sou a pedra que fica
depois do homem
petrificado
sou a língua cuspida
depois da palavra
maldita
sou o eco
da conversa entre duas pessoas
que deixaram de se falar
sou o riso ensaiado
pelo último palhaço
antes de se suicidar
sou um momento
de pausa para pensar
a meio de um poema
sou para sempre
os gestos irreflectidos
à frente de um espelho
sou uma mulher
que se sente um menino abandonado
no corpo de um homem
sou a angústia
de uma chuva intensa
quando havia planos para depois
sou a casa
sem portas nem janelas
onde alguém está fechado
sou o escuro
dentro de uma caixinha
sem surpresas
sou uma promessa
à espera de alguém
a quem se possa dar um beijo
sou uma mensagem de amor
com o espaço para o nome
deixado em branco
sou o frio e um espirro,
uma constipação, uma gripe,
uma pneumonia e uma última palavra
sou ainda eu
até já, até logo e até amanhã
se Deus quiser.
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