sábado, julho 22, 2006

Despertar

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Despertei de um sonho que poderia haver durado mil anos, em que vi todos os homens e mulheres do mundo, aqueles que nasceram e morreram e aqueles que nasceram e ainda não morreram e também aqueles que nasceriam para depois morrer. Mergulhei em infernos com fogo que queimava a minha pele e demônios que devoravam os meus membros e diabretes que alfinetavam os meus olhos, e mergulhei em infernos de trevas em que nada ocorria senão uma profunda sensação de perda pior do que qualquer dor física alguma vez conhecida ou por conhecer, um vazio absoluto apenas explicável a outro que houvesse sonhado o mesmo inferno abismal; e ascendi ao céu onde conheci querubins inocentes mas também querubins safados, e anjos sem sexo frustrados por ser-lhes negados os prazeres da carne, e homens ilustres descansando milênios no céu depois de vidas plenas e completas e vi a Mohamed fumando a chicha e vi a Ghandi meditando num altar budista estelar e vi a uma poderosa figura eternamente incandescente e com enormes asas brancas e imaculadas e luminescentes oleando uma bandeira estandarte que não reconheci e pensei, pelo seu carácter algo andrógeno, embora no céu isso seja frequente, e pelos seu curtos cabelos, mas loiros reluzentes como o ouro, que talvez aquela fosse a mítica Joana de Arco.
Percorri caminhos que não poderia começar a descrever na língua dos homens, sem que isso me parecesse um imenso sacrilégio. Trilhei essas estradas durante o que me pareceram milénios, rumo a destinos tão diversos como insignificantes. E numa dessas viagens, percorrendo uma estrada bem asfaltada e bem sinalizada, no meu Cadillac vermelho, uma estrada que conectava o céu a um planeta onde todos os homens vivem vidas inteiras sem pensar no significado das mesmas e por conseqüente sem pensar em Deuses ou entes similares, vi um homem com uma longa bata branca e cabelos longos castanhos e ondulados que fazia o sinal que os homens modernos fazem quando querem boleia. Dei-lhe boleia e disse-me que tinha curiosidade por ver como seria uma existência sem religião e se eram mais ou menos felizes que os homens que tinham um Deus a quem orar. Apresentou-se como Jesus Cristo e fize-mo-nos grandes amigos e vivemos algum tempo nessa terra dos homens descrentes até que nos aborrecemos e voltamos á estrada e fomos no nosso Cadillac vermelho até a uma terra em que todos os homens viviam somente para a religião e para os seus Deuses, mas também nos aborrecemos e voltamos para o céu e tomamos chá preto e fumamos chicha de sabor menta com Mohamed discutindo sobre qual era a terra mais aborrecida, aquela em que os homens viviam sem religião ou aquela em que os homens viviam somente para a religião.
No céu todas as pessoas são felizes e no inferno todas as pessoas são infelizes mas ás vezes as pessoas que vivem no céu aborrecem-se e vão ao inferno passar umas férias e quando voltam tudo é muito melhor do que quando se tinham ido, e passam a estar muito mais felizes e no inferno, onde por certo não existe nenhum guarda, nenhuma vala, nenhum muro, nenhumas grades ou sequer uma proibição que os empeça de sair de lá, as pessoas infernais ás vezes deixam a sua morada eterna e viajam ao céu e outros mundo mas não se sentem cômodos e voltam ao inferno porque depois de morrer ninguém tem corpo, nem medo de morrer, nem ânsias de ser rico, e todos os prazeres não são suficientes para satisfazer uma eternidade de desejos e tudo o que resta é uma profunda e exacerbada consciência sobre a nossa natureza e a validade dos nossos actos. Não é que as pessoas deixem de ser más e passem a ser boas, simplesmente percebem que são más quando ainda não o tinham percebido antes. E quase sempre, continuam a sê-lo porque é essa a sua natureza.
Um dia perdi a Jesus Cristo de vista e nunca mais o encontrei e juntei-me a uma tribo morta há dois séculos atrás e consumi Peyote e rezei aos seus deuses e possuí as suas mulheres e compreendi o significado da vida de mil formas distintas numa eternidade que poderia haver durado apenas alguns minutos em outro sítio.
O ar entra nos meus pulmões e os meus músculos voltam a activar-se e nas pontas dos meus dedos sinto, sinto! , um comichão e sei que querem voltar a mexer-se. Renasci como uma Fénix de asas prateadas nos tempos modernos sem perceber onde estava e porque ali estava e porquê já não fumava Peyote com os índios mortos há dois séculos atrás e porque nunca mais tinha visto o meu amigo Jesus Cristo fumador de Chicha e onde raio se havia metido e porque sentia o cheiro da terra húmida e das copas das árvores e porque sentia o frio de Boston em Outubro e porque uma intensa dor na minha nuca ameaçava com fazer-me “cair” uma vez mais inconsciente. Não via nada senão um borrão de luz no meio de um quadro obscuro qual obra gótica titulada “a profunda escuridão no bosque da morte e da vida” e passaram horas e horas até que percebi que havia estado vivo e morto e agora estava outra vez vivo e que já não estava onde tinha estado antes porque naquele sítio não respirava porque não era necessário e aqui sim.
Quando pude dominar de forma suficiente os meus movimentos para tocar a minha nuca vi como tinha os dedos manchados de sangre e como me doía realmente o sítio do impacto, mas num acto extremamente agônico cutuquei a minha ferida até não suportar mais a dor certificando-me que não havia nenhuma perfuração e depois fiz o mesmo tocando a minha frente ainda sem ter a certeza se não me encontraria com uma das muitas macabras piadas de mau gosto do inferno onde tinha estado há, pelo menos assim me parecia, tão pouco tempo.
Quando os meus músculos assim me o permitiram caminhei pelas trevas do bosque sem direcção embora tivesse a esperança que fosse a direcção certa que me levaria á estrada e não ás profundezas do bosque onde talvez pereceria. E enquanto caminhava, num estranho e curioso processo fui esquecendo-me gradualmente da minha supra-vida até que só me sobrasse o essencial para relatar-vos o já relatado, e num inverso processo, recordando os detalhes da minha vida passada que antes havia esquecido por completo.
Recordei o porque havia chegado àquele bosque e o que havia de facto ocorrido, antes só me podia lembrar do roce, praticamente imperceptível, da pistola na minha nuca antes de que tudo estivesse apagado, recordei quem me tinha levado ali, recordei que trabalhavam para o emergente senhor do sub-mundo de Boston para quem eu tinha recusado trabalhar, e recordei algo muito mais importante do que tudo isso, recordei tudo o que havia para recordar de Manchester, e da minha mãe e de Cristine.
Depois disso, graças ao meu amigo Jesus Cristo que já por essa altura estava convencido de que havia desaparecido do meu lado no céu para devolver.me a vida na terra, e graças á bondade de um camionista que me levou até Boston, pude chegar ao meu apartamento e recolher alguma roupa, todo o dinheiro que tinha guardado e escondido debaixo de uma laje no chão de mármore e o meu passaporte. Comprei um bilhete de trem até Nova York e de aí embarquei no seguinte avião até Paris. De Paris apanhei outro trem até Londres, não sem antes conhecer a Torre Eifell e o Louvre onde nunca tinha estado, e de aí um trem para a minha velha, familiar e querida Manchester.

1 comentário:

Diogo Vaz Pinto disse...

parece uma fábula moderna escrita por um doido com uma alma cheia... prestes a rebentar... Eu até sei de onde vens mas se não soubesse ficava era cheio de curiosidade para saber onde tens andado...