O sentido do tempo e das coisas
fica pendurado à entrada
no cabide junto com os casacos e outras excessividades
numa estação que prefere não se definir.
Aos magotes os vivos invadem os cantos
de uma casa que espera noites como esta para ser usada.
Exagera-se muito na etiqueta
até se beber alguma descontracção
e quando o circo está montado
deixam-se os ocos elogios da praxe,
trocam-se receitas de culinária
e começam as impreteríveis narrações da vida quotidiana
que só ficcionada tem algum charme.
Obrigatório também é o revivalismo de recordações partilhadas
que reclamam ao esquecimento sensações autênticas
e tão breves...
No fundo conversa-se no sentido inverso ao da morte
até ao momento em que alguém pergunta
por alguém que está em falta
(um momento de silêncio em memória de…)
e depois nome a nome
confere-se a mais recente lista de obituários.
Quando está quase saciada a curiosidade dos sobrevivos
alguém se lembra que “já chega de coisas tristes”
o que irrita uns e recupera outros
mas a morte entretanto apareceu
e mesmo quando lhe tentam retirar o protagonismo
(ela está no meio de nós)
certos sinais tornaram-se incontornáveis
prematuras calvícies e incessantes rugas
mal disfarçadas pelos milagres da nova fé
cremes de composições indecifráveis como a vida
e os apaziguadores pós mágicos
que aprumam os rostos
para a demencial sessão fotográfica.
Instantes de hesitação forçada até à contracção dos esfíncteres emocionais
fazem-se os ensaios - “cheese!!!!” - sorrisos pegajosos
que se desvanecem envergonhadamente após cada flash.
A luz apaga-se
e sem surpresa aparece alguém
demasiado contente por trazer o bolo com as velas.
A turba desalmada canta os parabéns
sem se esquecer de pedir “muitos anos de vida”
(para quê ninguém saberá dizer)
e “uma salva de palmas”
não vá o silêncio abater-se depois do clímax
com o peso da frustração orgástica.
Antes de ser realmente tarde
os ponteiros dirão que está na hora e um a um
os convidados despedem-se como derrotados.
“Amanhã há mais”, ressaca para uns
simples desânimo para os outros.
A porta fecha-se e fica um eco surdo nos corredores
pesados os passos voltam atrás e um olhar
oscila perante a desarrumação da noite.
Finalmente se rasga o papel do último presente
uma lembrança daquela que sem ser convidada para a festa
sempre penetra
e no fim não se despede como os outros
fica no sofá recostada mantendo o sorriso (talvez o único natural)
e depois de uma pausa deixa a pergunta
“Divertiste-te?”
O dia acaba sem uma resposta,
o corpo afasta-se para a cama
mas ela ainda fica na sala
a acabar tranquilamente
o copo de whisky velho
com uma pedra de gelo.
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