
2ª parte
Zaleale meteu-se por uma corrente de ar quente e ascendeu até ao imenso pavilhão de conferências para onde marcavam as reuniões comuns entre os vários deuses.
Além dessas reuniões ainda havia as reuniões particulares que eram presididas por um Deus maior e só podiam ser atendidas por convocatória. Destas reuniões podiam resultar variadíssimas alterações menores no plano existencial e funcional de toda a vida. Depois havia também as reuniões da Lefiose que era uma espécie de câmara onde os Deuses maiores se reuniam e discutiam os assuntos de importância absoluta e urgente. Estas últimas eram muito raras e aconteciam apenas em situações de crise; normalmente eram resultado da actividade clandestina de Deuses maiores que por iniciativa própria e sem levarem o projecto a discussão na câmara começavam a causar mudanças no Mundo. Essa era a forma de um Deus maior afirmar a sua força e poder perante os outros. Quando alguma alteração importante era feita sem o consentimento da Organização Divina Conjunta (ODC) ou Deosinfal, era convocada uma reunião da Lefiose, havia uma reposição de tudo o que tinha sido alterado e os transgressores recebiam uma pena ou então as alterações eram consideradas como positivas e a mudança era aceite.
Os assuntos demasiado importantes não preocupavam Zaleale. Os deuses menores eram como eternas crianças, por mais velhas que se tornassem nunca descobriam o interesse pela afirmação e domínio e também não se preocupavam demasiado com questões de organização e funcionamento do Mundo desde que isso não os afectasse de alguma maneira. Faziam pequenos serviços para os Deuses maiores e alguns eram mesmo muito capazes e tinham poderes fantásticos mas eram sempre mais irresponsáveis do que confiáveis e preferiam andar à toa do que andar de baixo de ordens.
Um anjo destacou-se de um pequeno grupo, chegou-se devagarinho a Zaleale e perguntou-lhe se estava ali para alguma das reuniões ou se vinha à conferência " A Estética na Criação". Os anjos eram todos guias divididos por função e cor. No paraíso os anjos eram bem visíveis e alguns tinham cores muito garridas mas os anjos que tinham funções no subnível 3, o mundo dos mortais, esses eram incolor e invisíveis. Zaleale disse-lhe que procurava a reunião dos artolus e o anjo fez-lhe sinal para que o seguisse.
Chegaram até uma das extremidades do pavilhão e o anjo tirou do bolso um longo fio prateado que tinha na ponta uma pedra muito pequena. O anjo segredou uma palavra qualquer para a pedra e ela transformou-se ganhando a forma de uma longa e estreita chave que foi introduzida num pequeno orifício da porta.
Do outro lado veio uma luz clara à medida que a porta abria e depois de os seus olhos se habituarem Zaleale viu o lugar das reuniões de artolus que era uma espécie de ginásio enorme com marcações no chão para vários campos de várias modalidades desportivas. Era este o espaço onde mais frequentemente se encontravam os deuses menores para conviverem e praticarem actividades de grupo.
Os deuses na sua maioria eram muito solitários, preferiam passar mais tempo a sós e fazer amizades temporárias com outros seres porque a eternidade tinha um grande peso, era uma chatice e dois deuses (ou mais) juntos e chateados normalmente dava em zaragata; depois tinham que ouvir reprimendas e sermões dos Deuses maiores, um castigo chatíssimo que podia durar dias e dias a fio.
A perspectiva imortal sobre a existência era deprimente, sem verem limites e sem sentirem o tempo a beliscar-lhes o rabo os deuses tornavam-se um pouco apáticos e pouca coisa despertava o seu interesse e atenção. Mas misturando-se entre os mortais os deuses voltavam a sentir algum do entusiasmo e excitação, mesmo a tristeza e o sofrimento lhes era precioso. As emoções eram um exclusivo dos seres a prazo e os deuses sem poderem produzir por si mesmos emoções esfregavam-se nos mortais para ganharem algum ânimo nas suas pesadas existências. Alguns deuses viviam mesmo entre os mortais e como eles. Por isso havia uma comissão, a de Gailerus, que era constituída por criaturas ao serviço do Deus Armelo, o responsável por vigiar e controlar as actividades dos deuses menores junto dos mortais. Os Gailerus, os 'chibos' como lhes chamavam os deuses menores, eram umas criaturas que podiam vaguear por todo o lado mas estavam sempre presos às sombras. Vigiavam os deuses e sempre que algum se expunha ou usava poderes junto dos mortais íam a correr chibar-se a Armelo que até tinha um génio afável mas que ficava lixado com as transgressões e podia cancelar os vistos de passagem ou guardá-los na gaveta até que lhe passasse a irritação, isto podia significar muitos anos.
