Ninguém elogia demasiado o trabalho crítico mas talvez a poesia portuguesa precise neste momento mais de bons críticos do que precisa de grandes poetas. Tenho visto críticas superiores aos poemas sobre os quais elaboram e sinto que exploram na literatura sinais que extravazam o comprimento infinito dos versos que muitas vezes caem no vazio, quando não há nada que os suporte como os pilares da boa prosa o fazem numa crítica clarividente.
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Ensaio de Uma Despedida
Sábado, 12 de Abril de 2003
Fernando Pinto do Amaral
Uma das questões com que a poesia portuguesa mais recente se tem confrontado diz respeito ao modo de lidar com as emoções: digamos que, após um período de uma certa libertação e de regresso a um lirismo mais carregado de subjectividade - de que o exemplo mais conhecido e hiperbólico terá sido uma escrita como a de Al Berto -, alguns poetas mais jovens, embora aproveitando o essencial desse clima, mostram-se por vezes cépticos quanto aos efeitos dessa libertação, desconfiando também de quaisquer virtudes da literatura.
Podemos começar por aqui a abordagem deste novo livro de Manuel de Freitas (n. 1972), uma das mais consistentes revelações dos últimos anos. De facto, no seu universo tão desencantado, é difícil que isso a que chamamos "literatura" possa ainda representar qualquer hipótese de salvação para os seres humanos: "Não mais a literatura, os seus / fúteis e imperiosos desígnios / (...) // E a mentira (a literatura) / é ainda a improvável derrota / de que não nos salvaremos / nunca. Tão igual à vida, portanto" (p. 12).
É a partir desta noção desiludida quanto ao papel da literatura que se torna legível uma constelação de temas e motivos já habituais na poesia de Manuel de Freitas e no seu magoado lirismo urbano: a noite, com os "guindastes da insónia" que nos encerram em apartamentos infernais (cf. "Terceiro Direito", p. 13); a deambulação solitária por bares onde se cruzam personagens desesperadas, sem rumo; ou ainda as fugas impossíveis a esse cenário através das miragens proporcionadas pela anestesia do álcool ou pelas ilusões do amor: "Por exemplo o amor, / essa estranha mistura de angústia, desejo / e novamente angústia" (p. 48).
Tudo isto surge aqui articulado numa escrita relativamente serena, pouco ou nada crente na "retórica gasta" das palavras, no "solene esgar da poesia" (p. 80) ou mesmo nesse "infigurável absurdo a que chamamos Deus" (p. 73). E sobretudo graças a um estilo que consegue aliar as reflexões sobre tópicos tradicionalmente considerados literários ou filosóficos - o amor, a morte, a salvação - e, no pólo oposto, as referências à banalidade de uma existência material, suja e repetitiva nos seus contornos cronológicos: "Nada é mais monótono que uma biografia: / 'Um dia e outro dia', como escreveu Irene / Lisboa" (p. 65).
A leitura deste livro obriga-nos assim a percorrer sem complacência (mas também sem receio de nos emocionarmos) essa "distância que vai da alma ao / estômago" (p. 64), para aí descobrirmos a declinação de um real feito de sensações quotidianas, de imagens e de sons quase sempre identificáveis em função da dolorosa experiência vital de um sujeito cuja perdição atravessa uma cidade onde reconhecemos a Lisboa nocturna que tem habitado a poesia de Manuel de Freitas. Sublinhe-se, acima de tudo, a importância assumida pelos últimos momentos da madrugada, quando os bares e as discotecas se esvaziam, num quase deserto onde apenas alguns sobrevivem: "Eram antes roulottes, discotecas tristes, / o sorriso de álcool com que a manhã tomba / sobre nós e se despede para sempre" (p. 71).
