quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Viagem


Parti
Num comboio chamado desejo
da estação vulgaridade
no dia tantos de tal.

Gastei da vida real
Para comprar o bilhete
E o sonho (paguei-lhe o frete)
tratou-me do passaporte.

Desde que parti que me vejo
à janela da imaginação
do comboio que me leva à morte
acenando de lenço na mão
com saudade
a cada pessoa vulgar
que vejo ficar
na estação banalidade
de onde um dia parti.

E se acaso desci
num apeadeiro qualquer
para beber uma esperança
de esquecer a partida
(bebi apoiada ao balcão,
mesmo de pé)
paguei sempre a bebida
com uma desilusão
e um cansaço mortal
daquela gente banal
que enchia o café.

E cada vez que mudava
a paisagem lá fora
(o despertar da aurora
ou estrelas a nascer)
eu esquecia-me e olhava
cada cara que passava
com dó
até que me acordava
essa sede de beber
uma esperança, uma bebida,
de um dia ficar esquecida
num apeadeiro qualquer
em que o comboio parou.

E vinha outra vez a partida
daquela mediocridade
de onde um dia parti
só.

É sempre assim que me vejo
num comboio chamado desejo
acenando com saudade
a cada pessoa vulgar
que vejo ficar
do lado de lá da vidraça,
olhando de má vontade
o comboio que passa...

- Maria do Carmo Abecassis

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