
É chocante. Um homem tira do bolso da camisa bem passada os 30 ou mais cartõezinhos amarelos que fez como desempregado, para deixar a qualquer um o seu contacto, a sua total disponibilidade, como a de uma puta feia que ninguém quer. Não faz sentido mas os homens são mesmo assim, quando são adultos ou entram no comboio na hora certa ou passam uma vida inteira a pedir boleia... Uma vida inteira mas não uma vida de homem, uma vida de burro, sim porque um homem que vai na berma da estrada contando passos, suando como um animal e esticando o polegar sempre que alguém passa por ele, um homem assim não se devia sentir um homem. Eu olhei para ele e senti uma tremenda compaixão, acho que só por um animal podia ter sentido o que senti, foi comovente, tocante, apeteceu-me acolhê-lo. Eu nunca acolheria um homem. Os homens são animais de uma categoria que não admite pena. Se eu sinto pena de outro homem estou a fragilizá-lo e a colocar-me numa posição de superioridade. Um homem é um homem, pode ser um idiota mas está no seu caminho, já um burro esse pode-se perder.
Um dia perdeu-se no tom vivo alaranjado de uma cenoura e no dia seguinte estava velho e desmontado.
Um dia perdeu-se no tom vivo alaranjado de uma cenoura e no dia seguinte estava velho e desmontado.
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