![[SeaBallycotton.jpg]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhhCULIQAzYMh3kwe1N_-YcajC3S9aOyWTUsZGMsNeSiR9T75Y1h3qmo9lFr6ulytyBXxFIU1FoyUIUTP2Rc6mqaT_nenNtAnZC8ngEf1W4rYb1obJJpT_jW6I2VeAmC2htSQMe/s1600/SeaBallycotton.jpg)
Talvez neste momento fosse amplamente justificável e aceitável que surgisse uma filosofia direccionada no sentido de cobrir uma das atitudes mais vetadas pela cultura plástica e comercial dos nossos tempos. É assustadora a forma como os títulos de consumo se tornaram referências incontornáveis no dia a dia e acontece que as afirmações do tipo "eu vou" ou "eu fui" são statements populares pouco definidos mas muito eficientes. Há toda uma dimensão perversa onde as pessoas desejam encaixar-se, nos acontecimentos que as rodeiam, como forma de se sentirem mais vivas, mais participativas. No fundo estão apenas a entrar no jogo dos publicistas que precisam desta adesão para venderem os seus produtos.
A atitude que eu gostava de ver protegida é a da abstenção, abnegação ou talvez o termo mais simbólico seja o da desistência. Sim, uma tendência para o comportamento que procure desvirtuar os sinais da moda e procurar um equilíbrio dentro da negação daquilo que é tido como normal mas que não passou sequer pelo processo da dúvida ou do momento em que tudo merece ser posto em causa. Eu sou um fervoroso defensor da ideia de que o excesso de informação provoca em nós um bloqueio, uma incapacidade para reflectir o mundo de forma organizada e para mim isso é tanto mais perigoso quanto mais vontade há em nós de irmos a todas, ou sentirmos que devemos estar constantemente presentes nas actividades sociais do nosso tempo.
A selecção sempre foi a marca de distinção entre o que nos serve e o que não nos interessa. Os valores sobre qualidade são sempre exercícios difíceis mas são inerentes a um espírito que é intelectual e que tem necessidade de perceber aquilo em que se embrenha. Parece-me que o espírito intelectual é algo que está a ficar preso na barreira de informação excessiva que nos atropela diariamente.
A mim preocupa-me muito a informação não apenas como corrente ao serviço dos interesses comerciais mas a sua própria substância, que permite diferenciar informação de contra-informação. Acredito que já não podemos ler um livro sem um elevado grau de desconfiança. Julgo que as coisas estão montadas de uma maneira em que se o nosso trabalho de casa não for sempre no sentido de fazer a prova dos nove à lição do "professor" muito provavelmente estaremos a ser sistematicamente engrupidos, e conduzidos pela boa fé a erros que se vão aprofundando no nosso inconsciente até a consciência estar finalmente submersa no lodo acrítico.
As festas e os eventos de maior destaque a nível socio-cultural renderam-se aos factores de lógica económica que operam sempre tendo em vista as grandes margens de lucro a curto prazo ou imediato. São os bancos hoje em dia os principais mecenas e a arte que alimentam é muitas vezes uma pseudo arte ou, por outras palavras, uma realização que não promete tanto ao Homem como às estratégias de investimento de capitais. Estou a falar de um mundo em que houve uma subversão das utilidades intelectuais para as necessidades do progresso económico e não haja dúvidas que aquilo que os valores económicos na sua racionalidade numérica tentam operar é uma conversão do que é multi numa unidade de poder totalitário.
Para os religiosos será fácil fazer um paralelismo entre os novos dogmas do progresso sustentado pela economia dos países e aquilo que é o triunfo do mal, a vitória do anticristo.