A reunião devia ter acabado de começar, no centro do ginásio estavam uns vinte deuses sentados no chão formando um círculo. Viraram todos a cabeça para ver quem se aproximava. Dois levantaram-se e dirigiram-se a Zaleale:
- Zaleale voltaste! Então portaste-te bem?
O deus que tomou a palavra primeiro era um gordo alto chamado Bessaf, andava sempre muito desperto a cumprimentar toda a gente de forma efusiva. Chegava cheio de energia e dava sempre a sensação que vinha falar de alguma coisa importante mas no final ficava ali assim, fazia umas perguntas dessas do "Então, tudo bem?" e depois dizia que tinha qualquer coisa para fazer e sumia-se.
Zaleale teve que dar um ronco primeiro para soltar a voz e depois respondeu:
- Sim.
O outro deus avançou para ele. Era um deus muito baixo mas muito encorpado, parecia um barril e tinha uma atitude de chefe de gang. Os outros não lhe obedeciam mas a maioria das vezes também não estavam para fazer o contrário do que ele dizia. Gorrota era, entre os deuses menores, o mais próximo que há de um rufia de bairro.
- Olha estávamos aqui à espera a ver se chegava mais alguém, isto está cada vez mais vazio.
- Eu reparei.
Além dessas reuniões ainda havia as reuniões particulares que eram presididas por um Deus maior e só podiam ser atendidas por convocatória. Destas reuniões podiam resultar variadíssimas alterações menores no plano existencial e funcional de toda a vida. Depois havia também as reuniões da Lefiose que era uma espécie de câmara onde os Deuses maiores se reuniam e discutiam os assuntos de importância absoluta e urgente. Estas últimas eram muito raras e aconteciam apenas em situações de crise; normalmente eram resultado da actividade clandestina de Deuses maiores que por iniciativa própria e sem levarem o projecto a discussão na câmara começavam a causar mudanças no Mundo. Essa era a forma de um Deus maior afirmar a sua força e poder perante os outros. Quando alguma alteração importante era feita sem o consentimento da Organização Divina Conjunta (ODC) ou Deosinfal, era convocada uma reunião da Lefiose, havia uma reposição de tudo o que tinha sido alterado e os transgressores recebiam uma pena ou então as alterações eram consideradas como positivas e a mudança era aceite.
Os assuntos demasiado importantes não preocupavam Zaleale. Os deuses menores eram como eternas crianças, por mais velhas que se tornassem nunca descobriam o interesse pela afirmação e domínio e também não se preocupavam demasiado com questões de organização e funcionamento do Mundo desde que isso não os afectasse de alguma maneira. Faziam pequenos serviços para os Deuses maiores e alguns eram mesmo muito capazes e tinham poderes fantásticos mas eram sempre mais irresponsáveis do que confiáveis e preferiam andar à toa do que andar de baixo de ordens.
Um anjo destacou-se de um pequeno grupo, chegou-se devagarinho a Zaleale e perguntou-lhe se estava ali para alguma das reuniões ou se vinha à conferência " A Estética na Criação". Os anjos eram todos guias divididos por função e cor. No paraíso os anjos eram bem visíveis e alguns tinham cores muito garridas mas os anjos que tinham funções no subnível 3, o mundo dos mortais, esses eram incolor e invisíveis. Zaleale disse-lhe que procurava a reunião dos artolus e o anjo fez-lhe sinal para que o seguisse.
Chegaram até uma das extremidades do pavilhão e o anjo tirou do bolso um longo fio prateado que tinha na ponta uma pedra muito pequena. O anjo segredou uma palavra qualquer para a pedra e ela transformou-se ganhando a forma de uma longa e estreita chave que foi introduzida num pequeno orifício da porta.
Do outro lado veio uma luz clara à medida que a porta abria e depois de os seus olhos se habituarem Zaleale viu o lugar das reuniões de artolus que era uma espécie de ginásio enorme com marcações no chão para vários campos de várias modalidades desportivas. Era este o espaço onde mais frequentemente se encontravam os deuses menores para conviverem e praticarem actividades de grupo.
Os deuses na sua maioria eram muito solitários, preferiam passar mais tempo a sós e fazer amizades temporárias com outros seres porque a eternidade tinha um grande peso, era uma chatice e dois deuses (ou mais) juntos e chateados normalmente dava em zaragata; depois tinham que ouvir reprimendas e sermões dos Deuses maiores, um castigo chatíssimo que podia durar dias e dias a fio.
