
Em certas alturas sinto que gostava de começar a escrever e não me lembrar de parar nunca mais. É como se na escrita, e por puxar de dentro para fora algumas coisas, pudesse encontrar o que quero.
Sempre ouve uma gaveta funda onde de tempos a tempos eu, quando não tinha outra coisa para fazer, ía espreitar para ver se alguma coisa que eu pudesse ter perdido estaria ali à espera de ser reencontrada. É assim, acho que temos lugares onde vão parar as coisas que perdemos ou esquecemos, alguém as apanha como objectos inúteis mas não tem coragem de os deitar no lixo e assim chegam à tal gaveta, às vezes um baú ou uma arca. Nas casas a sério costuma ser um espaço ainda maior e mais íntegro ou místico, o sotão.
No sotão da minha avó eu gostava de andar sem saber o que procurava, encontrava vestígios da infância dos meus tios, notas em livros de aventuras, cartas escritas para amigos e outras pessoas especiais... É incrível a riqueza do rasto que deixamos à medida que trilhamos o nosso caminho.
Não consigo imaginar a quantidade de coisas que já deixei mas por vezes acorrem-me as reminiscências, recordações breves apanhadas por um pensamento que divagou e que chegam até mim numa série de imagens de outros tempos que devolvem sensações, sons, todo o complexo real de uma coisa que já não está cá...
No outro dia peguei ao calhas num livro e dei com as palavras poéticas e absurdas do António Cândido Franco que reclamava para si uma extrema afeição ao passado. Dizia ele que só o passado lhe interessava e vivia mesmo para recordar, o presente era só o seu alheamento para se encontrar nas memórias e o futuro nem sequer o preocupava. Eu li estas palavras e elas fizeram todo o sentido dentro de mim, só nessa tarde porque dias depois voltei ao mesmo sítio, peguei no mesmo livro e procurei as mesmas palavras... Mas já não as li como tinha lido e como as lembrava, já não faziam o mesmo sentido que tinham feito quando lidas pela primeira vez. Mas ainda lembro aquelas palavras absurdas e ainda entendo o seu sentimento.
Digo que quero ficar aqui sentado a escrever como se pudesse fazê-lo para sempre porque não tenho onde ir e por alguma razão talvez acredite que cá dentro possa estar a tal coisa à espera como eu espero, ela à espera de sair e eu à espera que ela saia... O pior é que não vou saber, só saberei se alguma coisa mudar, se alguém atravessar a linha que me separa e vier dizer-me que me encontraram finalmente.
Acho que a diferença entre um artista de sucesso, uma pessoa que se expressa, se exterioriza através de realizações belas, e, uma pessoa que não o conseguiu fazer é que a primeira já sabe que é verdade uma grande parte das coisas que pensa e sente em relação a si mesma, porque os outros de alguma forma já o confirmaram... Mas uma pessoa que não encontrou a graça para se exprimir e se revelar pode acreditar ou pensar que tem toda essa dimensão bela dentro de si mas não consegue nunca passar da mera probabilidade ou hipótese porque uma coisa é duvidarmos de nós mesmos e de quem somos outra coisa muito diferente e muito mais díficil é não termos a certeza. Talvez isto não faça muito sentido mas da maneira como eu vejo as coisas uma certeza comporta todas as dúvidas, convive bem com elas, já a incerteza não. A incerteza deixa a nossa vida entregue à disposição do vento.
Infelizmente acaba sempre por chegar o momento em que já não faz sentido continuar a escrever, é momento de parar. O pior é isso, deixar umas palavras para trás, separarmo-nos delas e ver como tudo fica igual, vamos descansar e tudo continua sossegado, parado no mesmo lugar.
Sempre ouve uma gaveta funda onde de tempos a tempos eu, quando não tinha outra coisa para fazer, ía espreitar para ver se alguma coisa que eu pudesse ter perdido estaria ali à espera de ser reencontrada. É assim, acho que temos lugares onde vão parar as coisas que perdemos ou esquecemos, alguém as apanha como objectos inúteis mas não tem coragem de os deitar no lixo e assim chegam à tal gaveta, às vezes um baú ou uma arca. Nas casas a sério costuma ser um espaço ainda maior e mais íntegro ou místico, o sotão.
No sotão da minha avó eu gostava de andar sem saber o que procurava, encontrava vestígios da infância dos meus tios, notas em livros de aventuras, cartas escritas para amigos e outras pessoas especiais... É incrível a riqueza do rasto que deixamos à medida que trilhamos o nosso caminho.
Não consigo imaginar a quantidade de coisas que já deixei mas por vezes acorrem-me as reminiscências, recordações breves apanhadas por um pensamento que divagou e que chegam até mim numa série de imagens de outros tempos que devolvem sensações, sons, todo o complexo real de uma coisa que já não está cá...
No outro dia peguei ao calhas num livro e dei com as palavras poéticas e absurdas do António Cândido Franco que reclamava para si uma extrema afeição ao passado. Dizia ele que só o passado lhe interessava e vivia mesmo para recordar, o presente era só o seu alheamento para se encontrar nas memórias e o futuro nem sequer o preocupava. Eu li estas palavras e elas fizeram todo o sentido dentro de mim, só nessa tarde porque dias depois voltei ao mesmo sítio, peguei no mesmo livro e procurei as mesmas palavras... Mas já não as li como tinha lido e como as lembrava, já não faziam o mesmo sentido que tinham feito quando lidas pela primeira vez. Mas ainda lembro aquelas palavras absurdas e ainda entendo o seu sentimento.
Digo que quero ficar aqui sentado a escrever como se pudesse fazê-lo para sempre porque não tenho onde ir e por alguma razão talvez acredite que cá dentro possa estar a tal coisa à espera como eu espero, ela à espera de sair e eu à espera que ela saia... O pior é que não vou saber, só saberei se alguma coisa mudar, se alguém atravessar a linha que me separa e vier dizer-me que me encontraram finalmente.
Acho que a diferença entre um artista de sucesso, uma pessoa que se expressa, se exterioriza através de realizações belas, e, uma pessoa que não o conseguiu fazer é que a primeira já sabe que é verdade uma grande parte das coisas que pensa e sente em relação a si mesma, porque os outros de alguma forma já o confirmaram... Mas uma pessoa que não encontrou a graça para se exprimir e se revelar pode acreditar ou pensar que tem toda essa dimensão bela dentro de si mas não consegue nunca passar da mera probabilidade ou hipótese porque uma coisa é duvidarmos de nós mesmos e de quem somos outra coisa muito diferente e muito mais díficil é não termos a certeza. Talvez isto não faça muito sentido mas da maneira como eu vejo as coisas uma certeza comporta todas as dúvidas, convive bem com elas, já a incerteza não. A incerteza deixa a nossa vida entregue à disposição do vento.
Infelizmente acaba sempre por chegar o momento em que já não faz sentido continuar a escrever, é momento de parar. O pior é isso, deixar umas palavras para trás, separarmo-nos delas e ver como tudo fica igual, vamos descansar e tudo continua sossegado, parado no mesmo lugar.
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