Os versos que acabo de citar pertencem a um poema intitulado "1952-2001", título cujas marcas temporais delimitam as fronteiras de uma vida humana - neste caso a de Miguel Bastos, aliás recentemente evocado numa "plaquette" de José Agostinho Baptista ("Afectos", Assírio & Alvim, 2002). Além de veicular uma crítica ao ritual das homenagens fúnebres - "Não foste um morto / rentável, desses sobre quem muitos / depois escrevem prantos rimados / e apressados encómios" (p. 70) -, um texto como este simboliza também um conceito de poesia como uma forma de despedida, um "ensaio de uma despedida" (Francisco Brines), um adeus que enquanto morre se prolonga na cinza das palavras: "O último copo parece-me agora / uma despedida incompleta, um rasto de cinza / que tinge de mágoa o balcão a que me encosto" (p. 72).
Estamos aqui envoltos numa atmosfera elegíaca em que a passagem do tempo se faz sentir, já que é entre muitas "coisas que os anos foram sepultando" (p. 33) que se perseguem os sinais de alguma emoção, que pode brilhar num encontro inesperado, mas que nunca chega a vencer "o frio mais frio da memória" (p. 53), essa nostalgia propagada por "dois sorrisos com dez anos" (p. 45) - também eles pouco a pouco estilhaçados pelo peso dos escombros que vão soterrando todos os caminhos, todas as hipóteses de acreditar seja no que for: "A luz dos últimos bares tomba agora / sobre um corpo esquivo, mais sozinho, / que nem sequer nestas palavras acredita" (p. 39).
Embora desejando por vezes esquecer-se do seu olhar demasiado lúcido ou sensível - "Quem me dera ser / menos realista, menos real, / menos permeável ao desgosto" (p. 77) -, o sujeito acaba por não encontrar qualquer saída para esse panorama desolador, e nem mesmo o lenitivo da música ("a única das artes") pode libertá-lo da asfixia. Convirá ler a esse respeito - e para terminar esta recensão - os dois poemas finais do livro, dedicados a Bach: "Quando a música de um homem assim / não consegue demover-nos da angústia, / percebemos que a vida é morte / - impossíveis os gestos, as fugas, os desejos" (p. 74). De facto, se nem a perfeição ou a beleza - não tenhamos medo destas palavras a propósito de Bach - conseguem já redimir-nos, resta desistir e reconhecer, sem grande dramatismo e até com um certo "fair play", que a vida que nos coube é mesmo assim. Sic.
Sábado, 12 de Abril de 2003
Fernando Pinto do Amaral
Uma das questões com que a poesia portuguesa mais recente se tem confrontado diz respeito ao modo de lidar com as emoções: digamos que, após um período de uma certa libertação e de regresso a um lirismo mais carregado de subjectividade - de que o exemplo mais conhecido e hiperbólico terá sido uma escrita como a de Al Berto -, alguns poetas mais jovens, embora aproveitando o essencial desse clima, mostram-se por vezes cépticos quanto aos efeitos dessa libertação, desconfiando também de quaisquer virtudes da literatura.
Podemos começar por aqui a abordagem deste novo livro de Manuel de Freitas (n. 1972), uma das mais consistentes revelações dos últimos anos. De facto, no seu universo tão desencantado, é difícil que isso a que chamamos "literatura" possa ainda representar qualquer hipótese de salvação para os seres humanos: "Não mais a literatura, os seus / fúteis e imperiosos desígnios / (...) // E a mentira (a literatura) / é ainda a improvável derrota / de que não nos salvaremos / nunca. Tão igual à vida, portanto" (p. 12).
É a partir desta noção desiludida quanto ao papel da literatura que se torna legível uma constelação de temas e motivos já habituais na poesia de Manuel de Freitas e no seu magoado lirismo urbano: a noite, com os "guindastes da insónia" que nos encerram em apartamentos infernais (cf. "Terceiro Direito", p. 13); a deambulação solitária por bares onde se cruzam personagens desesperadas, sem rumo; ou ainda as fugas impossíveis a esse cenário através das miragens proporcionadas pela anestesia do álcool ou pelas ilusões do amor: "Por exemplo o amor, / essa estranha mistura de angústia, desejo / e novamente angústia" (p. 48).
