No momento anterior desta nossa charla à volta das traduções de Rimbaud, transcreveu-se a versão final do poema “Larme”, e não aquela que surge na edição “Obra Completa”, da Relógio d’Água, uma variante enviada numa carta para Verlaine, circa 1886, e que não comparece na reunião da plêiade, pelo menos não na que consultámos (que é dos anos 80). Serras Pereira dá a entender que foi marosca do crítico com o fito de induzir em erro o leitor e assim imputar uma pecha à sua tradução do poema. “Há um erro na transcrição da versão que DVP propõe como sendo aquela que eu traduzi: onde o crítico põe "Tel, j'eusse été mauvaise enseigne d'auberge" deve ler-se: ‘effet mauvais pour une enseigne d'auberge’”. Depois ainda nos brinda com uma outra versão do mesmo poema. E, por esta altura, já ninguém se pode queixar de não ter dado com nada no sapatinho.Assumo que me perdi entre as versões, mas esta troca vem, assim, voltar-nos para uma outra trapalhada na edição portuguesa, uma vez que a versão do poema não é, afinal, a última que o poeta deixou. Quanto ao resto, diz o insigne tradutor que não comenta, e nem eu esperava outra coisa, se quisesse uma resposta em condições talvez tivesse de lhe pagar por isso, e haveria de sair-me a peso de ouro cada palavra do douto tradutor. Mas vamos prosseguir com o que interessa: deixo-vos uma sequência de “glosas” a partir da célebre “Chanson de la plus haute tour”... Versões de Augusto Campos, Wladimir Saldanha e Maria Gabriela Llansol, e só depois, no remate, a fidelíssima tradução de Miguel Serras Pereira, essa sim certificada, e já vamos saber em que moldes.Chanson de la plus haute Tour
Oisive jeunesse
À tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah! que le temps vienne
Où les cœurs s'éprennent.
Je me suis dit : laisse,
Et qu'on ne te voie :
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t'arrête
Auguste retraite.
J'ai tant fait patience
Qu'à jamais j'oublie;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.
Ainsi la Prairie
À l'oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D'encens et d'ivraies,
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.
Ah! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n'a que l'image
De la Notre-Dame!
Est-ce que l'on prie
La Vierge Marie ?
Oisive jeunesse
À tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah! que le temps vienne
Où les cœurs s'éprennent.
Augusto de Campos:Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante.
Eu me digo: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
Do que quer que seja.
Não te impeça nada,
Excelsa morada.
De tanta paciência
Para sempre esqueço:
Temor e dolência
Aos céus ofereço,
E a sede sem peias
Me escurece as veias.
Assim esquecidas
Vão-se as Primaveras
Plenas e floridas
De incenso e de heras
Sob as notas foscas
De cem feias moscas
Ah! Mil viuvezas
Da alma que chora
E só tem tristezas
De Nossa Senhora!
Alguém oraria
À Virgem Maria?
Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante!Wladimir Saldanha:
Juventude lesa,
Em tudo sorvida,
Por delicadeza
Eu perdi-me em vida.
Ah! Que o tempo acene,
De um peito perene.
Disse a mim: despreza
E não queiras público
E sem mais promessa
Do mais alto júbilo.
Razão não te susta,
Retirada augusta.
Eu fui quem não cansa,
Não me esqueço ali:
Ânsia e repugnância
Vão aos céus e fim.
E uma sede infrene
Turva a veia, vem-me.
Pradaria assim
Esquecida, vê
Crescer benjoim,
Joio florescer
Ao bordão agreste
− mil moscas em peste.
Ah! Viuvice tanta,
De alma só, que chora
Ante a imagem santa
De Nossa Senhora!
Mas, vai pedir − quem
A Maria, à Virgem?
Juventude lesa,
Em tudo sorvida,
Por delicadeza
Eu perdi-me em vida.
Ah! Que o tempo acene,
De um peito perene!Maria Gabriela Llansol:Juventude ociosa
Escrava e submissa,
Por delicadeza,
Deixei fugir a minha vida.
Ah!, venha esse tempo
Com corações que se apaixonam.
Disse a mim mesmo: abandona,
E que ninguém te veja:
Nem mesmo a promessa
De alegrias mais altas.
Que nada te prenda, ou pare
Sublime retirada.
Dei tantas mostras de paciência
Que tudo eu para sempre olvide;
Temores e dores
Volatizaram-se nos céus.
Mesmo se uma sede doentia
Me obscurece as veias.
Assim o Prado
Deixado ao abandono,
Maturado e enflorido,
De cores-odores e ervas daninhas,
Entregue ao zumbido ensurdecedor
De sem moscas nojentas.
Ah! Mil vezes viúvo
Da trist'alma nua
Sem outra imagem
Que a da Senhora Mãe!
Será que se ora
À Virgem Maria?
Juventude ociosa
Escrava e submissa,
Por delicadeza,
Deixei fugir a minha vida.
