Estávamos os dois no comboio
para Tomar, mais precisamente
no gueto trepidante dos fumadores,
quando ele me pediu o isqueiro
"só p'ra fazer um charro" e eu lho dei.
Gastou-o nisso, quis-mo pagar, declinei
(tinha aliás outro, de um mais fraco azul).
Algumas estações à frente, voltou
a precisar do lume que garantisse
um pouco mais de esquecimento.
Fumámos juntos, falando sobre o tempo
e outras derrotas banais. A surpresa maior,
porém, foi quando me disse a vontade
de ler que a "moca" por hábito lhe trazia.
Que só tinha livros estranhos, ripostei,
mas qualquer (afiançou) serviria ao seu desejo.
Emprestei-lhe o menos bizarro –que era
meu, de poemas– disfarçando mal o embaraço.
Leu uma dúzia de páginas (a minha estação
estava próxima), cabeceando às vezes
e passando as folhas com dificuldade.
Outras obras, percebia-se, requeriam
os seus dedos largos e fabris.
"Tem poemas fixes", foi o seu único
comentário, talvez o que de todos prefiro,
tão distante do esterco dos jornais.
A verdade, apeteceu-me dizer, é que
os comboios e a teoria da literatura
nunca levaram a lado nenhum. Em vez disso,
agradeci o charro, deixei-lhe o isqueiro
e nem sequer menti ao desejar-lhe "Bom Natal".
- Manuel de Freitas
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