domingo, agosto 05, 2007

O Lado Escondido de Todas as Coisas














Há poucos dias, acabei de ler um best-seller de Steven Levitt (em parceria com Stephen Dubner) - professor na Universidade de Chicago, formado em Economia pela Universidade de Harvard e considerado «uma das mentes mais brilhantes, objectivas e inovadoras da actualidade, no panorama das ciências económicas norte-americanas»-, «Freakonomics» (O Estranho Mundo da Economia). O primeiro aspecto do livro que levanta alguma curiosidade é o seu subtítulo: «O Lado Escondido de Todas as Coisas». Intrigou-me, desde logo, a prepotência do mesmo, pelo que julguei tratar-se de uma fraca estratégia para vender exemplares. Mas o sucesso de vendas deste livro e o acolhimento fervoroso de que foi alvo pela crítica levou-me a lê-lo, embora com alguma relutância.
Levitt não explica, de facto, o lado escondido de todas as coisas, mas de algumas muito interessantes. O autor principal limita-se a utilizar aquilo que ele considera a arma mais poderosa que alguma vez alguém teve ao seu dispor: a informação. Steven Levitt recorre à análise de dados infindáveis para responder a questões tão estúpidas e curiosas como «o que é que os professores e os lutadores de sumo têm em comum?», «por que é que os traficantes de droga ainda vivem em casa dos pais?» ou «o que faz os pais perfeitos?». O livro não tem qualquer tema unificador. Trata-se simplesmesnte de um conjunto de respostas para perguntas isoladas e sobejamente interessantes. Tudo misturado, resulta em 262 páginas que merecem um pouco de atenção, muito embora algumas das conclusões dos autores sejam algo controversas e susceptíveis de levantar acesa polémica.
Deixo-vos, então, um pequeno excerto de «Freakonomics», não muito extenso, mas ilustrativo daquilo que acabei de escrever:

«Vejamos, por exemplo, o caso dos pais de uma menina de oito anos, a que chamaremos Molly. As suas duas melhores amigas, Amy e Imani, vivem perto de sua casa. Os pais de Molly sabem que os pais de Amy têm uma arma de fogo; por isso, proibiram Molly de ir brincar para casa da amiga. Ao invés, Molly passa muito tempo em casa de Imani, que tem uma piscina no pátio das traseiras. Os pais de Molly sentem que tomaram uma decisão inteligente para proteger a sua filha.
Contudo, de acordo com os dados estatísticos, a sua decisão não foi, de modo algum, uma decisão inteligente. Nos Estados Unidos existe, todos os anos, um afogamento de uma criança por cada 11 000 piscinas residenciais (num país com 6 milhões de piscinas, isto significa ainda que, de um modo muito grosseiro, 550 crianças com menos de dez anos de idade morrem por afogamento todos os anos). Entretanto, há apenas uma crainça morta por arma de fogo num universo de um milhão de armas (num país onde se estima que existam 200 milhões de armas, isto significa, embora muito grosseiramente, que 175 crianças com menos de dez anos morrem atingidas por armas de fogo todos os anos). A probabilidade de morte por afogamento numa piscina (1 em 11 000) e a possibilidade de morte por uma arma de fogo (1 em 1 milhão) nem sequer se aproximam: de modo grosseiro, é cem vezes mais provável que Molly morra afogada em casa de Imani que a tiro em casa de Amy.
Mas a maioria de nós é, como os pais de Molly, mau avaliador do risco. Peter Sandman, "consultor de risco de comunicações" em Princeton, Nova Jérsia, fez a seguinte observação no princípio de 2004, depois de um único caso de doença das vacas loucas nos Estados Unidos ter provocado um frenesim contra o bife. "A verdade", disse Sandman no New York Times, "é que os riscos que assustam as pessoas e os riscos que matam as pessoas são muito diferentes".
(...) Sandman reduziu a sua sabedoria a uma equação simples: Risco = perigo + alarme.
(...) Ele reconhece que o alarme e o perigo não têm o mesmo peso na sua equação de risco. "Quando o perigo é alto e o alarme é baixo, as pessoas têm uma reacção mais fraca do que seria de esperar", defende. "E quando o perigo é baixo e o alarme é alto, têm uma reacção excessiva".
Assim, por que razão é que uma piscina provoca menos medo que uma arma? O pensamento de uma criança que é atingida no tórax com a arma de um vizinho é horrível, dramático, arrepiante - numa palavra, alarmante. As piscinas não inspiram esse mesmo alarme. Isto deve-se em parte ao factor de familiaridade. Da mesma maneira que a maioria das pessoas passa mais tempo a viajar de carro do que a viajar de avião, a maioria de nós tem muito mais experiência em nadar em piscinas do que em atirar com armas de fogo. Porém, para uma criança se afogar são suficientes cerca de trinta segundos; e isso acontece, frequentemente, de uma forma silenciosa. Uma criança pode afogar-se numa pequena quantidade de água. Os passos para prevenir o afogamento, entretanto, são bem simples: um adulto atento, uma vedação em redor da piscina, uma porta das traseiras fechada para que nenhuma criança se consiga escapulir para a rua sem ser vista.
Se todos os pais seguissem estas precauções, talvez se pudessem salvar as vidas de quatrocentas crianças pequenas todos os anos.»

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