Ah!, venha esse tempo
Com corações que se apaixonam.E, finalmente, o nosso Miguel Serras Pereira:De ócios jovem presaA tudo rendida,Por delicadezaPerdi minha vida.Ah que o tempo avanceQue encanta os amantes.Eu disse-me: esquece,Não sejas ninguém.E deixa a promessaDe mais altos bens.Que nada te frustreO retiro augusto.Ó viuvezes váriasDa pobre alma agoraQue só tem a imagemDe Nossa Senhora:Rezar dever-se-iaÀ virgem Maria?Esperei tão pacienteQue para sempre esqueci.Medo e sofrimentoNo céu os perdi.E uma sede langueEscurece o meu sangue.Tal a pradariaQue o olvido vence,Crescida e floridaDe joios e de incenso,Ao zoar furibundoDas moscas imundas.De ócios jovem presaA tudo rendida,Por delicadezaPerdi minha vida.Ah que o tempo avanceQue encanta os amantes.O outro momento revelador nesta troca foi a seguinte explicação que o tradutor resolveu dar, não ao crítico (a esse nunca, nada), mas a um passante:Digamos, já agora, que, se não compete ao tradutor desfigurar o original, não convém também que, em vez de traduzir, e enquanto tradutor, glose e melhore, penteie ou componha o que, no original, é esboço, ficou inacabado ou surge como "borrão" ou tentativa. E esta recomendação, pá, deve o tradutor tê-la presente, muito em particular, quando traduz boa parte dos poemas (em verso ou prosa) de Rimbaud. Indirectamente, foi o que tentei mostrar indicando acima como traduzi de modo diferente duas versões aproximadas do mesmo poema, mais fruste uma, mais elaborada a outra. Confrontar as duas versões originais de Rimbaud tornará talvez o que aqui digo mais evidente para o leitor. Mas não é este o lugar mais apropriado para continuar esta discussão. Nem para abordar o estatuto de glosas como as de Llansol — e, para alguns textos em verso, também do grande Cesariny — que, retomando motes alheios, são exercícios poéticos que podem revelar-se apaixonantes, mas não são a "tarefa do tradutor", por mais benjaminianamente que a entendamos.Perante as voltas desta máquina de lavar que arranca da fibra, ao estalo se preciso, qualquer nódoa, e junto vai-se também a cor, o perfume. Já sei que devia observar maior contenção para ir pelo opróbrio abaixo, o ataque pessoal, tenho ouvido dizer, e que confundo as coisas, baralho os níveis, mas ainda estou para ver nesta terra de primas o fim aos territórios das susceptibilidades, vivemos, realmente, no país das sumidades, tudo lhes dá para se erguerem numas tais presunções, iminentíssimos, a estender a mão e o anel para o beijo, que respeitabilidades, e isto em nome do quê?, será por andarem por aí literatossindo, o que dá a esta costureira a confiança para vir dizer-nos que os outros glosam, penteiam e alindam o original, e que ele sim é fiel, não lima as unhas, deixa-lhes borrões, as tentativas dando de mamar aos seus erros, mas os outros “glosam”, pois em vez de buscar simetrias toscas das palavras, tentam dar caça à voz, importar o tom, não ficar pela literalidade, coisa que não percebe este que tem uma pequena indústria de serviços de serração/tradução, que manda abaixo a árvore, lhe salta em cima e com cada movimento do serrote levanta uma poeira que nos seca as narinas, deixa os autores como troncos empilhados, bons para a lareira. Haveria outras imagens mais instrutivas, pode notar-se como os pássaros selvagens não se dão se enfiados numa gaiola, e se virmos como a natureza contrariada congemina o seu próprio cianeto, numa hora estão ali muito tristes, na seguinte estão caídos, coroados das últimas caganitas, e nem mais um pio, patrão. A questão aqui é saber se Serras Pereira acha que Rimbaud assinaria, se reencarnasse neste idioma, a sua proposta de tradução. Porque aquilo que nos deu, não se engane, não parece mais que a canção da marquise mais alta, com uma lurdinhas a estender a roupa e a dar uma de pintassilgo... Se aceitamos que o tradutor claudique aqui ou ali, falhe algumas ligações, não consiga trazer tudo pela própria inconsistência entre as línguas, o esforço aqui passa mais por prender fogo, e as vertigens, os “murmúrios íntimos”... A imagem mais justa até será a de andar com uma vela junto à boca, a soprar e embalá-la, criando certos movimentos de sombras, sem deixar que se apague. Lança-se um teatro, dirige-se a acção, trabalha-se a perfeição dos gestos, a correspondência entre a luz e as sombras dá-nos uma ideia da graciosidade da transposição. A sobre este assunto, nada melhor que relembrar a nota de Herberto que servia de introdução ao “bebedor nocturno” (achando-se hoje no “photomaton & vox”): “Uma pessoa pergunta: e a fidelidade? Não há infidelidades. É que procuro construir o poema português pelo sentido emocional, mental, linguístico que eu tinha, subrepticiamente, ao lê-lo em inglês, francês, italiano ou espanhol. É bizarramente pessoal. Mas não há fidelidade que não o seja. Senão, claro, a ainda mais bizarra fidelidade gramatical que, de tão neutra, não pode ser fidelidade. Alain Bosquet prevenia algures as pessoas contra essa espécie de fidelidade. Não levantava, ele, sérias reservas ao facto de se traduzir um poema húngaro desconhecendo o húngaro, e dizia: faça-se um poema francês (dirigia-se aos poetas franceses). Porque Bosquet só admitia que fossem poetas a praticar a versão de poesia.”Aí está. Mas talvez Serras Pereira resista ainda, defendendo a sua tradução, o cadáver daquela coisa que em tempos andou em estado selvagem numa outra língua, transferida assim para um zoo nesta. Talvez essa fidelidade lhe pareça muito mais apetecível do que ter uma glosa, um transplante de um órgão vital de um corpo a outro. Daí que rejeite as “glosas”, os “exercícios poéticos”, que podem até ser apaixonantes mas caem fora da “tarefa do tradutor”... E é bom que estejam a tirar notas porque lições destas pagam-se caro.Aqui, permita-se-me um (talvez dispensável) esclarecimento, e que merece até uma epígrafe própria:Et le métier d’homme de guerre est une chose abominable et pleine de cicatrices, comme la poésie.Blaise CendrarsComo se vê, alguns andam convencidos que se aproveita melhor o nosso tempo escrevendo “peças literárias”, os pelotões dos versos marchando, contos, ensaios desses com todos os apitos, para impressionar a academia, já eu não, e nem vou dizer, como o outro, que prefiro bater, mas talvez que ando nisto mais pelo cavaco, menos pela escaramuça em torno de questões de etiqueta ou outras bagatelas, mas em busca de um “novo estilo de desavença”, até por um gosto de beber o próprio sangue a uma outra temperatura. Vejo bem a dificuldade que se tem hoje de ir