domingo, agosto 05, 2007

A cultura e os inimigos

Deixo-vos aqui uma mensagem enviada por José Miguel Silva a José Mário Silva do Blogue de Esquerda no âmbito de uma discussão relativa aos subsídios aos escritores.

«Caro José Mário,
Envio-te mais um epigrama de nada, já antigo, mas ao qual acontecimentos recentes talvez confiram uma certa actualidade.
Uma das coisas que mais dá vontade de rir em certos apóstolos do liberalismo (económico) radical é a figura triste que fazem quando expressam a sua virtuosa indignação por essa abominável entidade que é o subsídio às actividades culturais. À maior parte deles nem vale a pena lembrar o apoio de que padeceram (ou não), sob a forma de patrocínio ou outra, os Mantegna, os Purcell, – poder-se-ia enumerar aqui toda, ou quase toda, a arte ocidental produzida entre o tempo de Cimabue e o de Mozart (pelo menos) – do nosso actual contentamento. Não vale a pena lembrar-lhes porque é uma gente, salvo as notórias excepções, profundamente ignorante e a quem a cultura mete medo. Não sabem para que serve, nem como funciona. Têm receio de não a saber desligar, ou que lhes devore o futuro, ou que lhes provoque uma doença triste.
Até aí, tudo bem. A cultura pode ser de facto perigosa. Não podemos deixar de dar uma certa razão aos seus timoratos pontos de vista. Quem nasceu para lagartixa, como diz o povo, nunca chega a jacaré (e as lagartixas também são necessárias, digo eu).
Não me irrita, pois, que eles afirmem ser contra os subsídios. O que me irrita é isso ser mentira. Porque eles não são contra os subsídios. São, sim, contra os subsídios à cultura. Se for para subsidiar uma cimenteira, uma universidade privada, uma fábrica de rolhas, uma empresa de telecomunicações (pior ainda, um "jovem desagricultor" ou um pescador em terra) – nihil obstat.
Mas escritores??? Cineastas??? Companhias de Teatro??? Horror!
Enfim,
um abraço, fica bem,
Miguel»

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