
O café esplanada “A Abelha” no centro de Vimius, uma vila transmontana, é um espaço que todos conhecem muito bem. O seu proprietário, o senhor Bessa, está nesta tarde agachado sobre a sua caixa de ferramentas laranja dando voltas e trabalhando com as várias ferramentas para concertar a abelha Maia, uma máquina daquelas que por uma moeda levam as crianças numa volta agitada com música e tudo. Atarefado o senhor Bessa não sente o seu filho, Aulio, aproximar-se por trás. Os dois não se vêem há uns bons anos.
Aulio – Pai...
Bessa – Filho...
Aulio – Olá pai.
Bessa – Filho!
Aulio sente alguma dificuldade em encontrar a posição certa para envolver o seu pai mas pelo contrário o pai atira-se a ele com toda a força e emoção como se quisesse espantar ali os imensos momentos em que quis agarrar o seu filho e não pôde.
Bessa – Filho, filho... Estás... bonito, estás um homem feito!
Aulio – Desculpa pai...
Bessa – Ainda bem... ainda bem.
Aulio – Pai... como vão as coisas?
Bessa – Oh filho, vão indo... vão bem. E tu como estás?
Aulio – Está tudo bem comigo pai... O que estavas aí a fazer?
Bessa – Olha... A arranjar a tua Maia.
Aulio – Caramba pai... A Maia está já muito velhinha... já vai sendo tempo de se reformar.
Bessa – Oh filho, a reforma é para os que preferem não trabalhar... Aqui eu e a Maia damo-nos melhor aqui do que noutro lugar qualquer parados, sem fazer nada.
Aulio – E as crianças ainda vêem aqui para andar nela?
Bessa –Tu sabes como é a Maia... Há sempre alguma criança que se deixa encantar.
Aulio – Está bem... E continuas a emprestar moedas para os filhos dos outros andarem de graça?
Bessa – Oh filho isso era com os teus amigos.
Aulio – Pois... A maioria nem meus amigos eram.
Bessa – Se tinham a mesma idade e nascendo todos aqui na terra, brincavam aqui, brincavam todos nos mesmos lugares... Então não haviam de ser amigos... Um dia vais perceber que para serem amigas as pessoas não têm que andar coladas umas às outras.
Aulio – Então olha que eram os meus amigos que todos os meses te arranjavam aí problemas com o mecanismo quando se punham aos pontapés à Maia...
Bessa – Pobre Maia... Os miúdos são assim não é? O que é que se há-de fazer... Tu também te meteste em grandes alhadas, não eras nenhum santo Aulio...
Aulio – Só não percebo porque não deixas a abelha aí assim... Ela sempre te deu mais despesa do que lucro.
Bessa – Não é pelo dinheiro filho, é pela companhia que ela me faz.
Aulio – Está bem...
Bessa – Olha estás a ver ali aquele garoto...
Aulio – Qual garoto?
Bessa – Aquele ali em baixo... ao pé da papelaria...
Aulio – Sim... o que tem?
Bessa – Ele está à espera... vês?
Aulio – Do quê?
Bessa – Está ver se eu ponho a Maia a funcionar para depois vir andar nela.
Aulio – Oh pai... não está nada... Está para ali distraído...
Bessa – Não está não... ele é assim meio tímido... Fica sempre assim... à espera até não estar ninguém...
Aulio – Pronto está bem
Bessa – Não acreditas...? Então espera que já vês...
Aulio – Então mas conta-me... como tens passado?
Bessa – Bem filho, está tudo bem... Mas eu é que preciso de saber de ti... Estás um homem, tens que me contar como estão as coisas lá em França, como está a tua irmã e a tu... (interrompe-se)
Aulio – Pareces um pouco cansado pai.
Bessa – É... o tempo já não joga a meu favor há muito... Mas não te preocupes que isto são só rugas e eu é que não tenho tempo para andar com os cremes.
Aulio – Está certo... Então e aqui o café como vai?
Bessa – Vai bem... uns dias são melhores que outros mas pronto a vila está a ficar mais velhinha... Isto já não anima muito... Agora o que todos querem é as cidades e fazem bem que o Homem não foi feito para andar perdido no meio de nada... É bom que assim andam para lá contentes aos encontrões nas cidades.
Aulio – Mas e tens conseguido manter bem isto... o café?
Bessa – Oh filho não te preocupes... Isto não me vai fazer rico nunca mas olha cá estamos... É ir indo com os dias. Olha mas sabes que eu até tenho estado a pensar fazer umas obras lá em cima e servir almoços e jantares... Já tenho um orçamento... As coisas estão a correr bem, não te preocupes.
Aulio – Mas com que dinheiro é que estás a pensar...
Bessa – O banco... Fui lá e o Xavier disse-me que podemos... Lembras-te do Xavier não lembras?
