domingo, julho 23, 2006

O Guardião

Enfiado no meu confortável saco cama quase me esqueço das incomodidades da vida ao ar livre.
Sinto a pouco mais do que suave brisa desse período anual fronteiriço entre verão e outono, e, sem abrir os olhos, imagino a resplandecente lua cheia que se ergue com toda a sua majestade sobre mim. Como um símbolo da sensualidade do sexo feminino, doce, prateada, redonda e bela como nada mais pode ser bela, da mesma forma que o Sol é potente, fogoso, perigoso, quente, conquistador e supremo.
Paris é algo como uma miragem em sonhos, uma realidade tão distante que duvido que seja real e a fronteira com França, os enormes pirinéus, estão só a uns dias de caminho rumo a este.
Andamos, comemos e dormimos ao relento, como verdadeiros peregrinos. Como o era na época medieval em que centenas quando não milhares de peregrinos ao ano cruzavam o Norte de Espanha procurando a tumba de Santiago.
Ouço como um dos meus companheiros peregrinos se levanta da sua cama terrenal e caminha, primeiro afastando-se do que tinha sido uma pequena fogueira em que cozinhamos o nosso jantar e depois do circulo em que dormíamos nós, os peregrinos, e como passa por mim com passos quase inaudíveis e como caminha em direcção ao bosque cerrado.
Levanto-me e sigo-o.
Quase invisível no bosque, já protegido pelas copas das árvores do omnisciente luar que envolve a noite, uma figura prostrada reflete a humildade dos homens e ao mesmo tempo toda a sua majestade. Procuro que os meus passos sejam tão silenciosos como os seus para não perturbá-lo e aproximo-me, num ritmo tão lento que é quase letárgico, na esperança de não incomodá-lo.
Parece estar a rezar e aproximo-me até estar somente a dois metros de distância, mas não percebo as suas palavras, sei que reza pela forma como entoa cada palavra, essa maneira carinhosa como as pessoas que rezam entrecruzam as suas mãos e proferem cada som com respeito e cuidado e fazem-no num tom discreto mas fervoroso. A oração é sagrada. A oração é uma conversa com Deus, seja ele qual for. Quando oramos devemos ser submissos, mas ao mesmo tempo grandiosos como a nossa fé. Mas antes nunca tinha percebido isto, percebi-o ao ver este homem prostrado orar porque professava uma aula de reza ás arvores e ás trevas e ás porventura serpentes ou roedores que andassem por ali àquelas oras tão tardias para a vida animal.
Vejo como as palavras cessam e dão lugar a um estranho ritual em que o homem, já ajoelhado, se inclina e beija o chão e estende as mãos a Deus, ao céu e finalmente parece benzer-se. Depois diz “ Não é bonito andar-se a espreitar as pessoas quando conformam atos íntimos.” Sinto-me envergonhado como se tivesse sido descoberto na casa de banho das miúdas a tentar espreitá-las trocar de roupa.
“ Desculpe, não queria ser desrespeitoso.” Digo tentando emendá-lo mas sinto que disse algo estúpido em presença de um homem sábio.
“Tens alguma pergunta a fazer-me?” perguntou.
Perguntei em que idioma rezava e a quem rezava e sentia que havia, definitivamente, passado dos limites.
“Rezo a Deus meu pai, e rezo-a numa língua morta há muitos séculos atrás, a minha língua mãe.” Levantou-se e fitou-me, desde o seu alto porte, devia ganhar-me pelos menos uns dez centímetros. “ Rezo por todos os Homens e por todas as mulheres deste mundo, rezo por mim, rezo pelos meus companheiros que me acompanham há tanto tempo, mas principalmente, rezo por ti. Rezo pela tua alma escura, pelo teu coração roto, porque entrevejo nos teus formosos olhos verdes uma raiva que não te abandona, uma ira que não se extinguiu e uma culpa que te atormenta constantemente.” Senti que me esmagava o meu próprio peso. “Agora permite que te faça eu uma pergunta, o que motiva essa culpa?”
E então ajoelho-me e deixo de mirá-lo aos olhos porque já não suporto o seu fogo, e conto-lhe o meu passado. Primeiro a estória da minha vida e logo a estória do que se seguiu á morte do meu irmão.
Conto-lhe que nasci em Paris, em Julho de 84, filho de mãe polaca e pai Francês. Conto-lhe que fui o primeiro de dois filhos. Conto-lhe que éramos uma família abastada, mas que o meu pai vinha de uma família de camponeses do sul da França e a minha mãe vinha de uma família pobre no leste da Europa. Conto-lhe que, como todos os irmãos, eu e Marcel, discutíamos a maior parte do tempo, mas na verdade éramos como unha e carne. Digo-lhe que apesar da diferença de dois anos sempre fomos os melhores amigos e eu amava-o desesperadamente, e como eu era o mais velho, sempre me senti responsável por protegê-lo.