A perspectiva imortal sobre a existência era deprimente, sem verem limites e sem sentirem o tempo a beliscar-lhes o rabo os deuses tornavam-se um pouco apáticos e pouca coisa despertava o seu interesse e atenção. Mas misturando-se entre os mortais os deuses voltavam a sentir algum do entusiasmo e excitação, mesmo a tristeza e o sofrimento lhes era precioso. As emoções eram um exclusivo dos seres a prazo e os deuses sem poderem produzir por si mesmos emoções esfregavam-se nos mortais para ganharem algum ânimo nas suas pesadas existências. Alguns deuses viviam mesmo entre os mortais e como eles. Por isso havia uma comissão, a de Gailerus, que era constituída por criaturas ao serviço do Deus Armelo, o responsável por vigiar e controlar as actividades dos deuses menores junto dos mortais. Os Gailerus, os 'chibos' como lhes chamavam os deuses menores, eram umas criaturas que podiam vaguear por todo o lado mas estavam sempre presos às sombras. Vigiavam os deuses e sempre que algum se expunha ou usava poderes junto dos mortais íam a correr chibar-se a Armelo que até tinha um génio afável mas que ficava lixado com as transgressões e podia cancelar os vistos de passagem ou guardá-los na gaveta até que lhe passasse a irritação, isto podia significar muitos anos.
A reunião devia ter acabado de começar, no centro do ginásio estavam uns vinte deuses sentados no chão formando um círculo. Viraram todos a cabeça para ver quem se aproximava. Dois levantaram-se e dirigiram-se a Zaleale:
- Zaleale voltaste! Então portaste-te bem?
O deus que tomou a palavra primeiro era um gordo alto chamado Bessaf, andava sempre muito desperto a cumprimentar toda a gente de forma efusiva. Chegava cheio de energia e dava sempre a sensação que vinha falar de alguma coisa importante mas no final ficava ali assim, fazia umas perguntas dessas do "Então, tudo bem?" e depois dizia que tinha qualquer coisa para fazer e sumia-se.
Zaleale teve que dar um ronco primeiro para soltar a voz e depois respondeu:
- Sim.
O outro deus avançou para ele. Era um deus muito baixo mas muito encorpado, parecia um barril e tinha uma atitude de chefe de gang. Os outros não lhe obedeciam mas a maioria das vezes também não estavam para fazer o contrário do que ele dizia. Gorrota era, entre os deuses menores, o mais próximo que há de um rufia de bairro.
- Olha estávamos aqui à espera a ver se chegava mais alguém, isto está cada vez mais vazio.
- Eu reparei.
- Pronto mas senta-te aí. - Olhou para os deuses sentados de pernas cruzadas no círculo demasiado apertado com dois furos apenas e fez-lhes sinal para que dessem algum espaço.
Sentaram-se todos no chão e ficou formado um novo círculo completamente fechado. No centro do círculo abriu-se um buraco que se estendeu até junto das pernas de cada um deles. Esse buraco tornou-se um tanque sem fundo com água até cima e aos poucos a água começou a borbulhar como se estivesse a ferver. Debaixo de água começaram a surgir uma infinidade de coisas...
Era preciso estar atento para ver na água agitada as coisas que irrompiam por ali acima. Muito para além do que a imaginação pode conceber, ali naquela água, surgia de tudo, desde pequenos peixes que brilham até dinossauros e outros animais extintos, bem como a mais variada gama de coisas e objectos.
Era assim que os deuses menores tiravam ideias para passar o tempo em conjunto. As reuniões de artolus eram uma espécie de ateliers para os tempos livres onde se realizavam uma série de passatempos incríveis. A única diferença é que os para os deuses menores todo o tempo é livre e por mais passatempos em que se metam o tempo nunca passa.
Estiveram ali uns minutos largos absorvidos pela actividade debaixo das águas que aos poucos começava a soltar bolhas como as de sabão no ar.
Depois de algum tempo sem que qualquer um deles mexesse um músculo, um deus bastante alto e forte fez um movimento súbito precipitando-se para dentro de água. Ficou submerso até à cintura e o seu corpo começou a contorcer-se como se lutasse com alguma coisa grande lá em baixo. Teve que dar um grande chuto com um dos pés no chão do ginásio furando-o para se prender e não ser arrastado mas o que quer que fosse aquilo com que se debatia lá em baixo não parecia dar sinal de estar a cansar-se, continuava a puxar com tanta força que o chão estalou e as pernas dele seguiram o resto do corpo para dentro de água. No último instante um dos deuses que estava do seu lado agarrou-lhe o pé antes que ele desaparece-se no tanque e o deus do outro lado agarrou o outro pé. Os dois fizeram muita força e conseguiram puxá-lo.
A cabeça regressou mas os braços continuavam a segurar alguma coisa lá na água. Com a cara toda coberta pelo espesso cabelo negro ele pediu-lhes arfando que se afastassem do tanque. Afastaram-se todos e alguns começaram a levantar-se.
