas. As sobras, os restos, um esgoto
por onde o pequeno monstro sensível
deambula horrorizado.
Não há espaço para inversões.
É teu um corpo de alucinação, desmazelado,
desfiando imagens numa veia lírica pobre
que a gotas vai chegando ao coração -
esse que é de todas elas
a imagem mais vezes refutada. Passam-se
os dias, assim, arvorando em volta
de coisas partidas ou estragadas, a cinza
dos momentos irrecuperáveis. Tens a voz quebrada
em vários sítios e, obrigado a devolver cada sonho,
ficaste com um passivo enorme nas mãos.
Um deus encarcerado, contido
entre elas, num ébrio bafo.
Gostarias de cair para lá da última fronteira,
numa língua intraduzível, de palavras
sem noção de si mesmas, escrever e escrever
para alimentar uma fogueira. Mas não.
Ficas debruçado nestas janelas altas,
atento aos habituais corpos, ensopados
em querosene e aguardando, indiferentes,
pelo riscar de um fósforo.
Sentado aqui pensas que talvez
fosse preferível não seres esquecido
porque nem te deste a conhecer.
Mas desembaraças-te de mais um verso,
outro que ainda não será aquele
que te fará deixar isto.
Entretanto já não perdes muito
do teu tempo lendo poetas que não sejam
portugueses. Se estamos a morrer neste país
que seja ao menos na companhia de quem partilha
o azar comum de cá ter nascido, e sobretudo
de aqui (e nesta língua) querer despedir-se.
E a verdade é que também
talvez seja só por isso que gostas
assim tanto, embora não da maioria,
dos poetas teus contemporâneos.
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