Aulio – Sim, o senhor Mendes não é?
Bessa – Sim... Pois então ele diz que isto faz-se um empréstimo e depois paga-se aos poucos... Vai ser uma coisa bem feita pá.
Aulio – Pai...
Bessa – Diz lá filho.
Aulio – Não é nada é que...
Bessa – Vá, não te preocupes... Anda, diz lá o que foi.
Aulio – Quando é que vais parar de tentar evitar o inevitável?
Bessa – Não confundas as coisas filho... Este café é da nossa família filho, o meu pai deixou-mo a mim e eu quero deixar-to um dia a ti... Se quiseres então tu vende-lo mas eu... É tudo o que eu tenho filho e quando eu to deixar nas mãos sei que vais sentir-te contente por o teres e por ele depender de ti.
Aulio – Pai... A mãe quer voltar?... Ouviste?
Bessa – A tua mãe... quer o quê?
Aulio – Nós vamos voltar.
Bessa – Para Portugal, para onde? Para aqui!?
Aulio – Sim pai... A mãe sente que já tem o que queria... ela quer voltar.
Bessa – Ela... Mas filho, agora... Ela agora quer voltar? E para aqui!?
Aulio – Sim pai...
Bessa – Isso não... isso não pode ser... Ela quer voltar com...
Aulio – Eu a Sara, ela e o Jean.
Bessa – Não filho, não pode ser...
Aulio – Eu vim primeiro... para falar contigo...
Bessa – Vieste avisar-me?
Aulio – Vim falar contigo pai...
Bessa – Mas depois destes anos...
Aulio – Eu sei pai.
Bessa – Eu não quero que ela venha... que traga esse cabrão...
Aulio – Pai... Vá lá...
Bessa – Filho, eu não quero.
Aulio – Eles chegam no final do mês.
Bessa – Então eu vou...
Aulio – Vais... onde pai?
Bessa – Vendo o café e vou-me embora... deixo esta terra filho... Eu não quero ter que a ver aqui com esse... eu não vou ficar aqui para isso...
Aulio – Eu percebo...
Bessa – Percebes filho...
Aulio – Percebo...
Bessa – Mas tu... não devias... Não achas que a tua mãe não... Que direito tem ela a voltar cá depois de todos estes anos...
Aulio – Pai, ela também cresceu aqui...
Bessa – Oh filho... isso que lhe interessa!? Ela não descansou enquanto não saiu daqui e foi lá para a França... como os idiotas dos irmãos dela...
Aulio – Pai... tenta compreender.
Bessa – Tento compreender filho... O quê? Que essa mulher não me deixa... Oh filho tu não percebes que eu tenho a minha vida toda aqui... Ela vai destruir isso tudo... outra vez...
Aulio – Pai... Eu compreendo mas acho que tens que perceber o lado dela... Ela foi lá para fora trabalhar para poder ter as condições com que sempre sonhou...
Bessa – Oh filho não me digas isso... Então eu sempre dei tudo a essa mulher... Ela sempre teve tudo o que quis, nunca lhe faltou nada e ela foi...
Aulio – Pai... Não vamos discutir.
Bessa – Mas discutir o quê filho... Ela deixou-me, levou-vos para longe de mim, casou com outro homem... E agora quer voltar!
Aulio – Pai... Não vale a pena exaltares-te, tens que te poupar...
Bessa – Eu tenho que me poupar! Tenho que me poupar?... Filho... não sabes como me sinto triste com o que me estás a dizer agora...
Aulio – Pai, tem calma...
Bessa – Oh filho... Filho... E o café?
Aulio – Vende-o pai, vai gozar o resto da tua vida num sítio descansado...
Bessa – Vou gozar o resto da minha vida filho... Mas que resto de vida filho?
Aulio – Pai não reajas assim... Não fiques triste...
Bessa – Oh filho eu só posso é ficar triste... Agora queres que eu venda o café...
Aulio – Para poderes ter o teu dinheiro...
Bessa – Mas que dinheiro filho...? Eu quero é viver aqui descansado... A quem é que eu vou agora vender o nosso café?
Aulio – A mãe... compra-o.
Bessa – A mãe o quê!?
Aulio – A mãe compra-o.
Bessa – Oh filho eu não acredito no que eu estou a ouvir... Queres que eu venda este café à tua mãe que nunca quis saber dele... Depois de tudo o que ela fez... queres que lhe venda o café!?
Aulio – Quero pai.
(pausa)
Bessa – Muito bem filho. Eu vendo o café à tua mãe e vou-me embora.
O senhor Bessa entra no café, o filho segue-o e minutos depois o garoto aproxima-se da abelha Maia, sobe para cima dela e mete uma moeda na ranhura... A abelha dá a sua volta e ouve-se a sua música.
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