Conto-lhe que antes estudava direito na Sorbona e tudo o que ocorreu naquele dia como eu o recordava.
“Era uma noite chuvosa de outono. Eu conduzia o carro, o meu irmão estava sentado ao meu lado. Voltávamos a Paris desde o sul da França onde tínhamos casa e ás vezes passávamos os fins-de-semana. Ultimamente costumávamos passar todos os fins-de-semana lá já que havíamos arranjado os dois namoradas na pequena aldeia onde tínhamos a nossa casa. Era a aldeia donde tinha vindo o meu pai para Paris há tantos anos atrás, mas agora tinha-se transformado numa localidade turística.
Eu não ia demasiado depressa, cento e vinte, cento e quarenta no máximo, mas foi o suficiente para perder o controle do carro. Na altura foi tudo tão rápido que não consegui perceber nada, mais tarde descobririam que a causa do acidente foi um pneu furado.
Num instante estava tudo controlado, e no instante seguinte lutava com todas as forças que possuía para recuperar o controle do carro. Mas não conseguia, estava a perder a batalha, e os segundos pareciam-me minutos inteiros enquanto tentava desesperadamente salvar as nossas vidas quando me apercebi que o meu irmão não levava o cinto de segurança posto... Uma fração de segundo depois, havíamos saído da estrada e embatido contra uma montanha com uma violência aterradora.
Perdi a consciência com o impacto. Quando acordei, não sei quanto tempo depois, estava sozinho dentro do interior do carro, por esta altura completamente irreconhecível, como também o estava o meu irmão que tinha sido cuspido pela janela no momento do impacto, e estava agora estendido sobre a terra, ensangüentado dos pés á cabeça. O seu rosto era uma amalgama de sangre e terra...” Tive que respirar fundo antes de continuar. “Uma sensação tão profunda de pânico se apoderou de mim que só muitas horas depois voltaria a sentir a dor aguda que me provocavam as muitas costelas partidas e o nariz fracturado. Aproximei-me lentamente com medo que ele não respirasse, mas ao agachar-me e colocar os dedos sobre o seu pescoço pude perceber o sangue a ser bombeado e soube que ele ainda estava vivo. Mas rapidamente percebi que se não o conseguisse levar a um hospital depressa, acabaria por morrer. Vi como estava estendido sobre uma enorme mancha de sangue. Tinha medo de tocar-lhe, porque sabia que se ele tivesse alguma lesão de coluna ou pescoço seria pior, assim que tentei falar com ele, tentei fazer com que recuperasse a consciência.
Enquanto gritava o seu nome, esbofeteava-o na esperança de que recuperasse a consciência, mas ele não acordava por mais alto que gritasse ou por mais força que eu usara. E comecei a chorar como nunca tinha chorado antes na minha vida e o pânico que antes tinha me possuído agora ameaçava bloquear os meus movimentos ou mesmo fazer-me voltar a perder a consciência. Mas sabia que isso seria o fim da vida do meu irmão e não podia permitir que isso acontecesse por isso reuni todas as minhas forças e caminhei até á auto-estrada, mas, para meu desespero, não passava nenhum carro e os minutos passavam. Ainda não tinha conseguido parar de chorar e não sei se por culpa da quantidade enorme de sangre e lagrimas e chuva que engolia e me cegavam ou se pelas costelas fracturadas ou pelo pânico, ou se pelo aglomerado de todos estes factores, comecei a ter uma dificuldade enorme de respirar. Sentia-me como se estivesse imerso em um pesadelo, não podia conceber aquela situação como algo real porque pura e simplesmente nunca antes me havia encontrado numa situação tão desesperada. Cada vez me parecia mais difícil levar a cabo o simples acto de permanecer consciente, sentia-me presa do pânico, da dor e também da exaustão. Mas ao olhar para o meu irmão e ver no estado em que se encontrava toda a esperança me abandonava e sabia no fundo que a situação estava muito complicada e não podia acreditar que aquilo estivesse realmente a acontecer. Esperava acordar aliviado a qualquer momento na minha cama, abrir a janela e sentir a brisa noturna de Paris mas algo me dizia que aquilo não era um sonho. Era demasiado intenso para ser um sonho embora eu lutasse contra essa constatação terrível.
Precisava urgentemente levar Marcel a um hospital, mas não podia sequer movê-lo sem arriscar matá-lo ou invalidá-lo para toda a vida e não sabia onde conseguir ajuda. Nem sequer sabia em que direcção caminhar para poder conseguir ajuda... quando me lembrei de procurar o meu telemóvel. Não estava no meu bolso mas devia ter caído dentro do carro. Voltei ao carro e encontrei-o. Recriminei-me por não agir com mais celeridade, mas estava intacto, e só restava saber se tinha cobertura. Marquei o numero de casa, chamava, uma e outra vez até que um sonolento homem atendeu, era o meu pai. Não sabia o que dizer, estava bloqueado, pensei em desligar ao passo que o meu pai se impacientava do outro lado da linha e vociferava perguntando se se tratava de alguma brincadeira de mau gosto. Pude articular algumas palavras chave... Pai... Marcel... Acidente... Bernard... Mas não sei se o meu pai conseguiu perceber alguma delas porque comecei a chorar uma vez mais enquanto as pronunciava pelo telefone. Senti-me um estúpido que não estava a altura das circunstancias.