até ao fim, não nos ficarmos pelas indirectas, embustes, ambiguidades escusadas... É mais isso (creiam-me ou não, é indiferente) do que esses triunfos publicitários de que se fala, de um desejo de se fazer notar, fazer os tão ardorosos inimigos figadais. Mas inimigos onde? Apontem-me um de entre esses todos que se mostram tão indispostos, trocando de dentes diariamente de tanto os ranger, um que se mostre e seja, realmente, temível, seja pela aplicação dos nervos na análise de um modo capaz de mobilizar a matéria, fritar-nos com uma sentença. Inimigos figadais...? Não estou a ver. Até porque sabemos já que não é ao nível do fígado que a época está no seu melhor. Está longe de ser esse o órgão que dá o tom à pele, e também não se espere muito dos rins ou do coração, não são esses os que vêm à dianteira neste tempo, só umas irritabilidades que se ficam pelas tripas, uns espasmos do ego, e tudo se cura com um cházinho... Não tenho o menor interesse em defender-me da reputação de crápula. Prefiro tomá-la nos braços (coitadinha, estava para ali tão só, sem que ninguém lhe pegasse – afinal, vivemos no tempo das moralidadezinhas, e ninguém está para dar a esses heróis todos um vilão que seja) e dançar até que a marchinha estúpida desta época se fine, a criadagem tenha levantado as mesas, os músicos, extenuados, não sejam capazes de nem mais um nota, e suas senhorias tenham saído aos ziguezagues e tropeções, despedindo-se da maria gloriazinha por meio de algum arrotito....Provavelmente, ainda voltaremos a isto, ainda traremos mais alguns exemplos desta tão higiénica fidelidade com que nos matam, e empalham, ainda viremos com outras flores de plástico desse calhamaço que tinha ganas de ser uma edição histórica mas acabou por se revelar mais outro talho de animais de altíssimo porte, um espectacular exemplo da tentação de alguns editores de fazerem brilharetes servindo-se de mercenários.E para concluir, o leitor que leia e nos diga se estes versinhos, lidos em voz alta, vos parecem escritos por Rimbaud:(...)Eu disse-me: esquece,Não sejas ninguém.E deixa a promessaDe mais altos bens.Que nada te frustreO retiro augusto.Ó viuvezes váriasDa pobre alma agoraQue só tem a imagemDe Nossa Senhora:Rezar dever-se-iaÀ virgem Maria?Esperei tão pacienteQue para sempre esqueci.Medo e sofrimentoNo céu os perdi.E uma sede langueEscurece o meu sangue.(...)Se para o leitor isto está bem, então que se dane toda esta inútil discussão. O erro é nosso. Se isto vos nutre, já sabemos que Serras Pereira cumpriu à risca com o que se lhe pedia: serviu merda a moscas imundas.
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terça-feira, dezembro 25, 2018
Miguel Serras Pereira e a Lurdinhas que nos deu em lugar do Rimbaud (2)
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domingo, dezembro 23, 2018
Miguel Serras Pereira e a versão Rambo que nos deu de Rimbaud (1)
O texto que escrevi sobre a "Obra Completa" de Arthur Rimbaud, publicada há alguns meses pela Relógio D'Água, mereceu alguns reparos de Miguel Serras Pereira. Reproduzo o texto por ele publicado no seu mural do Facebook:
RIMBALDIEUSERIES
Numa recensão crítica, estilística e moralmente problemática, publicada no jornal i de 25-08-2018, e da qual acabo agora de tomar conhecimento, Diogo Vaz Pinto queixa-se da escassa "rebaldaria" que torna, aos seus olhos devotos do "místico em estado selvagem, um "pávido estertor" as traduções de Rimbaud, em parte de João Moita e em menor parte minhas, que a Relógio D'Água este ano editou. Comparando desfavoravelmente — mas sem um único confronto de versões — as traduções agora publicadas com, por exemplo, as de Cesariny, de Pedro José Leal e de Llansol, DVP pronuncia uma extensa e, por vezes, laboriosamente exaltada sentença, que sem remédio as incrimina por revelarem "não poucas vezes […] uma impossibilidade de acompanhar o poeta na sua furiosa dispersão", e porque "acabam por produzir um efeito de redução e contenção de Rimbaud". Acresce que "[e]mbora as imagens sobrevivam, e vocabularmente a tradução seja fidelíssima à turbulência original, por delicadeza, os tradutores vão perdendo as vitais sinestesias do poeta. A prosódia tantas vezes mostra-se coxa, os versos são cascas, casulos de que a borboleta já saiu. […] Cai em saco roto todo o incitamento ao tal desregramento dos sentidos, e temos uma poesia que nem dá sinais de luta no esforço de segurar a beleza estética [sic] do original".
Dito isto, resta, uma vez que DVP não o faz a não ser através de um único exemplo tangencial, ainda que esforçadamente introduzido a martelo, como que no exercício distintivo, diria Cesariny que cito de memória, de qualquer "adepto das comunidades práticas de pregar com pregos as partes mais sensíveis da matéria", resta, dito isto, dizia eu, fornecer ao leitor uma amostra que lhe permita apreciar, ainda que tão só liminarmente, a adequação da severidade justiceira do cronista. E, assim, como não tenho procuração do meu amigo João Moita que me consinta seleccionar versões da sua lavra, aqui deixo, para ilustrar o métier hermenêutico de DVP, a tradução que pude de um dos sonetos que publiquei na edição da Relógio D'Água.Dito isto, resta, uma vez que DVP não o faz a não ser através de um único exemplo tangencial, ainda que esforçadamente introduzido a martelo, como que no exercício distintivo, diria Cesariny que cito de memória, de qualquer "adepto das comunidades práticas de pregar com pregos as partes mais sensíveis da matéria", resta, dito isto, dizia eu, fornecer ao leitor uma amostra que lhe permita apreciar, ainda que tão só liminarmente, a adequação da severidade justiceira do cronista. E, assim, como não tenho procuração do meu amigo João Moita que me consinta seleccionar versões da sua lavra, aqui deixo, para ilustrar o métier hermenêutico de DVP, a tradução que pude de um dos sonetos que publiquei na edição da Relógio D'Água.
Vénus Anadiómena
Como de um caixão verde de lata, uma cabeça
De mulher, juba escura muito engordurada,
De uma banheira velha emerge, lerda e peca,
Crivada de remendos mal-alinhavados;
O colo gordo e pardo, as grandes omoplatas
Saídas; o dorso curto qual eixo sinuoso;
Depois os rins redondos, que ensaiam como um voo;
As banhas sob a pele em fatias acamadas;
Um tanto rubra, a espinha; e um gosto em tudo insiste
Estranhamente horrível; solicitam a vista
Indícios singulares a examinar à lupa…
Nos rins gravadas — Clara Venus — duas palavras;
E alça-lhe o corpo todo a sua grande garupa
Medonhamente bela com o ânus em chaga.