A globalização tem um arsenal de imagens, promessas e pequenas provas que aos poucos conquistam a nossa reserva em relação à mudança - e somos mesmo levados a crer que a tradição é afinal um enorme buraco, um poço onde apenas vamos beber veneno para o espírito. Mas isso também está errado. Com certeza que podemos apontar às tendências tradicionais graves dificuldades que enfrentámos ao longo da história no sentido de serem defendidos os meios de igualdade entre os povos e a raça humana, os meios de liberdade e dignidade para a vida humana, ainda assim a tradição é um factor de identidade que nos lembra a nossa história, que nos coloca em perspectiva perante aquilo que foi uma experiência partilhada sobre a vida e o mundo.
Nos dias que correm a tradição é axincalhada a favor duma moral passageira. Uma instância pervertida pelo movimento dos ponteiros a favor dos apetites para os quais estamos sempre a ser intimados pelas agressivas campanhas comerciais e políticas. Vivemos num pantâno entre criaturas dissimuladas que nos atacam pelos flancos - somos vitímas da nossa própria subconsciência.
O problema da guerra movida pelos interesses económicos contra cada um de nós é que estamos realmente a ser instrumentalizados na maneira como sem sequer o podermos entender, todos os dias, somos alvos fáceis de discretas operações de venda. Com o passar dos tempos e à medida que sem sequer darmos por isso vamos cometendo alguns erros acabamos mesmo por verificar que o nosso rasto indica que estamos alinhados numa fila do sistema operativo em que o homens se tornaram trabalhadores de uma complexa linha de montagem... Quando os filósofos modernos nos abrirem finalmente os olhos já a liberdade terá voado pela janela.
Quando eu falo de forma apologética numa espécie de disciplina da desistência (se é que se pode falar nestes termos) aquilo que procuro é realçar a necessidade de sermos nós a definir padrões éticos no nosso comportamento que com algum sacrifício para nós se afastem da norma e procurem uma libertação deste mecanismo em que estamos sempre a avançar na projecção de limites demasiado concretos e que apenas iludem a nossa necessidade de alegria e felicidade, quando afinal estamos a caminhar na esteira de um programa que se baseia nas nossas falibilidades para se apoderar dos nossos esforços.
Quando no filme Matrix é revelado que os humanos foram encaixados num programa de realidade virtual para satisfazerem as necessidades energéticas da máquina parece-nos surreal essa sugestão. Mas devemos estabelecer um paralelismo com a actual situação em que o mundo se vê imerso. Estamos cada vez mais reféns de estruturas organizadas de poder que se apoiam no logro de princípios de liberdade com meios opressivos para camuflarem fins obscenos, concretizados através de esquemas que indirectamente nos colocaram a todos como peões num jogo de xadrez que faz de nós peças dispensáveis.
O mundo não está à beira de nada. Já começou, nós só ainda não conseguimos ganhar uma consciência imediata disso mesmo.
George Orwell entre muitos outros autores escreveram sobre cenários que pareciam possibilidades distantes e não é que o mundo tenha mudado muito, acontece é que de ano para ano o plano tem sido seguido de acordo com o ritmo matemático da multiplicação. Em pouco tempo tornar-se-á demasiado evidente que é o dinheiro o novo senhor esclavagista, desumano e castigador. Vivemos afectados pelo medo de uma guerra mundial que deixou terríveis fantasmas na Europa e um só país surgiu como hiper-potência mascarada por uma democracia que deixou de corresponder aos interesses do povo mas é apenas resposta a uma vontade negra debaixo de um acordo entre a elite que decidiu que o mundo está melhor se for "controlado" pela inteligência de poucos contra a dispersão dos muitos que somos nós - cada vez menos unidos. Temos que ser mantidos na rédea de uma opressão invisível porque as tácticas do passado falharam, esta é a nova.
