segunda-feira, agosto 06, 2007

Retrato de poeta desconhecida

1

Abordou-me em frente à
Brasileira, na fria tarde
de Janeiro. Hesitante,
segurava uma mochila preta.
Pensei que ia pedir uns trocos,
cigarros, respostas inúteis
a um inquérito de passagem.

Enganei-me. Afinal, estamos
todos demasiado habituados
a dizer que não. Queria apenas
saber se eu gostava de prosa
- ou de poesia. Se gostasse,
tinha um livro para me mostrar, dele,
que vendia com dedicatória e tudo.

Embaraçado, não quis ver
- e caíu-me redondo o sorriso,
ao perceber-lhe no rosto o desânimo.
A culpa, essa, chegou pouco depois.

Nunca saberei se falava
com a melhor ou a pior
poeta da minha geração.
Mesmo em frente à Brasileira,
sob o frio irrespirável de Janeiro.



2

Não. Chamava-se Tília Ramos
(pseudónimo, claro)
e abordou-me junto ao multibanco,
pouco antes de este livro
ser entregue a um possível editor.

"Se gostava de literatura",
voltou a dizer, ao que de novo
respondi "depende". Mas desta vez
mostrou-me as fotocópias,
que folheei ali mesmo,
preterindo um café na Brasileira.

Maiúsculas, erros de ortografia,
uma incorrigível solidão.
Só fui capaz de dizer
que a poesia não era muito
o meu género. E com isto,
Tília Ramos, não estou certo
de lhe ter mentido.

Pudesse eu, por escassos segundos,
vê-la menos infeliz. Mas já
as folhas A4 se amarrotavam
no seu peito e partiam, pela tarde
fora, em busca de melhor leitor.

- Manuel de Freitas

Sem comentários: