segunda-feira, agosto 06, 2007

Marés
















Maré vazia.

Sobem e descem, enchem e vazam, as marés. E com este vai-e-vem de marés, também a maré de muitas pessoas enche e vaza, sobe e desce.
Gente conheci que vive ao sabor das marés, ora doce ora amargo. O seu sorriso muda de seis em seis horas e sabem que dois vezes doze é diferente de um vezes vinte-e-quatro, porque contam o mar.

O Sol e a Lua são os seus deuses, a gravidade a sua igreja. Rezam, porque sabem que eles existem, mas não têm fé porque sabem ainda melhor que a vontade divina é inflexivelmente indiferente aos seus pedidos e anseios. Uns pedem muito, outros pouco e outros até o justo meio, embora cientes de que nunca serão escutados.

A previsibilidade e a constância são os seus mais fiéis amigos, inundando a sua rotina de tranquilidade. A quadratura e a sizígia aparecem às vezes, para abalar a monótona paz destas pessoas um metro ou outro. Mas o cruel deus nocturno anuncia estas visitas, como quem estraga uma surpresa de propósito. E assim descem e sobem, vazam e enchem, as marés. E quem ao sabor delas vive é feliz.

Maré cheia.

2 comentários:

Diogo Vaz Pinto disse...

muito bem Tito, epá muito bem, gosto muito deste texto - diz-me várias coisas

Tito Rendas disse...

obrigado! voltei ontem de viagem e contactei com muitas pessoas (de origens e «ramos» diferentes) cujas vidas se regiam pura e simplesmente pelas marés... e apeteceu-me relatar isso.