É claro que em todos os tempos se vaticinou o fim do mundo e parece que o mundo ainda aqui está. O que muita gente esquece é que o mundo realmente se acabou, muitas vezes... Não dispensem isto que vou dizer simplesmente porque vos pode parecer um lugar comum bastante lamechas mas os nossos mortos são irrecuperáveis. Temos a sua memória, temos legiões de sacrificados que ultrapassam largamente o número total de pessoas que estão vivas neste mundo. Nós temos uma divída de respeito para com a história e se não for porque devemos dignificar a luta dos mortos pelo menos temos que ser suficientemente egoístas ao ponto de percebermos que há tabelas onde as mortes se traduzem em números e podemos ficar a olhar para elas e continuar a ver avançar a contagem eternamente. Neste momento estão pessoas a ser sacrificadas não para libertar outras pessoas da opressão dos regimes fascistas mas para proteger os interesses fascistas deste mundo global.
O nosso problema é que a própria educação se tornou uma arma em nosso desfavor. Os fantasmas do nosso passado e o medo impedem-nos de ver que a tendência do mundo se organiza em ciclos onde passamos de momentos de paz para outros de luta e sofrimento. O projecto de um mundo unificado é um projecto tirano que vai contra o desenvolvimento multi-cultural dos povos da raça humana. Somos seres sociais mas convivemos apenas na medida em que há uma base diferencial, aquilo que constitui a nossa identidade, ou seja, aquilo que nos torna únicos e, portanto, individuais.
A liberdade é todo o passo no sentido de se reconhecer a individualidade da pessoa contra o regime. Qualquer regime que se alimente da supressão dos direitos individuais com vista a conferir segurança aos interesses do todo ou da nação é um regime que tem uma agenda oculta e caminha num sentido que é dissonante dos interesses das pessoas.
O ser humano tem valor na medida em que sente a sua individualidade no contributo que presta à colectividade... Temos que entender que individualidade é algo que está intrinseamente ligado à nossa noção de identidade. Se entendermos que ao proteger a nossa identidade estamos a afirmar a condição ambiciosa do ser humano então é fácil perceber porque é que num mundo global organizado sob a égide dos valores comerciais valeremos muito pouco individualmente. Será baixo o nosso valor por unidade sempre que formos organizados como instrumentos de uma força de trabalho intensa, dedicada a um plano concebido por uma elite.
É verdade que o mundo pode desenvolver-se mais depressa se for uma elite a comandar os nossos destinos, mas esse desenvolvimento não é humano é maquinal, não é um desenvolvimento das oportunidades das pessoas e da inteligência mas sim um desenvolvimento da estrutura e ordem matemática onde uma vida vale um preço: o preço do que é capaz de produzir.
Para terminar recupero aquilo que disse inicialmente. É muito importante que para além de nos preocuparmos com a investigação, a verdadeira história do que aconteceu com as sociedades e o mundo até chegarmos aqui, temos que procurar ao mesmo tempo desenvolver uma filosofia e uma moral que sejam libertadoras, que sejam capazes de morder no império do conforto a favor de uma alegria mais intelectual, menos fútil.
Os sinais evidentes do horror desta hegemonia económica é o facto de que apesar da economia se ter desenvolvido cada vez mais e de haver cada vez uma maior disponibilidade dos meios de informação, nem por isso a cultura se desenvolveu muito. Não estou a querer contradizer a inegável observação de que há claramente mais cultura e maior facilidade no acesso à cultura mas temos que ter muito cuidado com a desinformação à volta deste conceito - cultura. Cultura hoje em dia serve para praticamente tudo senão tudo mesmo. Conceitos tão indeterminados são muito perigosos. Se é evidente que se produz mais cultura e há maior difusão é importante perguntar que cultura é essa, será que é uma cultura que serve o ser humano (inteligente) ou é mais um produto fabricado no intuito de nos converter à religião do dinheiro, à tendência mercantil de uma sociedade que se droga constantemente com a perpectiva do que se segue já a seguir em vez de estar atenta às profundas consequências que um regime tão pesado poderá permitir num futuro cada vez mais próximo.
