peço desculpa
não me sobra vida para o orgulho
e a que antes tinha já se suicidou
entretanto as paixões
converteram-se numa religião
de letargia e silêncio, ou desamor e solidão
as paredes do quarto onde ainda durmo
tenho-as cobertas de calendários com flores
que não murcham - canso-me
mas sou sensato
e já troquei o franzir da testa
por um sorriso plástico, vendável,
os insultos releguei-os para os espelhos -
depois do acto de contrição, tornei-me
um homem bom, embotado,
procurado por vícios
que ocupam as horas desmarcadas,
sempre possíveis... mesmo se alguém me viu
chorar ou vomitar não foi uma recaída,
no máximo foi ressaca dos dramas inúteis da vida
ou apenas uma réplica, sinais vitais que perduram
martelados pela impostura do coração.
recuei sem ter de fingir que tenho fé ainda
nalguma coisa,
oiço e vejo tudo com a paciência infinita
de quem não precisa de acreditar,
até o nirvana me desinteressa, nada, ponto
tornei-me a imitação do homem
uma coisa simplificada
sem pretensão ao mito
ou à História da vida e
aquilo que por fora se vê,
este corpo, faz sombra
ao que carrego por dentro
mesmo se por acidente tropeço
e te toco
peço desculpa
quanto aos versos, bem
são variações na forma
como se escrevem cartas,
iguais às outras, num gesto de despedida
_________________________________________all apologies
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