Depois, e uma vez que lhe tinha escapado o texto escrito pelo Ricardo Norte, dei-lho a ler, tendo o excelentíssimo tradutor despachado as objecções apontadas nessa segunda crítica de forma telegráfica:
Como não falo com DVP, deixo aqui duas ou três observações sobre o texto que ele aqui postou, "Rimbaud na teia dos mercadores". 1. as "mazelas" da alma podem significar, justamente, as suas "imperfeições" ou pecados, etc. 2. O "galo gaulês" seria uma solução possível, mas que rejeitei porque "galo" e "gaulês" têm o mesmo étimo — o que não se passa com "coq" e "gaulois". 3. Os reparos sobre a ventura ou felicidade e a magia passam-me ao lado, tanto mais que a minha tradução é perfeitamente compatível com o sentido que o crítico sustenta dever ler-se na passagem em causa.
Posto isto, segue a primeira parte da tréplica.
Miguel Serras Pereira há de ser, assim o dizem, um excelente tradutor de livros técnicos, ninguém lhe tira lá a sua cultura, bagagem literária, mesmo o calo de tradutor de giro editorial que já pega a frase ou o verso pelo puxador, e abre de uma língua à outra, faz o seu certificadíssimo contrabando de fronteiras, mas na conta da corrente de ar, de algo mais do que essa coisa de ouvir com um copo na parede, e ditar em simultâneo - porque nisso, não há dúvida, presta um bom serviço, e nem se perde demasiado (talvez não se fizesse a guerra, fosse a terceira mundial ou uma rixa nalgum bairro literário, por causa de um desacerto mais absurdo) -, mas disto não se faça a distância enorme de vir dizer que tem tantas unhas que faça agora, assim às três pancadas, o que ao longo das últimas décadas de tão poucos se aproveitou, essa recriação de Rimbaud que não fosse dar dele só a versão grunhida de um Rambo. Mas sim, admitamos, que não lhe vamos dar aulas de francês, apenas apanhar na curva essa mentalidade maliciosa de que trata com analfabetos, contando sempre mais do que um pouco com a desmemória e a desatenção dos outros. O que é preciso é contar com um terceiro aqui, alguém que demonstre realmente o gosto de vir comparar soluções, ver o que salta, passa e o que cai entre equações possíveis, mais imaginosas umas, vibrantes, mais do lado do embevecimento e, sim, de um gosto pela rebaldaria, esteja esta ao nível dos processos de sinestesia ou do gosto exaltante de tratar a língua como quem tomasse frutos de toda a latitude, os rasgasse e se enchesse, redigindo o relatório todo lambuzado, usando a cola no queixo para selar o envelope. Aqui também o Serras Pereira se poderá vir queixar da corrupção estilística e, quem sabe, até moral (pois sim, era uma questão de tempo até chegarmos ao que interessa: à imoralidade da crítica) também deste texto, mas do nosso lado persiste a desconfiança sobre este método de um tradutor que terá acorrentado nalgum sótão um pobre bardo que talvez até saiba umas coisas do beletrismo, mas que, com toda a afinação, não chegou a dar-se conta de que ser poeta não passa tanto por ser recrutador de consoantes, e nem alinhador de pelotões de quatro, cinco, seis, oito, dez versos. E que não é por nos vir com palavras menos lascadas pelo uso, um tantinho mais rebuscadas, não é com puxadinhos barrocos, ornamentos nem quinquilharias alinhadas, tapando outras faltas, nem com as senhas todas de almoço para se servir no palacete do Parnaso que alcança o Outro lá no seu avanço entre todas as estradas, esse que soube fundir no modelo antigo o desastre da sua intuição moderna, porque, no fim, para o que aqui nos traz, ou se tem ou não ouvido, chega-se lá ou fica-se de joelhos, numa lamacenta incompreensão da tremenda força que os versos originais mantêm, exactamente por se furtarem ao deslustre de aproximações repentistas. E se o profissionalismo de Serras Pereira podia ser uma boa arma, a ingenuidade nenhuma com que vem dizer que rejeitou a solução de galo gaulês porque as duas palavras têm o mesmo étimo, portanto, uma basta para travar a saia, que a outra logo lhe sairá debaixo, dizer-nos que mazelas da alma ou pecados é o mesmo..., ah pois, porque se numa hora a coisa é muito técnica, na outra dá para vir com caprichos de luminotécnico, e com gambiarras, assim como assim, a tradução já foi paga, mais um calhamaço para trás das costas, junto ao molhe, e fica também no currículo, Rimbaud: tumba!, mas aqui, e havendo interesse por estas coisas, o que contamos é que seja o leitor a dirimir, o que vier agora ou mais tarde, o que se arrelie com estas coisas, e compare versões pelo gosto de escrutar longe lá essas variações comovendo-se ou querelando umas nos braços das outras, essas que nos dizem quem sabe de música e quem vem para aí com botas, arrastando a lama dos juízos que, estando adequados, certos para outras ligas - se o que interessa a um escriba é fazer-se entender -, já não cabem quando a língua é atiçada toda ela, levantada aos ombros, como uma cobra imensa, e produz um saboroso desentendimento... E cem feias moscas podem encher-nos a boca, ser a estridência ou o apuro, obter-se com todas elas um maior rigor do que aquele alcançado por uma mosquinha da fruta literata, servil e meio morta, feliz de se refastelar no seu quinhão de bosta/ seca.
Mas vamos a exemplos. Eis o poema “Larme” na sua versão original:
Loin des oiseaux, des troupeaux, des villageoises,
Je buvais, accroupi dans quelque bruyère
Entourée de tendres bois de noisetiers,
Par un brouillard d'après-midi tiède et vert.
Que pouvais-je boire dans cette jeune Oise,
Ormeaux sans voix, gazon sans fleurs, ciel couvert.
Que tirais-je à la gourde de colocase?
Quelque liqueur d'or, fade et qui fait suer.
Tel, j'eusse été mauvaise enseigne d'auberge.
Puis l'orage changea le ciel, jusqu'au soir.
Ce furent des pays noirs, des lacs, des perches,
Des colonnades sous la nuit bleue, des gares.