O mundo será sempre um palco de conflitos, compete-nos decidir quais são as batalhas justas e se é necessário usar a força para fazer respeitar a liberdade ou se contra as armas a inteligência pode alguma coisa. Cabe-nos a cada um de nós o esforço de manifestar nos pequenos sinais a abertura para um esclarecimento e reflexão sobre o que interessa mais e menos, que qualidades queremos para o nosso futuro.
A atitude que eu gostava de ver protegida é a da abstenção, abnegação ou talvez o termo mais simbólico seja o da desistência. Sim, uma tendência para o comportamento que procure desvirtuar os sinais da moda e procurar um equilíbrio dentro da negação daquilo que é tido como normal mas que não passou sequer pelo processo da dúvida ou do momento em que tudo merece ser posto em causa. Eu sou um fervoroso defensor da ideia de que o excesso de informação provoca em nós um bloqueio, uma incapacidade para reflectir o mundo de forma organizada e para mim isso é tanto mais perigoso quanto mais vontade há em nós de irmos a todas, ou sentirmos que devemos estar constantemente presentes nas actividades sociais do nosso tempo.
A selecção sempre foi a marca de distinção entre o que nos serve e o que não nos interessa. Os valores sobre qualidade são sempre exercícios difíceis mas são inerentes a um espírito que é intelectual e que tem necessidade de perceber aquilo em que se embrenha. Parece-me que o espírito intelectual é algo que está a ficar preso na barreira de informação excessiva que nos atropela diariamente.
A mim preocupa-me muito a informação não apenas como corrente ao serviço dos interesses comerciais mas a sua própria substância, que permite diferenciar informação de contra-informação. Acredito que já não podemos ler um livro sem um elevado grau de desconfiança. Julgo que as coisas estão montadas de uma maneira em que se o nosso trabalho de casa não for sempre no sentido de fazer a prova dos nove à lição do "professor" muito provavelmente estaremos a ser sistematicamente engrupidos, e conduzidos pela boa fé a erros que se vão aprofundando no nosso inconsciente até a consciência estar finalmente submersa no lodo acrítico.
As festas e os eventos de maior destaque a nível socio-cultural renderam-se aos factores de lógica económica que operam sempre tendo em vista as grandes margens de lucro a curto prazo ou imediato. São os bancos hoje em dia os principais mecenas e a arte que alimentam é muitas vezes uma pseudo arte ou, por outras palavras, uma realização que não promete tanto ao Homem como às estratégias de investimento de capitais. Estou a falar de um mundo em que houve uma subversão das utilidades intelectuais para as necessidades do progresso económico e não haja dúvidas que aquilo que os valores económicos na sua racionalidade numérica tentam operar é uma conversão do que é multi numa unidade de poder totalitário.
Para os religiosos será fácil fazer um paralelismo entre os novos dogmas do progresso sustentado pela economia dos países e aquilo que é o triunfo do mal, a vitória do anticristo.
A globalização tem um arsenal de imagens, promessas e pequenas provas que aos poucos conquistam a nossa reserva em relação à mudança - e somos mesmo levados a crer que a tradição é afinal um enorme buraco, um poço onde apenas vamos beber veneno para o espírito. Mas isso também está errado. Com certeza que podemos apontar às tendências tradicionais graves dificuldades que enfrentámos ao longo da história no sentido de serem defendidos os meios de igualdade entre os povos e a raça humana, os meios de liberdade e dignidade para a vida humana, ainda assim a tradição é um factor de identidade que nos lembra a nossa história, que nos coloca em perspectiva perante aquilo que foi uma experiência partilhada sobre a vida e o mundo.
Nos dias que correm a tradição é axincalhada a favor duma moral passageira. Uma instância pervertida pelo movimento dos ponteiros a favor dos apetites para os quais estamos sempre a ser intimados pelas agressivas campanhas comerciais e políticas. Vivemos num pantâno entre criaturas dissimuladas que nos atacam pelos flancos - somos vitímas da nossa própria subconsciência.
