O teu corpo não é uma palavra,
nem mente
nem fala a verdade
Apenas
está aqui ou não está.
- Margaret Atwood
nem mente
nem fala a verdade
Apenas
está aqui ou não está.
- Margaret Atwood
já não sei se faz sentido ainda dizer que te procuro
já nem sei se agora escrevo poemas por aqueles motivos
tinha essa desculpa para te inventar versos:
combinavam bem com as flores que te oferecia
agora que escrevi esse último verso li-o e sorri
um sorriso adoecido, amarelento, uma auto-retracção
("there's a kind of sick desperation in your laugh")
estranho será perguntar porque é que eu pensei
que a mudez das flores não seria o bastante
que não seria suficiente as suas cores sempre mais alegres do que eu
o que agora é evidente é que eu não percebi nesse silêncio a clara mensagem
de que com o passar do tempo até aquelas vívidas cores se arrastariam
para o desespero acinzentado e por fim negro onde agora estes versos
me conduzem com um solidário braço sobre os ombros
como se eu pudesse ao menos dar-me por satisfeito
já que se perdi novamente a fugidia ideia do amor
da próxima e depois de tanta poesia já saberei
escrevê-la muito melhor, enganar-me muito mais
e quem sabe enganar a próxima pessoa
ao ponto de a convencer a não me abandonar
como tu sabes que foi o que me fizeste
mas comecei por falar do teu corpo
e deixei que os versos escorregassem como uma lágrima
para dentro destes desnecessários apontamentos
sobre esse sentimento de limitação esgotada, o desgosto
gostei de ti e é a própria gramática que nos diz que em seguida vem uma vírgula
e depois de dizer que gostei, desgostei (é natural não é?)
estou a desgostar com a rima mais vulgarmente associada a amor, dor claro
mas não entremos por vulgaridades de novo, para isso já nos basta a esperança
que arrancamos dos inevitáveis filmes e livros românticos e até dos cabrões dos anúncios
que nos querem vender champôs para o cabelo que estamos a perder à velocidade - de um
conceito aterrorizado que peço desculpa mas não consigo derramar agora numa palavra
e como agora não estou para me contentar com menos do que a palavra precisa
não vou escrever outra
voltando ao teu corpo, pelo menos neste poema
quero dizer que desisti embora ainda não sinta o alívio que me virá
quando também o meu corpo se deixar do vício
continuarei sentado no ângulo recto dos livros de boa poesia
tentando manter uma postura formalmente digna
assim aproveito qualquer coisa que me deixas
e vou em frente até encontrar o primeiro desvio
o teu corpo é a parte mais difícil de esquecer
muita metafísica é aliás sinal de que fisicamente estamos quebrados
o concerto vai-me sair caro, muitas horas de leitura
muitas horas a carpir até me esquecer dos títulos, dos autores, das ideias
e até que me dê vontade de sair para esticar as pernas
mas um dia, espero, num passeio distraído ainda hei-de sorrir a sério
e com sorte alguém haverá de reparar nisso.
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