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ouve-se uma voz
vinda do lugar por baixo de nada,
certamente não há nada de errado nisso, e
a solidão só confirma o aspecto vulnerável de um corpo.
contra o escuro é que se respira a indefinição;
fica um olhar no seu vício,
o olhar viciado da criança perdida
no quarto dos brinquedos
ali, perante o excesso de possibilidades, as mãos
não conhecem a natureza dos gestos,
perdem-se como os ramos da figueira
seca, arrebanhada nos moldes dos ventos
é com o pensamento que se brinca,
a imaginação pega num ramo
e brinca como a criança
que finge ter uma espada e a força
para fender uma saída no escuro
é com o pensamento que se brinca,
o excesso de brinquedos faz entulho.
com todos os seus botões e armas de plástico
as bonecas e os bonecos
não se escapam dos enormes caixotes de cartão,
não se animam sem a personificação
que a mente solitária e infantil lhes concede
no escuro cada som só faz sentido
como uma palavra na linguagem das portas,
portas que se abrem para dentro da fantasia -
onde há luzes que iluminam
apenas o interior das suas lâmpadas
e onde se abrem novas portas para novos quartos
escuros, e à medida que o tempo se cansa
e nos envelhece, toda a nossa pressa se perde,
voltamos a ganhar o tempo ao tempo
e a perder tudo de volta com nós mesmos
deixamos os brinquedos esquecidos nos caixotes, reabrimos as portas,
acendemos as luzes e caminhamos - a sós - a única distância que há,
a distância entre o corpo e uma ideia eterna.
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