quinta-feira, agosto 30, 2007

resolvi ser

sou a pedra que fica
depois do homem
petrificado

sou a língua cuspida
depois da palavra
maldita

sou o eco
da conversa entre duas pessoas
que deixaram de se falar

sou o riso ensaiado
pelo último palhaço
antes de se suicidar

sou um momento
de pausa para pensar
a meio de um poema

sou para sempre
os gestos irreflectidos
à frente de um espelho

sou uma mulher
que se sente um menino abandonado
no corpo de um homem

sou a angústia
de uma chuva intensa
quando havia planos para depois

sou a casa
sem portas nem janelas
onde alguém está fechado

sou o escuro
dentro de uma caixinha
sem surpresas

sou uma promessa
à espera de alguém
a quem se possa dar um beijo

sou uma mensagem de amor
com o espaço para o nome
deixado em branco

sou o frio e um espirro,
uma constipação, uma gripe,
uma pneumonia e uma última palavra

sou ainda eu
até já, até logo e até amanhã
se Deus quiser.

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