quarta-feira, maio 28, 2008

Pensamentos de Deola

Deola passa a manhã sentada no café
e ninguém olha para ela. A esta hora na cidade correm todos
ao sol matinal ainda fresco. Deola também
não procura ninguém, mas fuma com calma e respira a manhã.
Quando estava na pensão, a esta hora tinha de dormir
para recuperar as forças: a colcha da cama
sujavam-na com as botas soldados e operários,
os clientes que moem os rins. Mas, sozinhas, é diferente:
pode-se fazer um trabalho mais cuidado, com pouca canseira.
O senhor de ontem, ao acordá-la cedo,
beijou-a e levou-a (ficaria, querida,
em Turim contigo, se pudesse) com ele à estação
para que ela lhe desejasse boa viagem.

_____________________Sente-se tonta mas fresca hoje,
e agrada-lhe ser livre, Deola, e beber o seu leite
e comer brioches. Esta manhã é quase uma senhora
e, se olha para os passantes, é só para não se aborrecer.
A esta hora, na pensão dorme-se e cheira a bafio
- a patroa sai a dar um giro - é uma estupidez ficar em casa.
Para bater à noite os locais é preciso presença,
e na pensão, aos trinta anos, o pouco que resta perdeu-se

Deola senta-se expondo o perfil a um espelho,
e mira-se na frieza do vidro. Um pouco pálida a cara:
não é o fumo que paira no ar. Franze o sobrolho.
Era preciso a vontade da Marí, para continuar
na pensão (porque, minha cara, os homens
vêm aqui satisfazer caprichos que as mulheres
e as namoradas não saciam) e Marí trabalhava
incansável, cheia de brio, e vendia saúde.
Os homens que passam à frente do café não distraem Deola,
que só trabalha à noite, com lentas conquistas
ao som da música do cabaret. Lançando olhares
a um cliente ou procurando-lhe o pé, agradam-lhe as orquestras
que a fazem parecer uma actriz numa cena de amor
com um jovem rico. Basta-lhe um cliente
por noite e dá para viver. (Talvez o senhor de ontem
me levasse mesmo com ele). Estar só, se quiser,
de manhã, e sentar-se no café. Não procurar ninguém.

- Cesare Pavese

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