L'eau des bois se perdait sur des sables vierges,
Le vent, du ciel, jetait des glaçons aux mares...
Or ! tel qu'un pêcheur d'or ou de coquillages,
Dire que je n'ai pas eu souci de boire!
E agora vejam-se, lado a lado, a versão de MSP e a versão de Maria Gabriela Llansol:
A ênfase dada por Rimbaud, e mantida por Llansol na segunda estrofe, ao que poderia beber, ao que há a extrair dessa garrafa, desaparece na tradução de MSP, que desde o começo abicha uma sintaxe onde as acções verbais são alteradas, castigando a clareza do verso. Repare-se logo no segundo verso: “que bebia eu, de joelhos, no chão dessa charneca”. Ao alterar a afirmação “eu beberricava agachado...” para uma interrogação, arrasta uma frase ao longo de duas estrofes sem a expressividade, o impacto do original, perde-se a límpida e surpreendente superfície, e ficam os enfeites numa vidraça de berlfurinheiro. Na segunda estrofe, o último verso e a ligação com o primeiro da terceira estrofe criam uma confusão de tal ordem... Oiçam-se os passos a esta trôpega centopeia: “Que licor de ouro de fazer suar// de tabuleta de taberna enfeite errado.” Compare-se com a tradução de Llansol (“eu seria uma má tabuleta de taberna”) e a pergunta que fica é: para onde foi o sujeito na tradução de MSP? Será que é o licor? Na leitura do profissionalíssimo tradutor, deve ser essa zurrapa de fazer suar de tabuleta de taberna enfeite errado... Que pessegada! E que tal para amostra do rastro que deixam os cascos de Serras Pereira ao lidar com “as partes mais sensíveis da matéria”? Será isto o suficiente? Não, temo bem que não chegue. Felizmente, MSP deu-nos muito por onde ir no que toca a meter pregos em partes talvez não tão sensíveis assim. Mas se teremos oportunidade de comparar outras elaborações com os aromas desta língua, vai ficando claro que, enquanto perfumista, Serras Pereira entende mais do álcool do que de outra coisa, e fica sempre a faltar esse golpe com que se tira uma flor de entre os escalrachos e silvados que lhe obstruíam o acesso. Para já, diante dessa amostra, deixemos vincado a grau em que se perde a força e até intelegibilidade dos versos por meio de uma renda sem sentido. Quase parece que em vez de traduzir, Serras Pereira revela maior perícia para aldrabar o leitor, colorindo um recanto, para que o resto passe escondido, obscurecido. De resto, cometemos antes uma injustiça em misturar a farinha de dois sacos, pois as traduções de João Moita mostram-se sempre mais cuidadosas, mais competentes, não desfeiam mesmo se só conseguem safar parcialmente os efeitos e sentido, e não embalam numa vertigem de “modernismo estilístico”, recurso que parece preceder a própria escrita, com MSP a ver-se livre da pontuação, quase ausente nas suas versões, e turvar as águas na incapacidade de nos dar uma ideia da sua real profundidade, assim, o seu Rambo mete-se pela selva numa fúria que dá para filme de acção, mas se mostra tosco no tocante a um ofício mais delicado, que exige sobretudo uma fabulosa paciência. Ele cria uma aparência de complexidade pela inversão dos pontos fortes dos versos, estiolando as notas, os arpejos do poema, os quais soam mais intensamente na tradução de Llansol.
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segunda-feira, dezembro 17, 2018
Paralelo W (2012-2018)
This is the way the world ends. Not with a bang mas com uns saldos bacanos.
Talvez a hora em que se vê ir o cortejo, estendendo a sombra ao caixão, não seja a mais certa para cuspir na direcção do morto, mas vamos fazer o quê?, esperar que se volvam os sete anos de Saudade sete (como é costume ler nos anúncios protocolares das viúvas), a isso não parece que possam ainda obrigar-nos, até porque de tão recatado velório se pode esperar que, ao passar em diferido, já com outra pompa, comova então quem chega sempre depois, para admirar-se com a avultadíssima despesa com flores, mai-los elogios fantasistas que dão a imagem não do que houve mas do que nalguma febre se sonhou. Afinal, passou-se o quê? Uns seis anos, e de quantas Ceutas jurou conquistar, não parece óbvio que o infante nem o bibe largou, e se ficou pela ronha, num brincar teimoso a fingir galhardia, num revolucionarismo circular, nuns deslumbramentos de aristocracia caquética, entre largas sonolências hibernais e, esgotados os paliativos, afunda-se o Paralelo W não propriamente numa liquidação total (salvam-se as pratas da casa), mas com uns grandes saldos, a terminar no próximo dia 22, e por costume já se vestem alguns do luto que, no trânsito das suas vidas, sequer chegam a despir, e trocam-se as memórias que por conta das varizes buscaram assento e puseram-se a efabular. Só eu, sacana confesso, que estive lá quando se assentaram as tábuas, se deu um sumiço no anterior recheio, não esperava que a baba persistisse, e com o mesmo visco, antes julgava que pudesse ser uma primeira mesa para outra razão, de maior fôlego e recreio, no espírito de porto para atracagens inúmeras, ventos e areias trocadas entre tripulações e viajantes, para ficarmos lendo contra o curso do rio, enquanto os corpos puxassem do mar a grande orca antepassada. Mas ficou-se tudo por um resumo bafiento das mais infaustas hipóteses que alguns supusemos, antro-buraco-capela, e no desajeitado ninho, equilibrando-se num tosco galho, apenas se viu como actuam os cucos... De tal modo que se tenho um testemunho a deixar da coisa é a Saudade de ir fazer o meu horário, na Rua dos Correeiros, com os turnos divididos entre alguns voluntários, para ter o Freitas a respirar no pescoço, logo ali, ainda antes de uma qualquer ordem sindical, vimos nascer a entidade patronal por meio de uma auto-eleição, e lembro-me desses passos funestos que se dão quando a liberdade e o resto é só mais da mesma porca condição: como ligava para lá a ver se estava a cumprir o horário, ensaiando para isso um despropósito qualquer. Não foi, de resto, tão diferente assim daquela vez, uns anos antes, em que se discutiu a criação de uma revista de crítica, éramos uns seis de roda da mesa, em Sintra, e outros mais, ainda sem recurso a procuração, perfariam a dúzia no que levávamos já de perspectivas e vontade comum. Tínhamos clara a falta