Ao fim de dois minutos logrei ser minimamente claro para que o meu pai pudesse chamar a policia e avisá-los sobre a nossa situação. Permaneci na borda da estrada, esperando que passasse algum carro ou que finalmente a policia chegasse, mas antes que pudesse avistar alguém desmaiei sem poder respirar, afogado em sangre e lágrimas, banhado pela chuva, estendido no meu leito de terra ao lado da auto-estrada que liga Paris a Lyon.
Acordei algumas horas depois, num quarto de hospital iluminado pela luz matinal. Ao lado da cama encontrava-se a minha mãe. A dor era então intensa, embora algo disfarçada pela confusão que pressupõe acordar num sitio onde nunca estivemos antes sem saber como fomos lá parar. Rapidamente lembrei-me do ocorrido no dia anterior, do acidente, da chuva na estrada, da falta de ar... E foi então que notei no seu semblante uma dor profunda que não poderia advir de nenhuma outra circunstancia que não fosse a morte do meu irmão pequeno, a morte de um filho. Então, mais uma vez, chorei como não sabia ser possível chorar, chorei lágrimas de dor inenarrável e, desta feita, chorei acompanhado por uma mulher cuja dor superava, como se tal fosse possível, a minha própria dor. Ao aperceber-me disso, chorei não só por mim, chorei por mim, por ela, pelo meu pai e por todas as outras pessoas que o amavam e pela primeira vez soube o verdadeiro significado de duas palavras: dor e culpa. O meu irmão estava morto e eu estava vivo e eu não pude evitar que tudo aquilo acontecesse. “Nunca poderei perdoar-me...”.
Nada voltaria ser como antes. Sentia-me culpado por ter sobrevivido e abandonado o meu irmão á morte. Não me perdoava por ter desmaiado, por não ter sido mais forte, por não dominar o carro, por não o haver obrigado a usar o cinto de segurança. A minha mãe contou-me que quando a policia chegou encontrou-me desmaiado na borda da estrada e averiguaram de imediato, graças aos para-médicos, que o estado de Marcel era gravíssimo, embora ainda respirasse. Haviam tentado despertar-me ,mas os médicos diagnosticaram que eu havia sofrido um ataque de pânico severo e que essa teria sido a causa que me levaria a perder a consciência.
Nesse momento não me poderia sentir pior e não sabia se poderia agüentar a dor de haver perdido o meu irmão e ao mesmo tempo suportar a culpa de não ter sido capaz de protegê-lo e de haver sido débil quando o meu irmão precisava que eu fosse forte para ampará-lo. Sentia-me culpado e sentia que o havia abandonado e não podia olhar nos olhos da minha mãe e julgava que nunca mais o poderia fazer.
Pedi a minha mãe que me deixasse sozinho, não suportava observar as lágrimas que começavam a escorrer pela sua face. A ela tampouco era capaz de amparar. Era demasiado débil e queria morrer por isso.
Vi como abandonava o quarto de hospital e senti algum alivio por poder chorar sem que ninguém apreciasse a minha extrema e ridícula debilidade. E ali deitado numa cama de hospital, em solitário, como um bebe indefenso, como um homem patético, chorei como uma mulher histérica incapaz de aceitar a realidade, incapaz de aceitar que nunca mais veria a Marcel com vida.”
Incapaz de erguer-me, prostrado sobre a terra, não como o havia estado aquele soberbo homem antes, humilde mas majestoso, mas sim débil e encurvado, não podia voltar a levantar-me nem sequer a mirá-lo.
Então ele ajoelhou-se e, num gesto gentil, obrigou-me a olhar nos seus olhos e disse-me “ Aquele que nunca sentiu a dor não está preparado para um caminho de espinhos, aquele que não sentiu a culpa não pode ser de fiar-se, e a ira, a raiva, essas far-te-ão forte como a nenhum homem, meio-termo entre anjo e diabo, vontade férrea e carácter indomável caminharás ao meu lado sempre protegido pelas trevas que abomino e recusam amparar-me, e motivado pela luz que de mim emana. O que pertence ao passado ao passado pertence guardião, agora o teu caminho é a meu lado e sofrerás por mim e te alegrarás por mim, e a nenhum outro amarás nem por nenhum outro sofrerás que não por mim, líder entre os homens, rei entre os reis, teu mestre e confessor, a mim, o filho de Deus."

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