Canso-me depressa - quem me conhece
desculpa-mo ou não, como vai precisando
pouco ou nada de mim. Deve ser do sangue,
assim como me sento para escrever
outras vezes sento-me para fazer de morto -
talvez mais tarde alguma doença o explique.
Por agora os sintomas são poéticos, carregados
de imensa inutilidade. Podemos sempre falar sozinhos,
não seria menos triste, mas assim em verso
vamos fingindo uma certa disciplina
e doseando a nossa loucura. De qualquer maneira
temos tempo demais, de que outra forma se explicam
os vícios com que o matamos? Explicam-se mal.
É claro que o menos importante é fazermos boas ideias
sobre nós próprios. Que sejam os outros a inventar
porque motivos às vezes (se não sempre) somos estranhos.
Seja como for faz mais sentido falar dos outros
e fugir de grandes explicações.
Poucas coisas, aliás, ganham sentido só porque nos esforçamos
por explicá-las. Posso dizer que esta tarde, por exemplo,
me sentei com o peso de um culpado num banco
e fiquei muito próximo de um verdadeiro velho.
Um velho a sério, não uma metáfora para a vida
ou, se preferirem, para a morte. Um velho de que me aproveito
e à sua presença para distrair o evidente vazio deste poema.
Estivemos sentados ele e eu os dois cada vez mais sós
e à nossa frente as imagens com que o nada nos distraí.
Calhou que fosse na baixa de Faro, mas se não der jeito
então que se imagine um outro lugar (o que não falta
neste país são espaços repetidos, tardes distraídas
e tristezas confortáveis).
Aguentei o mais quieto possível, tempo suficiente
para que se alguém quisesse pudesse pintar o meu retrato.
Ao fim desse tempo levantei-me, afastei-me, e um de nós
desapareceu. Qual de nós isso depende da perspectiva.
Mas como vêem sobre esta tarde está tudo dito.
Para trás ficam um banco público e um poema que dispensa título.
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