sexta-feira, maio 30, 2008

Los Borrachones

Falamos repetidamente do mesmo,
como quem exercita a pontaria num alvo
cansado - o corpo, a noite,
enfim, a morte.
Já não se trata de um desuso do tempo,
ou da vida que mal nos quer. O piano
embriagado, ao fundo da sala, às vezes
ainda encontra umas notas que nos sabem
magoar. Há momentos destes
em que quase parece fácil
recusar uma companhia afectiva,
o breve esplendor sexual e o dano de outras
palavras que se vão gravando
contra o mundo e a pele.

É tão mais simples controlar a pontuação
no papel, no guardanapo em cima de um balcão.
Desapontar reflexos, sem que nos preocupe
o tempo real ou a habilidade no ensaio
de uma expressão vazia.
Verter aos poucos todo o nosso desconhecimento
de causas, deixando levedar a solidão
na sombra de qualquer garrafa.
Invocar todas as atenuantes e movimentos
no escuro, trauteando canções
de embalar fantasmas e deixando
que neste brando lume se cozam
as melhores bebedeiras, enquanto
aperfeiçoamos um epitáfio.

A qualidade literária dos versos ficará
à consideração dos críticos e entusiastas
desse jubiloso mundo das artes
e dos talentos. Deste lado tanto nos faz.
Vamos lendo
no metro, no autocarro,
a caminho dos cemitérios do dia-a-dia,

apenas e só o que escrevem aqueles
que nos sabem trazer
essa frágil e tão cara sensação
de estarmos, pelo menos, em boa companhia.

2 comentários:

Daniel Ferreira disse...

Maravilhoso poema.

Anónimo disse...

Esporra!
Esporra pelos teus beiços abaixo é o que precisas.
Bichona dissimulada, tu precisas é de leites quentes nessa boca a ver se aprendes a escrever alguma coisa de jeito.