que fazia uma publicação que arreasse feio nos que não sabem senão mover-se em bicos dos pés, à procura de poleiro, faltava um qualquer canhão onde o que vomitávamos tantas vezes juntos saísse numa exorcizada fúria, como projéctil, tomando inspiração nos criminosos, as unhas todas de fora, roídas algumas a admiráveis condenados, numa expressão crítica sem grandes contemplações, expondo a ferida, com tamanho nojo diante da cumplicidade dos silêncios proveitosos que dá o tom e serve de lei e ordem no nosso amesendado meio literário. Em suma: uma publicação combativa. Mas então o que se deu? Acertámos, nessa tarde, coordenadas, linhas de abastecimento, e inclusivamente o nome: Cão Celeste. Este sim, trazia-o na algibeira o Freitas, com o exemplo majestoso de Diógenes, o filósofo mendigo. Recebíamos, dias mais tarde, por email, um convite para participarmos na revista que havíamos planeado. Espantados uns enquanto outros já então eram só um encolher de ombros, éramos convocados pelos auto-proclamados directores da nova revista, Inês Dias e Manuel de Freitas. E como descrever a sensação de gratidão quando nos estenderam assim a mão para que subíssemos a bordo do nau corsária que idealizáramos, um projecto que, num desses passes de fatal magia, de "nosso" passara a "deles". Mas esse não foi senão um prenúncio da sanha arrebatadora de um casal que erguia os restantes pelo exemplo, e progressivamente já vinha autorizando-se a dispor das energias, contributos e iniciativas desses que, de amigos, haviam sido promovidos a “colaboradores”. Começou a soar uma música de grilhetas, aquele tão característico movimento em fila, pressentia-se o quadrupejar, enquanto se percebiam os contornos de um esquema feudal. Logo, e para não se perder o espírito de equipa, a tutela punha em prática, uma vez mais, o seu teatrinho de afectos e desafectos, e só faltou a caderneta com as estrelas em sinal das vantagens amistosas, os bons+ frente aos suficientes ou cês, e as circulares internas a descompor este ou este por se ter enchido de bocejos diante de alguma oração, assim se assenhoreavam, em poucas semanas, dos esforços comuns, exercendo vigilância, estabelecendo metas curriculares. Ou seja, estava ali criada uma amável tirania, com o enredo de desaguisados que liga as melhores famílias. Diferentes graus, ou degraus marcavam os círculos interiores e exteriores da seita, até se chegar ao topo do esquema piramidal... Quanto mais ignaros tanto mais puros, quanto mais puros mais poetas daquela santíssima ordem das carmelitas. Nessa ascendência era preciso passar pela complacência de uns, os que não vêem e os que, bartlebyanamente, preferem não, aqueles que até foram vendo mas que tinham o lume à temperatura certa para chocarem o seu ovo, e ainda aqueles que tudo vêem e nunca esperaram outra coisa ou sempre preferiram as coisas assim. Serviu-nos bem de lição. Nada de bom pode vir dos que condenam o mundo para se perdoarem ou distraírem de si mesmos. Mas é curioso ver o espírito de Diógenes celebrado por uma candeia que leva dentro um baile de mosquitos colocada diante do sol e que se gaba de ter feito em fanicos a escuridão.
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sexta-feira, novembro 30, 2018
Um acto solitário
Resposta ao texto de António Cabrita no Hoje Macau
"todo o acto premeditado ou todo o acto leviano tem a sua própria guilhotina"
António Maria Lisboa
Não me esqueço que “não é impunemente que se escrevem coisas”. Ainda fiz a escola básica, sei esse pouco que serve para o mais, e para ter cá comigo que a guerra não é só lá, onde a gente a quer fazer, pois que no dia em que damos com o nosso nome entre as baixas, e vimos com tantos membros ao peito pedir descanso, logo ela nos segue, como sei que isto de cultivar as flores do terrorismo é um modo de trazer o cheiro do inimigo na pele. Um dia, para se dar paz, um tipo faz uma cruzinha no coração e entrega o peito à última das balas, que é sua. De qualquer modo, no saldo das idas à guerra, conta mais, no fim, o gosto com que se leva do que aquele com que se dá. De cada golpe que se inspirou, é bom guardar o sabor, tê-lo nem que seja em pó, para tempero do ocasional pesadelo. E sobre o que António Cabrita ali diz espantará alguns, talvez, se disser que, com os anos que se passaram, com as releituras que fui fazendo de “A Morte Sem Mestre”, tendo a aproximar-me do que diz, e estou cada vez mais longe, mais perto de repudiar a convicção que me serviu de embalo para empunhar o cutelo com ganas de cortar a cabeça a uma tempestade. E aqui acho útil enxertar uma nota do Cilleruelo com que me deparei há uns dias, lembrando como os antigos diziam que duas coisas se vêem bem separadas ou porque uma se afasta muito ou porque as duas se afastam um pouco. No caso da sumária “execução” que assinei a propósito daquele livro de Herberto Helder, se ainda por ali acho sinais de afectação ou soberba, não seria honesto se não dissesse que hoje abro aquelas páginas e me apanho transfixado, sem defesas diante do apelo desolador desse livro, mas não tenho remorsos, não há arrependimento, não tenho sobre o meu juízo uma tão alta opinião que julgue necessário envergonhar-me do que escrevi, e, a este respeito, tenhamos pelo menos uma coisa clara, isto: ao escrever sobre o monstro AgáAgá o risco nunca deixou de estar do meu lado. Simplesmente, e naquela hora em que me pareceu que todos (ou quase) competiam por meio de interjeições, uivos e gritinhos orgásmicos, com notas de leitura que se liam como exclamações sucessivas, ao ver como se umas princesas e dianas já se entregavam a êxtases de possuídas, e ao invés de se falar de poesia, parecia que estávamos a assistir a sessões espíritas, vi o que me pareceu um ângulo, fui tomado de um certo furor e puxei o mais que pude pelo elástico da fisga. Não julgo que, com isto, pudesse fazer mais do que beliscar um gigante. E se não estive à altura de reconhecer o que havia de transtornante e novo e diferentemente belo naquele livro, alegra-me que a desconfiança do meu próprio juízo me tenha dado margem para levantar-me do meu próprio erro, e não refocilar nele como outros fazem com os seus, tornando-se estupidamente orgulhosos, monolíticos nas suas apreciações, tentando salvaguardar futuras inconsistências. E se me contestam por algumas (demasiadas?) vezes ter-me virado àqueles de quem fui em tempos próximo, o que direi é que espero dar-me espaço para me virar tantas mais vezes contra mim mesmo, desesperando quem quer que tenha por projecto deitar conta às contradições em que fui caindo dos muitos lados desta guerra em que me apresentei. E isto até ao dia em que não possa mais desertar, nem haja outros lados, outras estratégias, e nem tenha forças para me mover numa ofensiva de um só e contra todos. Até ao dia... “e só agora penso:/ porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?