sábado, setembro 23, 2006

Lembrança


Há dentro de mim uma lembrança,
pedra branca no fundo de um poço,
já não posso, já não quero lutar:
ela é sofrimento, alegre alvoroço.

Acredito: quem olhe bem de perto
nos meus olhos a possa vislumbrar.
E cisme mais triste do que ouvindo
uma história de saudade e pesar.

Diz-se que os deuses mudavam os homens
em coisas, sem matar-lhes a consciência,
para que vivesse a maravilhosa
tristeza. E ficaste-me lembrança.

[Verão de 1916, Sliepniovo]

- Anna Akhmátova, SÓ O CHEIRA A SANGUE, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, 2000

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