quinta-feira, maio 29, 2008

Any given Sunday

as a tribute to M. F.

A ironia é acordares cada vez mais
tarde para os dias iguais, este cruel bailado
amarrando-te o corpo a postes eléctricos,
à vertigem dos abismos repetidos
com acompanhamento de uma música
carregando-se de sincronismos, um ritmo
de que perdes a noção embora não falhes
o compasso.

Cada vez menos o improviso em que
acreditaste, nenhum jazz, apenas a aposição
do nome a esta sinfonia de pequenos e incalculáveis
desastres, declives e fossas que,
sob nenhum pretexto,
te darão descanso. A cidade colabora
como pode, rendendo as suas ruas à força
do hábito, oferecendo anteparos
onde atinges facilmente o auge
desse anonimato - de que tantos outros,
em vão, se esganam para lhe escapar.
E o que querias dizer é "o inevitável"
e os variáveis modos de a ele
nos resignarmos ou a regular sonolência
de uma cidade que nos manda morrer.
Mas, como sempre, talvez não seja exactamente
isto o que o verso quer, ainda assim
é certo que nos momentos
de maior eloquência, será o silêncio quem
por nós virá falar.

Por agora, e segundo parece, és demasiado
jovem (ou idiota), cometes os erros
e abusas da sua mais pura substância.
Extingues o pavio interior no peso e na forma
como o teu olhar se vai ancorando
ao fundo de simples acasos, lugares
onde gostarias de ver mais que coincidências
e validar estes anos que vais fazendo.
Mas afinal - depois de te espreguiçares
algumas vezes, de tomares o café e fumares
o primeiro cigarro - já estás de cabeça
perdida e, até sem o saberes, aprendes
a renunciar a sentidos profundos,
vais tolerando o esvaziamento de tudo
e a morte que, amigavelmente, te cerca.

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