sábado, setembro 01, 2007

the thing

[Strange_days_by_Yamamura.jpg]
Eu acho que vai ficar cada vez mais fácil dizer o que nos torna diferentes. O tempo ajuda, as quedas dão-nos as nossas feridas, os primeiros traços e depois formam-se as crostas que não paramos de escarafunchar... No final o resultado são as marcas, estas marcas que um dia nos envergonham e noutro se tornam uma distinção que merece algum orgulho. Ninguém é demasiado definido mas é certo que a estranheza acaba por ser aquilo que mais facilmente se assume como a propriedade pessoal ou a personalidade. Antes sentia que não era difícil encontrar alguém, hoje isso parece muito complicado. Ter uma conversa é uma coisa difícil. Já tudo tem regras. O tempo que por nós passa e nos envelhece vai-nos encrostando às rochas e ao chão, somos cada vez mais sombrios e necessariamente distantes - há em nós um culto para o mundo com obrigatória devolução a nós próprios. Se tiver que exemplificar isto posso dizer que me tornei tão amargo que sinto a necessidade de me esconder realmente e ser profundamente falso para conseguir dar feedback à maioria das pessoas que me abordam e não o faço por mal, nem considero que seja uma atitude condescendente, pelo contrário, o que penso é que tenho que ter cuidado com as minhas desenvolvidas tendências porque a forma como me habituei ao conforto do meu monólogo interior depois demonstra uma atitude de ressentimento para com o exterior. Sinto isto, um dever, a obrigação de me manter preso a uma árvore e não ir além de um raio curto à sua volta e isso não foi um compromisso a que me achei voluntariamente confinado, não, foi mesmo uma coisa que vi como essencial porque estava a receber muitos olhares de espanto e comentários daqueles que só nos chegam por correio semanas depois.
Há ainda uma coisa que nos inclina uns para os outros, uma coisa que nunca vai deixar que nos fechemos todos em buraquinhos só nossos. Há uma vontade de exteriorizar, de nos olharmos ao espelho. Pode ser que passemos algum tempo evitando o espelho mas acabamos sempre por descair sobre o nosso reflexo para rever essa figura que ao mesmo tempo nos provoca horror e também vaidade. Mas o reflexo no espelho é uma imagem fechado num quadrado, rectângulo, crírculo, não se move pela vida - mesmo a nossa imagem exterior só está pintada com moção e emoção na imagem mental que os outros desenham de nós. Nos outros achamos o reflexo do que se encontra por dentro de nós misturado com a imagem dos nossos movimentos. Assim mesmo que seja num texto ou numa outra manifestação do que temos e somos acabamos sempre por pocurar um acordo onde outro alguém se sinta à vontade para nos apreciar ou depreciar.
O que me custa é segurar o estranho, o tipo absolutamente estranho que tenho e que encontro também nas pessoas com quem me vou cruzando - pouco, cada vez menos. É inegável esta personagem que se começa a afirmar nas nossas manias e hábitos, um bicho que responde muitas vezes por nós, toma conta de reflexos importantes, é deseducado e rude e se não formos duros com nós próprios como mentores ou educadores, mais tarde numa situação em que seja necessário pormos a funcionar o nosso melhor comportamento estaremos sempre nervosos, como reféns, sempre com medo do bicho, com medo que ele assuma o comando ou queira vir dizer um olá!
As pessoas tornam-se difíceis, estúpidas e mesmo más quando não é com inteligência que medem os seus actos. Porque há uma tendência em nós e essa não é aquela que nos leva à virtude. Talvez virtude se defina exactamente como a capacidade que somos desenvolvemos (ou não) para combater os nossos maus espíritos ou instintos.
A racionalidade não é uma manifestação completamente natural em nós, é mais como um prémio a que fomos ganhando direito depois da longa caminhada para a mudança, ou seja, através do nosso processo de evolução enquanto espécie.

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