/ para não ver quão pouca luz tenho dentro?/ ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,/ agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?/ – cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e amargo espelho velho:/ e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo”... Dito isto, não deixa de me ser também grato ver o Cabrita, num passo, assumir a sua incapacidade para adiantar qualquer coisa sobre aquela obra, tendo tantas vezes tentado, e no passo seguinte, socorrer-se do meu erro para se furtar a um mero exercício paráfrase, ou aos rodeios com que espera camuflar o coxeio da sua “inteligência lacunar”. Aceito, assim, que na incapacidade de dar um só passo fora da sua exígua mortalidade, este bufão escrufuloso, com um tanto de leviano, e outro tanto (que a vida lhe ensinou entretanto) de cálculo, que o leva a admirar titãs numa hora, para na seguinte pôr os seus truques de prestidigitação ao serviço de uns patarocos muito carentes. Se nem lhe falta faro para topar com o ouro nos outros, é triste ver depois como se escacha para ali servindo chá de malvas a uns e umas, a tentar ver se, finalmente, o chamam para director do circo, em vez de ter de agitar no ar o chicote frente a umas esgalgadas feras. De resto, o que ainda tem de melhor são as citações e sentenças que tem arrecadadas na algibeira, e que esbanja a despropósito nas suas doutrinações. Assim, mesmo se é com alguma propriedade que se entristece das coisas que escrevi sobre “A Morte Sem Mestre”, logo vem com o argumento da idade (aquele mesmo a que recorreu Luís Miguel Queirós acusando-me de falta de magnificência). E se “nenhuma vaca é sagrada”, se “a demanda do Graal não autoriza a soberba, que Lancelot faça cruzada contra o rei Artur”, se a Picasso (e a Herberto), no caso de ser encarcerado, se admite que pintem ou escrevam com a própria merda, se a merda nas paredes for a do crítico aí já é imperdoável, mete nojo, porque nem cabe ao crítico sair da linha, dirigir-se a um imortal não com um imenso temor mas num ensaio de violência diante de alguém que, com tantas vidas à sua disposição, não corre o menor risco de ser eclipsado por um juízo precipitado, descabido, e, ainda para mais, tão petulante na arguição, tão “mesquinho”, diz Cabrita, na forma profundamente ingrata de se atirar ao leão. Como disse, o risco nunca se transferiu. Esteve sempre deste lado. O que acontece a alguém que sai aos gritos na direcção de um leão? O curioso é que o atrevimento bastou para que o bardo fosse aos arames, e trocasse as pilhas a algumas das suas luas. Isto sei, e tenho mais do que aquele talão que veio nos “Poemas Canhotos”, e que provavelmente nunca teria chegado aos prelos não tivesse a morte deixado os papéis a saque. Não, Herberto não ficou “contentíssimo”, e nem Cabrita se irá juntar a ele nesse ou noutro contentamento, agora ou mais tarde. Sei que andou pior que estragado, barafustou, convencido que se tinha arranjado uma cabala por conta da decisão de se mandar da Assírio & Alvim, em resultado de umas trapalhadas, tropelias, pelintrices que se hão de saber quando o João Pedro George entregar a biografia (isto contando que não acabem suprimindo as passagens mais inconvenientes)... HH caiu fora da Nau Catrineta a tempo, embora tenha sido só como mudar-se da marquise para a sala de estar, numa altura em que a Assírio era já só a gaveta perfumada da grande Papelaria Nacional. E se ainda não será aqui o lugar nem a hora de se desbobinar tudo, aproveito para contar como aqui há dois anos a viúva do bardo se esgadanhou toda, ali para as bandas de Campo de Ourique, na feira que a Casa do Nando e a Livraria Ler promovem, se pôs num berreiro quando deu com o “Ultimato” exposto numa das barracas, e foi com gritos de “assassino, assassino!”, dizendo que fui eu que lhe matei o marido... Coisa triste de se dizer. A mim, que não lá estava mas me vieram contar, deu-me umas febres de Ahab, mas bastou um trago da própria saliva para recuperar os sentidos, dar um tombo lúcido. Não tenho arpão para tais coisas. Ainda sei medir as distâncias, e se tenho artes e vou tirando o gozo de catar piolhos das barbas do mar, ainda não estou para essas larguezas, simplesmente tenho bem amarrada a noção de que a unanimidade não só é burra, mas paralisante, e bem vejo como estes que me acusam de uma “projecção algo heroica”, tendo exigido a Herberto que cumprisse a “via correcta” são afinal esses mais velhos, ajuizados, infinitamente gratos anciães que pretendem aplicar-me um correctivo (vá, respeitinho, vê se te portas bem que estás a tratar com gente ilustríssima), e me esclarecem sobre o que pode e não pode a crítica, sobre “a humildade de reconhecer os limites” e outras baboseiras dessas que se fazem valer das andas do bom senso, e que não pretendem, afinal, outra coisa do que conter os blasfemos, condenar os hereges, desencorajar os febris, em nome do bem geral nos pacíficos ambientes literários em que vivemos, neutralizando qualquer ameaça, seja do lado da produção seja da recepção, qualquer ensejo de sublevação ou destruição, terrorismo, e isto face ao podre reino que todos reconhecem mas tão poucos parecem dispostos a deixar que seja reduzido a cinzas. Daí este acto solitário em que persisto, e que pode não ser magnífico nem magnificente, pode ser mal-educado, às vezes mesquinho ou gratuito, conflituoso, e algumas vezes também excessivo, injusto, estúpido ou ridículo... Antes isso. O risco estará sempre mais deste lado.
