quarta-feira, julho 04, 2007

Jangada

O seu corpo, entre o descanso e o suor, tem duas vezes o tamanho do dela. Com a sensibilidade que partilham, depois do desafogo sexual, sente-a subir-lhe para cima e pela cabeça passa-lhe uma imagem muito tranquila. Estão os dois completamente nus, ela está toda nua em cima de dele e é como se estivesse a refugiar-se do contacto com qualquer outra superfície que não seja a da sua pele. Na imagem mental que desenha vê-se a si e a ela, os dois na corrente suave de um rio, mas se o corpo dela continua por cima, o dele tornou-se uma jangada que se eleva à tona da água. É uma imagem estranha como os primeiros traços de um sonho que nasce um pouco antes de vir o sono para o deixar num lugar inconsciente. Mesmo antes de adormecer sente que a ama e não sabe se está a dizê-lo no ouvido dela mas sente-o profundamente e consegue pensar na morte, o seu medo mais feroz. Nesse momento de descanso encontra a ideia da morte apaziaguada dentro de si, sabe que está a adormecer e deixa-se ir.
Quando ela acordar vai sentir-lhe o corpo frio demais e quando o susto se tornar um choro decidirá não correr para o telefone para dar as más notícias a alguém. Primeiro irá chorar-lhe sobre o peito como se não houvesse mais nada a fazer. Vai dar-lhe um choro digno, lágrimas e lágrimas arrancadas das partes mais fundas da sua alma e assim talvez mesmo no fundo da inconsciência a que ele sucumbiu talvez possa ouvir e sentir como ela o amou.

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