Tudo isto surge aqui articulado numa escrita relativamente serena, pouco ou nada crente na "retórica gasta" das palavras, no "solene esgar da poesia" (p. 80) ou mesmo nesse "infigurável absurdo a que chamamos Deus" (p. 73). E sobretudo graças a um estilo que consegue aliar as reflexões sobre tópicos tradicionalmente considerados literários ou filosóficos - o amor, a morte, a salvação - e, no pólo oposto, as referências à banalidade de uma existência material, suja e repetitiva nos seus contornos cronológicos: "Nada é mais monótono que uma biografia: / 'Um dia e outro dia', como escreveu Irene / Lisboa" (p. 65).
A leitura deste livro obriga-nos assim a percorrer sem complacência (mas também sem receio de nos emocionarmos) essa "distância que vai da alma ao / estômago" (p. 64), para aí descobrirmos a declinação de um real feito de sensações quotidianas, de imagens e de sons quase sempre identificáveis em função da dolorosa experiência vital de um sujeito cuja perdição atravessa uma cidade onde reconhecemos a Lisboa nocturna que tem habitado a poesia de Manuel de Freitas. Sublinhe-se, acima de tudo, a importância assumida pelos últimos momentos da madrugada, quando os bares e as discotecas se esvaziam, num quase deserto onde apenas alguns sobrevivem: "Eram antes roulottes, discotecas tristes, / o sorriso de álcool com que a manhã tomba / sobre nós e se despede para sempre" (p. 71).
Os versos que acabo de citar pertencem a um poema intitulado "1952-2001", título cujas marcas temporais delimitam as fronteiras de uma vida humana - neste caso a de Miguel Bastos, aliás recentemente evocado numa "plaquette" de José Agostinho Baptista ("Afectos", Assírio & Alvim, 2002). Além de veicular uma crítica ao ritual das homenagens fúnebres - "Não foste um morto / rentável, desses sobre quem muitos / depois escrevem prantos rimados / e apressados encómios" (p. 70) -, um texto como este simboliza também um conceito de poesia como uma forma de despedida, um "ensaio de uma despedida" (Francisco Brines), um adeus que enquanto morre se prolonga na cinza das palavras: "O último copo parece-me agora / uma despedida incompleta, um rasto de cinza / que tinge de mágoa o balcão a que me encosto" (p. 72).
Estamos aqui envoltos numa atmosfera elegíaca em que a passagem do tempo se faz sentir, já que é entre muitas "coisas que os anos foram sepultando" (p. 33) que se perseguem os sinais de alguma emoção, que pode brilhar num encontro inesperado, mas que nunca chega a vencer "o frio mais frio da memória" (p. 53), essa nostalgia propagada por "dois sorrisos com dez anos" (p. 45) - também eles pouco a pouco estilhaçados pelo peso dos escombros que vão soterrando todos os caminhos, todas as hipóteses de acreditar seja no que for: "A luz dos últimos bares tomba agora / sobre um corpo esquivo, mais sozinho, / que nem sequer nestas palavras acredita" (p. 39).
Embora desejando por vezes esquecer-se do seu olhar demasiado lúcido ou sensível - "Quem me dera ser / menos realista, menos real, / menos permeável ao desgosto" (p. 77) -, o sujeito acaba por não encontrar qualquer saída para esse panorama desolador, e nem mesmo o lenitivo da música ("a única das artes") pode libertá-lo da asfixia. Convirá ler a esse respeito - e para terminar esta recensão - os dois poemas finais do livro, dedicados a Bach: "Quando a música de um homem assim / não consegue demover-nos da angústia, / percebemos que a vida é morte / - impossíveis os gestos, as fugas, os desejos" (p. 74). De facto, se nem a perfeição ou a beleza - não tenhamos medo destas palavras a propósito de Bach - conseguem já redimir-nos, resta desistir e reconhecer, sem grande dramatismo e até com um certo "fair play", que a vida que nos coube é mesmo assim. Sic.
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