
Maria- Uma vez participei num happening muita interessante... Era uma mulher, acho que ela era actriz e formadora mas também não era portuguesa, era espanhola. Estava em Portugal há alguns meses e durante esse tempo esteve sempre a ouvir falar da questão do aborto, da despenalização do aborto... Estávamos num salão grande, quase quarenta pessoas e ela disse-nos que era importante estarmos sempre a pôr em causa as nossas posições, seja relativamente às coisas mais simples ou às mais complexas... Depois perguntou-nos se o tema do aborto nos dizia alguma coisa. Nós não távamos muito à espera de ir para ali ouvir falar daquilo... Algumas pessoas riram-se... Ela então perguntou se havia ali alguém que fosse a favor da despenalização do aborto... Como ninguém disse logo alguma coisa ela pediu para levantarem os braços... Mais de metade das pessoas levantaram o braço... Depois ela pediu para levantarem o braço as que eram contra... Deviam ser umas quinze pessoas... Ela então pediu, só às raparigas, que tinham agora levantado o braço no ar para o deixarem ficar no ar... Pediu-lhes para avançarem e para irem para o pé dela e disse-lhes para não baixarem o braço. Saiu do salão e apareceu uns dois minutos depois...
Bruno- Alguma delas baixou o braço?
Maria- Espera... Não, nenhuma baixou o braço... Ela voltou com um monte de livros num carrinho, livros daqueles grossos e depois meteu-os nas mãos delas...
Luís- O quê!? Meteu-lhes os livros nas mãos quê... no ar?
Maria- Sim... Fê-las segurar nos livros com o braço esticado para cima...
Luís- Para quê?
Maria- Calma... Depois ela disse-lhes para não pensarem naqueles livros como um peso mas para pensarem naqueles livros como se fossem fetos...
João- Fetos!!!
Ana- O quê!?
Bruno- A gaja passou-se!
Maria- Talvez... E elas riram-se durante um bocado mas continuaram a agarrar os livros... Ficámos ali uma série de tempo...
João- Mas o quê elas aguentaram muito tempo!?
Maria- Sim, elas ainda aguentaram uns dez minutos e nós ali a olhar... Mas depois uma não aguentou mais e depois a outra e depois baixaram todas o braço...
Marta- E então?
Maria- Então ela perguntou aos rapazes que tinham levantado o braço ao mesmo tempo que elas se eles não achavam boa ideia elas serem castigadas... Toda a gente se começou a rir imenso...
Bruno- Claro... Mas o que é que isso tem a ver?
Ana- Sim, não tem muito a ver...
Maria- Eu não sei... Eu achei gira a ideia. Ela disse-lhes que ela não era a favor nem contra e que nunca se tinha visto na situação de ter que fazer aquela opção na sua vida mas que conhecia vários casos diferentes e tinha várias sensações e sensibilidades quanto a esse assunto mas que se acontecesse com a sua filha ela iria apoiar qualquer que fosse a sua vontade... Disse-nos que nós temos que ter algum cuidado quando tomamos decisões que afectam tanto outras pessoas sobretudo quando depois não somos responsáveis pelas consequências dessas decisões... e disse-nos que mesmo que para nós haja qualquer coisa de inviolável, mesmo assim, nunca podemos estar tão seguros ao ponto de querermos condenar outra pessoa por um qualquer pretenso erro que essa pessoa tenha cometido...
Luís- Não sei se percebi muito bem essa situação...
Maria- Eu penso que ela não queria convencer ninguém de nada...
Marta- Ah... Sim... Eu percebo. É uma questão de deixarmos sempre espaço para a dúvida.
Maria- Sim... Eu falei disto por causa daquilo que estávamos a falar de se ter ou não ter razão e de querermos impor uma coisa aos outros mesmo quando isso tem muito de pessoal, quando isso diz respeito ao outro indivíduo de uma forma tão... Determinante...
(trecho da peça POR TRÁS DO ARMÁRIO MUDÁMOS O MUNDO)
Bruno- Alguma delas baixou o braço?
Maria- Espera... Não, nenhuma baixou o braço... Ela voltou com um monte de livros num carrinho, livros daqueles grossos e depois meteu-os nas mãos delas...
Luís- O quê!? Meteu-lhes os livros nas mãos quê... no ar?
Maria- Sim... Fê-las segurar nos livros com o braço esticado para cima...
Luís- Para quê?
Maria- Calma... Depois ela disse-lhes para não pensarem naqueles livros como um peso mas para pensarem naqueles livros como se fossem fetos...
João- Fetos!!!
Ana- O quê!?
Bruno- A gaja passou-se!
Maria- Talvez... E elas riram-se durante um bocado mas continuaram a agarrar os livros... Ficámos ali uma série de tempo...
João- Mas o quê elas aguentaram muito tempo!?
Maria- Sim, elas ainda aguentaram uns dez minutos e nós ali a olhar... Mas depois uma não aguentou mais e depois a outra e depois baixaram todas o braço...
Marta- E então?
Maria- Então ela perguntou aos rapazes que tinham levantado o braço ao mesmo tempo que elas se eles não achavam boa ideia elas serem castigadas... Toda a gente se começou a rir imenso...
Bruno- Claro... Mas o que é que isso tem a ver?
Ana- Sim, não tem muito a ver...
Maria- Eu não sei... Eu achei gira a ideia. Ela disse-lhes que ela não era a favor nem contra e que nunca se tinha visto na situação de ter que fazer aquela opção na sua vida mas que conhecia vários casos diferentes e tinha várias sensações e sensibilidades quanto a esse assunto mas que se acontecesse com a sua filha ela iria apoiar qualquer que fosse a sua vontade... Disse-nos que nós temos que ter algum cuidado quando tomamos decisões que afectam tanto outras pessoas sobretudo quando depois não somos responsáveis pelas consequências dessas decisões... e disse-nos que mesmo que para nós haja qualquer coisa de inviolável, mesmo assim, nunca podemos estar tão seguros ao ponto de querermos condenar outra pessoa por um qualquer pretenso erro que essa pessoa tenha cometido...
Luís- Não sei se percebi muito bem essa situação...
Maria- Eu penso que ela não queria convencer ninguém de nada...
Marta- Ah... Sim... Eu percebo. É uma questão de deixarmos sempre espaço para a dúvida.
Maria- Sim... Eu falei disto por causa daquilo que estávamos a falar de se ter ou não ter razão e de querermos impor uma coisa aos outros mesmo quando isso tem muito de pessoal, quando isso diz respeito ao outro indivíduo de uma forma tão... Determinante...
(trecho da peça POR TRÁS DO ARMÁRIO MUDÁMOS O MUNDO)
1 comentário:
vim aqui parar por acaso mas rendi-me com esta imagem q me despertou atençao. e devo dizer q o texto prendeu-m ate ha ultima linha. pena nao estar completo(acho eu k ainda agr aki cheguei) faz pensar e reflectir nakela atitude =)
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