De um sacão ele atirou bem alto e para trás de si um enorme tubarão branco que ficou elevado uns três metros no ar. Revoltado o tubarão desceu sobre o chão do ginásio mas foi aterrar novamente dentro de água. Uma enorme piscina tinha-se aberto no ginásio e recebera o tubarão.
Freno o deus menor todo molhado, ergueu-se a custo e foi ajudado por um dos outros deuses. Afastou o cabelo da cara e suspirou longamente, depois rasgou a cara num grande sorriso e então deu umas gargalhadas meio afectadas pelo esforço que fizera. Os outros começaram a rir-se também e um a um foram-se atirando à piscina.
Dentro da piscina o tubarão branco parecia doido e avançou ferozmente para o primeiro deus que viu. Este estava atento e num movimento rápido conseguiu pôr a mão no focinho do animal sendo impulsionado para fora de água e dando uma pirueta de belo efeito no ar. Os outros deuses riram-se da proeza e bateram palmas.
O tubarão seguiu em frente e um dos deuses que acabava de mergulhar e parecia estar com dificuldade em acostumar os movimentos à água foi apanhado pelo tronco. O tubarão desfê-lo com os dentes agitando-o brutalmente debaixo de água. Como não tinha intenção de o comer soltou o corpo desfeito do deus menor e num ápice o sangue que subia em grandes quantidades para a tona da água voltou ao corpo e num processo de rápida recontrução o deus atacado estava como novo e voltou à superfície.
- Estás fora pá! Sai. Entras no próximo jogo.
Era preciso estar atento para ver na água agitada as coisas que irrompiam por ali acima. Muito para além do que a imaginação pode conceber, ali naquela água, surgia de tudo, desde pequenos peixes que brilham até dinossauros e outros animais extintos, bem como a mais variada gama de coisas e objectos.
Era assim que os deuses menores tiravam ideias para passar o tempo em conjunto. As reuniões de artolus eram uma espécie de ateliers para os tempos livres onde se realizavam uma série de passatempos incríveis. A única diferença é que os para os deuses menores todo o tempo é livre e por mais passatempos em que se metam o tempo nunca passa.
Estiveram ali uns minutos largos absorvidos pela actividade debaixo das águas que aos poucos começava a soltar bolhas como as de sabão no ar.
Depois de algum tempo sem que qualquer um deles mexesse um músculo, um deus bastante alto e forte fez um movimento súbito precipitando-se para dentro de água. Ficou submerso até à cintura e o seu corpo começou a contorcer-se como se lutasse com alguma coisa grande lá em baixo. Teve que dar um grande chuto com um dos pés no chão do ginásio furando-o para se prender e não ser arrastado mas o que quer que fosse aquilo com que se debatia lá em baixo não parecia dar sinal de estar a cansar-se, continuava a puxar com tanta força que o chão estalou e as pernas dele seguiram o resto do corpo para dentro de água. No último instante um dos deuses que estava do seu lado agarrou-lhe o pé antes que ele desaparece-se no tanque e o deus do outro lado agarrou o outro pé. Os dois fizeram muita força e conseguiram puxá-lo.
A cabeça regressou mas os braços continuavam a segurar alguma coisa lá na água. Com a cara toda coberta pelo espesso cabelo negro ele pediu-lhes arfando que se afastassem do tanque. Afastaram-se todos e alguns começaram a levantar-se.
De um sacão ele atirou bem alto e para trás de si um enorme tubarão branco que ficou elevado uns três metros no ar. Revoltado o tubarão desceu sobre o chão do ginásio mas foi aterrar novamente dentro de água. Uma enorme piscina tinha-se aberto no ginásio e recebera o tubarão.
Freno o deus menor todo molhado, ergueu-se a custo e foi ajudado por um dos outros deuses. Afastou o cabelo da cara e suspirou longamente, depois rasgou a cara num grande sorriso e então deu umas gargalhadas meio afectadas pelo esforço que fizera. Os outros começaram a rir-se também e um a um foram-se atirando à piscina.
Dentro da piscina o tubarão branco parecia doido e avançou ferozmente para o primeiro deus que viu. Este estava atento e num movimento rápido conseguiu pôr a mão no focinho do animal sendo impulsionado para fora de água e dando uma pirueta de belo efeito no ar. Os outros deuses riram-se da proeza e bateram palmas.
O tubarão seguiu em frente e um dos deuses que acabava de mergulhar e parecia estar com dificuldade em acostumar os movimentos à água foi apanhado pelo tronco. O tubarão desfê-lo com os dentes agitando-o brutalmente debaixo de água. Como não tinha intenção de o comer soltou o corpo desfeito do deus menor e num ápice o sangue que subia em grandes quantidades para a tona da água voltou ao corpo e num processo de rápida recontrução o deus atacado estava como novo e voltou à superfície.
- Estás fora pá! Sai. Entras no próximo jogo.
continua, talvez
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