O problema da guerra movida pelos interesses económicos contra cada um de nós é que estamos realmente a ser instrumentalizados na maneira como sem sequer o podermos entender, todos os dias, somos alvos fáceis de discretas operações de venda. Com o passar dos tempos e à medida que sem sequer darmos por isso vamos cometendo alguns erros acabamos mesmo por verificar que o nosso rasto indica que estamos alinhados numa fila do sistema operativo em que o homens se tornaram trabalhadores de uma complexa linha de montagem... Quando os filósofos modernos nos abrirem finalmente os olhos já a liberdade terá voado pela janela.
Quando eu falo de forma apologética numa espécie de disciplina da desistência (se é que se pode falar nestes termos) aquilo que procuro é realçar a necessidade de sermos nós a definir padrões éticos no nosso comportamento que com algum sacrifício para nós se afastem da norma e procurem uma libertação deste mecanismo em que estamos sempre a avançar na projecção de limites demasiado concretos e que apenas iludem a nossa necessidade de alegria e felicidade, quando afinal estamos a caminhar na esteira de um programa que se baseia nas nossas falibilidades para se apoderar dos nossos esforços.
Quando no filme Matrix é revelado que os humanos foram encaixados num programa de realidade virtual para satisfazerem as necessidades energéticas da máquina parece-nos surreal essa sugestão. Mas devemos estabelecer um paralelismo com a actual situação em que o mundo se vê imerso. Estamos cada vez mais reféns de estruturas organizadas de poder que se apoiam no logro de princípios de liberdade com meios opressivos para camuflarem fins obscenos, concretizados através de esquemas que indirectamente nos colocaram a todos como peões num jogo de xadrez que faz de nós peças dispensáveis.
O mundo não está à beira de nada. Já começou, nós só ainda não conseguimos ganhar uma consciência imediata disso mesmo.
George Orwell entre muitos outros autores escreveram sobre cenários que pareciam possibilidades distantes e não é que o mundo tenha mudado muito, acontece é que de ano para ano o plano tem sido seguido de acordo com o ritmo matemático da multiplicação. Em pouco tempo tornar-se-á demasiado evidente que é o dinheiro o novo senhor esclavagista, desumano e castigador. Vivemos afectados pelo medo de uma guerra mundial que deixou terríveis fantasmas na Europa e um só país surgiu como hiper-potência mascarada por uma democracia que deixou de corresponder aos interesses do povo mas é apenas resposta a uma vontade negra debaixo de um acordo entre a elite que decidiu que o mundo está melhor se for "controlado" pela inteligência de poucos contra a dispersão dos muitos que somos nós - cada vez menos unidos. Temos que ser mantidos na rédea de uma opressão invisível porque as tácticas do passado falharam, esta é a nova.
É claro que em todos os tempos se vaticinou o fim do mundo e parece que o mundo ainda aqui está. O que muita gente esquece é que o mundo realmente se acabou, muitas vezes... Não dispensem isto que vou dizer simplesmente porque vos pode parecer um lugar comum bastante lamechas mas os nossos mortos são irrecuperáveis. Temos a sua memória, temos legiões de sacrificados que ultrapassam largamente o número total de pessoas que estão vivas neste mundo. Nós temos uma divída de respeito para com a história e se não for porque devemos dignificar a luta dos mortos pelo menos temos que ser suficientemente egoístas ao ponto de percebermos que há tabelas onde as mortes se traduzem em números e podemos ficar a olhar para elas e continuar a ver avançar a contagem eternamente. Neste momento estão pessoas a ser sacrificadas não para libertar outras pessoas da opressão dos regimes fascistas mas para proteger os interesses fascistas deste mundo global.
