x.
a mente retorcida, baralhada
entre as curvas apertadas de pensamentos
viciados nas horas mais escuras,
ideias sujas com manchas de dor e
uma imaginação como uma navalha
gritando ao desfiar as resenhas
onde a loucura aprende a sonhar
equilibrando-se entre os fios eléctricos
que suportam a cidade e a conduzem
nos seus veios, marcando o ritmo
de existências provavelmente
dispensáveis
com um olhar rouco e uma pele
feita de sustos, o esforço caminha
matando a sua sede no suor que oleia
as linhas de ferro do medo, aprecia
o suspiro do metro mesmo por baixo
das inconscientes ruas onde a luz
ainda vai desinfectando e limpando
o pus desta ferida a céu aberto,
segue desenhando rabiscos indecifráveis
que servem de mapa para os sacrifícios mentais
o homem que sente mais a comichão dos sintomas
desta depressão que nos come com o princípio
de cada novo dia
e ao passar o seu olhar como uma língua
pelos corpos que sem cerimónias o evitam
sente o cansaço de uma escolha
que não pode deixar de ser sua
é a primeira vez
e as primeiras vezes são sempre difíceis
só tem para si aquela sensação de que hoje
é mais que um novo dia
e antes que ele se acabe
alguém tem que morrer
xi.
a beleza não faz muito por um doente
não cura nem suaviza a dor, -
há quem entenda melhor que os outros
isto de que estou a falar - os doentes
atravessam constantemente
os mesmos corredores, as alas
psiquiátricas, como homens de negócios
presos numa noite que nunca mais acaba,
perdidos de insónia no lobby dos hotéis
a beleza,
apesar da beleza
os labirintos não se abrem, os monstros
caminham sempre sem nunca lá chegar, apenas
distraídos com os pormenores, e não é fácil,
é fácil demais - uma jovem, por um acaso
daqueles que o diabo mais gosta, bela,
tão habituada às promessas da felicidade
e
de um momento
para o outro
zás
- como um acidente,
como se um homícidio
fosse uma tragédia
impossível de justificar,
como se toda a loucura do mundo tivesse sido solta nessa noite e concentrasse toda a sua destrutividade no peso leve que é necessário sobre o gatilho para fazer gritar a palavra morte, ou no movimento demasiado perfeito que leva uma lâmina a abrir finalmente caminho, um caminho de sangue no pescoço de uma bela jovem,
uma bela jovem
capaz de distrair
qualquer monstro
sem nunca retribuir
a sua atenção
e zás, ou puf, ou chiu
o silêncio
sim, o silêncio e não aquele som histérico
que o hitchcock preferiu para esconder a verdade,
a verdade é que não há nada de terrível
numa faca que se afunda
esfomeada, contra a pele,
a carne, o osso, a vida,
e o sangue por fim, o sangue esse sumo
que esfria demasiado rápido, é verdade
a doçura de um momento de absoluta contracção
depois de todas as distracções, finalmente
e talvez ninguém o saiba explicar
mas um momento de inesquecível beleza
justifica uma existência monstruosa
um acto que tira uma vida
e sustêm a virtude
da imagem tão trágica quanto bela
e que nunca há-de envelhecer
nem mais um sorriso
nunca mais aqueles dentes perfeitos, alinhados
no orgulho do mundo... agora não são mais
que restos de um crime descansando para sempre
como um desperdício na memória daqueles
que se acostumaram a ter vergonha
das criaturas feias
xii.
recapitulemos,
a beleza só nos distraí
e só por momentos certos demais
enfim
uma ponta de cigarro, o último carro amarelo
que nos molha ao passar depressa
pela manhã cinzenta, a úlcera
que não tem horas para dormir,
um escarro sem nome, uma puta
que aprendeu a conhecer e mentir
a todo o tipo de homens, a dor de costas
que talvez faça hoje anos, um dente lá atrás
que baloiça como uma criança deficiente
e grita e canta e não tem hora para cair,
consegue mesmo fazer esquecer a dor de cabeça
onde se aninham todos os pensamentos
que sem desculpa chegam tarde
todos os dias ao emprego
na disfunção pública
de um corpo moribundo,
a pausa do café
aparece como uma lembrança súbita
o relógio sem concerto, parado,
ligado à noção do fluir dos dias
todos presos na corda de um gesto
da última recordação do avô
que ficou sem dar mais notícias
depois de uma destas inevitáveis manhãs
e o seu peso agora,
o peso pontual daquele sorriso,
pesa inteiramente no bolso
do casaco que é velho para casaco
que cobre o serial killer
enquanto ele atravessa o frio,
o rasto de mijo e merda
do passeio
deixa a velhice
como uma ponta de cigarro por apagar
e tem agora todo o tempo do mundo
para matar
xiii.
com a violência estúpida
de toda a sua infância
uma criança atravessa a rua
atrás da merda da bola de plástico colorida
que quase rebola para uma tragédia
digna de meia página nos diários do mísero país,
uma espécie de acontecimento útil aos dramaturgos
das edições em papel reciclável
onde se publicam
as recicláveis notas do dia-a-dia,
mas para azar dos jornalistas
o carro pára a tempo
o condutor sai como um herói
pronto para receber de uma mãe
(eventualmente) lavada em lágrimas
as mil desculpas distribuíveis
por outros tantos dias que passem
para este herói que na maioria das vezes
chega a casa sem nenhum feito heróico para contar
mas nem a criança olha para trás
nem há mãe nenhuma com olhos chorosos,
não há olhos, não há testemunhas,
é como se nada...
ninguém vigia aquela criança que cresce como tantas outras
como erros quase espontâneos
que acabam por se entregar
de alma e escuridão
a uma ou outra forma de delinquência
cada vez menos juvenil
- o sistema penal será sempre
a única mãe que sofre
pela infelicidade destes
rebentos acidentais...
escapando de uma tragédia
por sorte
a criança chega perto demais
do azar
cruza a linha desenhada a giz no chão
pela débil luminosidade da manhã,
a sombra de um estranho
prestes a dar fama a todos os estranhos
que motivam os cuidados das mães
que vigiam os seus filhos
sem avisos suficientes
a criança olha com curiosidade
em vez de terror e talvez por isso
ganhe algum tempo
tempo para uma hesitação
enquanto o serial killer
pensa que talvez esta criança
- ali, assim - seja um alvo fácil demais,
mas isso não é desculpa para alguém
que se quer estrear numa arte
para a qual também os números
são o mais importante,
ultrapassando o momento da hesitação
que é fatal para tantos artistas
o assassino finge o seu melhor sorriso
enquanto procura a sensação de controle
pela qual tanto tem anseado, e aproveita
para ensinar aquela criança
sobre as intenções afiadas
da sua navalha
rasga a bola colorida
nas mãos da criança
e o mundo pula e tropeça
num sonho
reduzido
a nada
é assim que se abre caminho,
e o serial killer inicia
a sua contagem
xiiii.
depois hei-de pensar melhor nisto
por agora diverte-me a ideia
de que o serial killer é um poeta
sem jeito para palavras
mas com umas punch lines fodidas
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