domingo, abril 01, 2007

A "nova" Iuris Grafia

Antes de fazer um comentário à primeira edição da Iuris Grafia desde que tomou posse a nova a constituição da AAFDL, deixem-me só introduzir a questão para então poder falar para mais pessoas.

Parece-me que dentro dos esforços culturais promovidos pelas associações académicas das faculdades do país contam-se algumas revistas editadas a partir do esforço dos alunos que gostam de ter uma opinião expressa e impressa e assim entrarem num veículo que passa pelas mãos de um conjunto largo de pessoas.
Antigamente quem tinha opiniões e gostava muito delas tinha que se acalmar todas as noites para dormir descansado e poder erguer-se no dia seguinte cheio de forças para ir lá para fora sacudir o mundo com pérolas da imaginação e de análise sobre o mundo. Hoje em dia a internet e a blogosfera permitem que se alcance um escopo cada vez maior e as opiniões pessoais conseguem ter grande ressonância a partir de um só estímulo, um artigo escrito. Mas para alguns priveligiados há ainda a oportunidade de verem as suas linhas serem patrocinadas pelo sistema do associativismo académico que publica com maior ou menor regularidade esses artigos de opinião.
Na minha faculdade temos a Iuris Grafia, uma revista que supostamente é publicada de 3 em 3 meses. Na verdade (segundo o que me informaram) devido à falta de pontualidade na entrega das matérias a serem publicadas este período estende-se para os 4 meses (normalmente). Ou seja, os alunos da faculdade de direito de Lisboa podem contar com uma revista produzida no interior da faculdade e que não vai além das 50-60 páginas. É claro que fazer uma publicação destas é muito difícil porque muito do que é actual hoje deixa de o ser amanhã e ou as escolhas editoriais são realmente inteligentes ou o prazo de validade da revista não vai muito além da semana em que é lançada pelos cantos da faculdade.
Pelo que sei a Iuris Grafia tem uma tiragem que ultrapassa largamente um milhar de exemplares e isso, para quem não pode perspectivar as coisas, asseguro-vos eu que é muito. A revista está espalhada pela nossa faculdade e é distribuída por outras faculdades do país e de alguma forma (para quem acredita nisso) é uma imagem da cara que a faculdade de direito mostra ao país.
Eu estou interessado em participar na revista mas ainda não entrei na linha de espera certa, estou a movimentar-me nesse sentido e espero já assinar uma ou duas páginas na próxima edição - isto só para dar conta de que não escrevo este post com total desapego em relação ao assunto. De qualquer forma, o que me importa dizer aqui é que depois de ter passado toda a semana na faculdade horas e horas (como nunca o fiz antes) devido à exposição que lá organizei, tomei conta de realidades menores que fazem parte dessa vida académica e claro, interessei-me. No fundo não sei como é possível alguém passar todos os seus dias num mesmo sítio sem se interessar por aquilo que o excita, mas são grossos os números que somam os alunos de direito que andam ali pelo curso como aqueles cavalos que andam pelas estradas das cidades turísticas, têm aquelas vendas a limitarem-lhes o olhar para que não se distraiam do objectivo mais imediato.
O que importa realçar na nova edição de Iuris Grafia que eu li como só li mais duas outras anteriores, é que está francamente má. As escolhas editoriais são ingénuas, os artigos são banalíssimos e de facto o que acaba por saltar à vista desde logo é que muito dificilmente aquela revista se afirmará como uma revista cultural se prosseguir nesta direcção. É uma revista que colecciona opiniões ainda que essas opiniões aqui e ali façam uns esforços e tenham alguma agilidade para incluírem dados de pesquisa e alguma informação finalmente útil. De modo geral a revista é desinteressante e não paga a oportunidade que comprou tanto dinheiro gasto pela associação.
A Iuris Grafia tem uma qualidade a nível físico (papel, impressão, grafismos) muito boa mas a palavra que carrega é uma palavra vulgar, uma palavra que corre, pula e dança pela maioria dos blogues portugueses, é uma palavra com um nível de esclarecimento que não está muito acima do nível mediano e é uma palavra pouco relevante e importante. O estilo de humor a que recorre muito (provavelmente devido à maior influência do João Behran - o novo editor) é pobre, é um estilo que nunca chega a despontar mas que em certos momentos se aproxima do engraçadinho, aquele tom de ironia e graçola que nos cansa depois de algumas investidas, porque um pouco é um pouco e nunca faz mal mas muito normalmente é demais e realmente cansa.
Eu estou a escrever isto e espero vir a trabalhar sob a orientação do João Behran, percebam por isso que não estou a dizer estas coisas só por dizer mas a verdade é que se todos têm uma opinião sobre como as coisas devem ser feitas eu neste caso não estou a promover a minha fórmula de sucesso contra aquela que foi usada nesta nova Iuris Grafia, o que eu defendo é o senso comum - primeiro a utilidade da coisa e depois a satisfação pessoal de quem está por trás dela. Eu entendo perfeitamente o brio de se ter nas mãos em papel impresso e bonito um vólume de palavras que ajudámos a alinhavar mas isso nunca deveria ter precedido a responsabilidade e o trabalho que merece essa honra.
O João e os restantes membros que são responsáveis pela nova Iuris Grafia estão em dívida para com os restantes alunos que esperavam mais e melhor. Eu que conhecia já o estilo de escrita do João esperava algo muito melhor dele e não estou a ser venenoso, estou a dizer isto porque sei que ele escreve bem e sei que é esperto, e, por isso mesmo sei que esta revista que ele nos entregou não corresponde nem às suas capacidades nem à proposta da qual ele ficou responsável por tornar uma boa realidade.

Por fim tenho que dizer que acho óptimo que as faculdade tenham as suas revistas e que façam os alunos participar com o seu trabalho, a sua escrita e um pouquinho das suas opiniões para uma edição que deve lutar por se afirmar e ser relevante. A minha opinião é que se todos temos as nossas opiniões ou nós somos de facto os mais esclarecidos sobre as matérias que abordamos ou muito dificilmente aquilo que escrevemos será relevante, a não ser que abdiquemos de escrever o que nos apetece e o que apetece aos deslizes da nossa caneta e comecemos a trabalhar de forma a nos libertarmos daquilo que achamos que temos para irmos em busca do que está longe e que só através do esforço de uma busca criteriosa podemos encontrar - os dados e as matérias que estão para além da vista da pessoa que nos vai ler. Uma boa revista cultural abre os nossos horizontes, a nova Iuris Grafia não o faz.

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