O nosso problema é que a própria educação se tornou uma arma em nosso desfavor. Os fantasmas do nosso passado e o medo impedem-nos de ver que a tendência do mundo se organiza em ciclos onde passamos de momentos de paz para outros de luta e sofrimento. O projecto de um mundo unificado é um projecto tirano que vai contra o desenvolvimento multi-cultural dos povos da raça humana. Somos seres sociais mas convivemos apenas na medida em que há uma base diferencial, aquilo que constitui a nossa identidade, ou seja, aquilo que nos torna únicos e, portanto, individuais.
A liberdade é todo o passo no sentido de se reconhecer a individualidade da pessoa contra o regime. Qualquer regime que se alimente da supressão dos direitos individuais com vista a conferir segurança aos interesses do todo ou da nação é um regime que tem uma agenda oculta e caminha num sentido que é dissonante dos interesses das pessoas.
O ser humano tem valor na medida em que sente a sua individualidade no contributo que presta à colectividade... Temos que entender que individualidade é algo que está intrinseamente ligado à nossa noção de identidade. Se entendermos que ao proteger a nossa identidade estamos a afirmar a condição ambiciosa do ser humano então é fácil perceber porque é que num mundo global organizado sob a égide dos valores comerciais valeremos muito pouco individualmente. Será baixo o nosso valor por unidade sempre que formos organizados como instrumentos de uma força de trabalho intensa, dedicada a um plano concebido por uma elite.
É verdade que o mundo pode desenvolver-se mais depressa se for uma elite a comandar os nossos destinos, mas esse desenvolvimento não é humano é maquinal, não é um desenvolvimento das oportunidades das pessoas e da inteligência mas sim um desenvolvimento da estrutura e ordem matemática onde uma vida vale um preço: o preço do que é capaz de produzir.
Para terminar recupero aquilo que disse inicialmente. É muito importante que para além de nos preocuparmos com a investigação, a verdadeira história do que aconteceu com as sociedades e o mundo até chegarmos aqui, temos que procurar ao mesmo tempo desenvolver uma filosofia e uma moral que sejam libertadoras, que sejam capazes de morder no império do conforto a favor de uma alegria mais intelectual, menos fútil.
Os sinais evidentes do horror desta hegemonia económica é o facto de que apesar da economia se ter desenvolvido cada vez mais e de haver cada vez uma maior disponibilidade dos meios de informação, nem por isso a cultura se desenvolveu muito. Não estou a querer contradizer a inegável observação de que há claramente mais cultura e maior facilidade no acesso à cultura mas temos que ter muito cuidado com a desinformação à volta deste conceito - cultura. Cultura hoje em dia serve para praticamente tudo senão tudo mesmo. Conceitos tão indeterminados são muito perigosos. Se é evidente que se produz mais cultura e há maior difusão é importante perguntar que cultura é essa, será que é uma cultura que serve o ser humano (inteligente) ou é mais um produto fabricado no intuito de nos converter à religião do dinheiro, à tendência mercantil de uma sociedade que se droga constantemente com a perpectiva do que se segue já a seguir em vez de estar atenta às profundas consequências que um regime tão pesado poderá permitir num futuro cada vez mais próximo.
O mundo será sempre um palco de conflitos, compete-nos decidir quais são as batalhas justas e se é necessário usar a força para fazer respeitar a liberdade ou se contra as armas a inteligência pode alguma coisa. Cabe-nos a cada um de nós o esforço de manifestar nos pequenos sinais a abertura para um esclarecimento e reflexão sobre o que interessa mais e menos, que qualidades queremos para o nosso futuro.
1 comentário:
Este texto é uma boa contribuição para a tomada de consciência e a reflexão que é urgente para todos os que se vêem como livres, racionais e autónomos nas suas decisões. Ainda temos alguma coisa que ver com essa utopia ou não? Se sim,é fundamental procurar olhar a realidade com olhos assim e, apesar de/contando com todas as nossas limitações, percebermos o que nos interessa e que qualidades queremos ver projectadas para o futuro. Teve pelo menos uma leitora interessada.
Enviar um comentário