quinta-feira, dezembro 27, 2007

Pedido de desculpa


Num período pós-natalício em que já podemos sentir algum alívio depois do sufoco de dura ironia destes nossos ansiosos tempos, é altura agora sim de avaliar aquilo que ficou largado pelo chão já que é preciso arrumar a casa, varrer o papel rasgado dos presentes e a caruma largada pelo pinheiro.
Qualquer altura é sempre uma boa altura para se pedir desculpa, não tanto uma desculpa por um ou outro erro - os erros são tão humanos que já ninguém nos chateia - temos um talão e direito a reclamar pela quantidade que nos cabe como humanos (essa coisa inexplicável) que somos - mas a mim o que me preocupa não são tanto os meus erros mas sobretudo os meus excessos.
Frequentemente me preocupo não com a dimensão dos meus erros mas com a minha tendência para exagerar, para sofrer demais em contextos que são vulgares como é a vida na maioria dos seus dias. Eu não conheço o plano secreto das coisas, eu não faço sequer uma boa ideia da organização (se é que isto tem alguma organização) do tempo e das situações, o que sei vem de uma confiança às vezes demasiado cega naquilo que sinto e eu sinto as coisas no peito. Ora sentir no peito é difícil, é mais fácil sentir frio ou calor, sentir dores na cabeça ou nos dentes mas quando alguma coisa vem direitinha a nós e nos torce o peito às vezes parece que o mundo está fora do eixo, parece que a dor que nos dói é uma dor impossível, e é impossível porque não se explica, porque não faz sentido, como nós não fazemos muito sentido.
Eu não faço muito sentido a não ser o sentido que dou às coisas e por vezes dou um sentido pesado a coisas que passam por mim como o dia-a-dia. Há dias que eu paro e não deixo que passem, há dias em que me apetece fazer as contas, ajustá-las, perceber o calendário.
Hoje por exemplo apanhei com a minha irmã um táxi, estávamos os dois muito cansados e eu senti que o taxista ia aproveitar a questão da bagagem (um saco tipo mochila) para nos engrupir. Mas eu estava cansado, perguntei-lhe (à minha irmã) se ela queria que fosse eu a pagar e ela disse que não. Fiquei cá fora a tirar as coisas e a prestar atenção à conversa. O taxímetro pedia cinco euros ele queria mais umas cervejas à nossa pala. Eu não fiz nada. Menos um euro e meio não faz diferença a não ser quando estamos dispostos a pagar isso ou o triplo para meter alguém no seu lugar. O problema é que depois o descaramento dele começou a provocar-me aquela irritação tardia e aí sim eu já queria pagar uma discussão, mas já era tarde. O táxi virava a esquina em direcção ao desaparecimento. Só que por uns dez minutos o taxista não desaparecia da minha cabeça - às vezes isso pode ser o suficiente para guardarmos o que sobrou e descontarmos a fúria em dobro no cabrão que se segue.
O que importa é estar vivo no momento. Ver as coisas desaparecerem quando desaparecem e lutar por aquilo que ainda está perante nós. Às vezes, infelizmente, não nos é dada a chance de fazermos muito quando algo nos acontece, e às vezes ainda bem que não temos essa chance porque certas lutas só levam a guerras, de qualquer forma o que não tem remédio...
O problema da felicidade é vivermos com a nossa capacidade de agressão e tentar acalmá-la quando o mundo está tão selvagem. Parece que tudo nos serve de apelo, em cada esquina há alguém que está mesmo a pedi-las - aquilo que sabemos que temos que fazer é passar, não dar importância, fingir... É complicado.

Perdi-me. Não interessa, a ideia era pedir desculpa - não tanto pedir desculpa a alguém que ande por aí mascarado por trás de uma chapa identificativa, alguém por trás de um nome, mas realmente pedir desculpa a quem sabe do que eu estou a falar, a quem percebe quando acabámos de nos exceder, de ultrapassar aquele limite para além do qual nem vale a pena dizermos que fazemos parte desse grupo, os humanos, o limite para lá do qual o melhor é tratar o mundo como uma selva e quem encontramos como os seus perigosos animais. Eu não quero viver nesse mundo e peço desculpa às pessoas que eu tratei como animais.
Também eu sei que é difícil ser-se humano, essa coisa sem explicação. Às vezes um pedido de desculpa pode fazer a diferença, e se não fizer então talvez nada mais faça.

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