sábado, março 31, 2007

Quarto Escuro, a exposição


Acabou. Hoje foi o último dia. Depois de encerrar a exposição, de fechar a porta do quarto de vez tive uma sensação estranha - como se me libertasse de uma coisa que estava a ser e que passou a uma caixa de memórias boas, recordações que vão ficar comigo para sempre.
Tudo começou na viagem de regresso da covilhã onde o cénico de direito foi actuar num festival de teatro. Éramos três - eu, o Diogo Nunes e a Maria Santos. Vínhamos a falar, a atirar conversa aos traços da auto-estrada, estávamos a falar das pessoas, das coisas, das coisas que as pessoas fazem, fizeram ou disseram, falámos de nós e das nossas coisas e havia ali uma energia por esgotar. Chegámos a Lisboa e havia ainda tempo para conseguir trilhar caminho e nessa mesma tarde fomos à associação da minha faculdade pedimos o número do responsável do departamento cultural e marcámos uma reunião para o dia seguinte. Tínhamos uma proposta, uma exposição chamada Quarto Escuro, um quarto escuro, o quarto de alguém que ali não estava e que deixara a porta destrancada, qualquer um podia atrever-se a abrir a porta e entrar. Lá dentro só uma vela para dar contornos ao espaço, de resto cada visitante receberia outra vela e a partir daí podia bisbilhotar um mundo íntimo de imagem, fotografia, poesia, pensamentos e confissões...
Eu e o Diogo Nunes preparámos e organizámos tudo. Desde o ínicio houve sempre a sensação que havíamos de conseguir mas não podíamos ter o atrevimento de incentivar expectativas, simplesmente esforçámo-nos.
Foi um sucesso! Um sucesso real. Conseguimos chegar a mais de 150 pessoas que timidamente se aproximavam e entravam no escuro para saírem de lá minutos mais tarde com o rosto iluminado. Fomos elogiados, muito elogiados, sentimo-nos apreciados e estes três dias aconteceram simplesmente com naturalidade como se fosse suposto tudo ter corrido tão bem... Mas foi difícil, foi difícil sobretudo levar as pessoas até à exposição... Tenho muitas considerações negativas a respeito da falta de interesse das pessoas que pareciam não ser capazes de seguir a curiosidade alguns passos para lá do mundo amarelo da faculdade das leis e das barras. No entanto, depois, à saída vi caras com corações, vi desconhecidos e estranhos a ficarem menos estranhos, menos distantes, mais normais, mais pessoas, mais pessoas com uma cabeça que pensa e sente... Foi muito bom.
Estamos surpresos e conseguimos surpreender algumas pessoas difíceis.
Agora estou cansado, acabou. Pediram-nos que voltássemos depois das férias, há essa hipótese... Mas não vamos voltar, queremos preservar a beleza de uma ideia que nasceu nas nossas cabeças e floresceu aos olhos de poucos, morrendo para muitos que não fizeram aquele caminho de alguns passos curiosos e que não vão saber de um mistério que ficou guardado por três dias naquele quarto e que agora é um segredo nosso e daqueles que nos ouviram contá-lo.
Quero deixar um beijo e um abraço a todos os que nos visitaram e dizer que estou feliz. A ideia foi boa, a realidade, por uma vez, foi melhor.

2 comentários:

Marta da Cunha e Castro disse...

Gostei imenso da exposição. A ideia era muito interessante e original. Parabéns.

Anónimo disse...

parabéns.