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quinta-feira, novembro 29, 2018
Cadeia alimentar
“O tráfico de má-língua miúda era uma das ocupações desta gente. A maldade, que teria exigido um vigor desconhecido destes temperamentos enervados, não estava porém, tanto quanto pude julgar, na base da sua maledicência: mas sim o enfado, a futilidade, o instinto gregário, sem dúvida também o incómodo que sentiam ao avaliar, bem dentro de si, a profundidade da sua indiferença, e ao confessar a si próprios que, no mesmo momento em que afirmavam por conveniência convicções artísticas modernistas, o seu gosto espontâneo levava-os para o romance naturalista, para a poesia parnasiana e para a pintura pretensiosa.”
Olivier Rolin, “Porto-Sudão”
Quem cata luminescências devastadoras em páginas tão difíceis de virar, essas que são o trabalho esquizofrénico do poeta com quantos críticos e leitores pode dividi-lo dentro de si, desde a inspiração à espinhosa convicção de que um poema nunca está acabado, mas é simplesmente abandonado (Leonard Cohen), e tudo para mandar abaixo, numa linha, esse adversário admirável, o leitor ideal... confessará que anda nos versos como garimpeiro, buscando a dose robusta para que lhe marque o sangue por gerações, atrás dessas descobertas urdidas na gramática e que parecem afectar-nos o ADN, visões inexplicáveis, tumultuosas num segundo e logo depois calmantes como aquela “feérica praia muito limpa/ coberta de pancada e água escura”. Quem anda nisto não o faz por menos, e nos melhores momentos goza a condição de um drogadito. Vai aos livros com os olhos revirando-se loucos nas órbitas. O leitor de versos cheira a ver se encontra quebras na prosa, rugas de sentido pavoroso que suspendam o curso do mundo; busca essas resiliências como quem traz uma coceira entre a pele e a consciência, fundo. De tudo o que coça a sua sarna, alivia-a e logo a intensifica mais, porque o seu culto é feito em nome de um desequilíbrio fundamental. E o que há de mais atroador e encadeante dos dois lados de um verso é a intimidade entre um predador e a sua presa, no momento em que, tendo-se-lhe lançado à jugular, a sufoca, e aguarda inebriado enquanto a pulsação do outro vai descendo degraus até que se extinga. Ao passo que a presa deixa o terror e quase agradece esse firme aperto, o nó do momento em que o peso da carne se desfaz na boca do outro, e há como uma libertação, uma entrega. Porque na derrota se obtém uma espécie de triunfo.
Daqui partamos para uma constatação dessas bem redondas, uma ampla mesa em volta da qual possamos assumir os nossos lugares: “Cada época tem os seus mártires, os seus santos, os seus heróis, e os seus palhaços”. Não é minha a frase e, por pirraça, não vos direi onde fui buscá-la. Dando seguimento ao que escrevi sobre o passo em falso da Golgona, e sem margem para me compadecer de alguém que nem o embate aceita, antes prefere fazer de morto, deixar que passe, que passem a outra coisa, o que mais custa é notar como tudo se tornou apenas desonroso – no campo literário só resta o sangue muito frio de umas espécies capazes de largar a pele e seguir como se nada fosse. Nisto tudo, indiferente para quem parece chegar aos versos como se não lhes restasse outra coisa que servirem um último palco para um último e deplorável protagonismo – dizendo piadas, traficando sarcasmos, entre quem não hesita em “situar-se no território da impostura”, sorrindo largamente para mostrar todos os dentes podres da época –, interessa-me menos discutir o acto de predação da poeta que desenhou um pequeno cadafalso e ofereceu um prémio pela própria cabeça ao dar ao livro o título que a incriminaria, e mais me interessa é o segundo acto de predação, desta vez o desse que, de repente, se apanhou com uma arma fumegante, e ao invés de oferecer uma bordoada bem dada porque merecida, logo esticou a corda, e provou uma vez mais o seu rudimentar talento para chafurdar na lama. O Fialho que nos coube é esta personagem-tipo, com “meio-dedo de crista” e as naturais “presunções de intelecto remexido”. E não há nada como topar a ansiedade com que se abalança sobre a presa e, não contente com meter-lhe os dentinhos, reclamar uma bela refeição, cai no exagero e logo parte os dentes. Senão veja-se como, ao sobrepor o poema original de Jorge Calvetti e a glosa da Golgona, não contente, ainda aproveita para ir buscar o exemplo de Tony Carreira, para nos dizer que, “por muito menos”, este foi achincalhado recentemente. Por muito menos, diz-nos o palonço, o cantor que vendeu dezenas, talvez centenas de milhares de discos, fazendo uma fortunaça com as canções de outros, depois de algumas mudanças no arranjo musical e de as verter para português, e, por muito menos do que fez a Golgona, foi obrigado a pagar uma indemnização. O que o Tony Carreira fez é nada ao pé do que fez ela ao surripiar o contorno, ritmo e gosto de um poema daquele argentino. Veredicto: queime-se a gaja. Ora, este empertigado professor de moral de um liceu que mantém arrestado nalgum canto daquela cuca, pastor de um beatério de tristes hienas, passa os dias a bulir elogios fúnebres para uns autores de segunda ainda nem mortos, e há-de arrastar-se até ao último dos seus dias numa estéril agitação, à boleia dos "estímulos" que saca a cada um dos tropeços, percalços e mesmo sacanices daqueles que, por assombro diante da rosa, escondem a troca que fizeram, se descartam da honra nesse rastro irremediável de quem se deixou enlouquecer pela luz que, em torno do outro, nos deu uma silhueta de nós próprios, como uma pele mais viva, debaixo daquela que levamos morta. Trata-se de uma dessas raras ocasiões em que não se sabe ao certo quem é predador e quem é presa, porque os dois se confundem, não num combate mas, entre perseguição e fuga, numa espécie de dança entre a vida e a morte.
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quarta-feira, novembro 28, 2018
A bandida e a praga de chatos
Longe de mim vir a terreiro para defender seja quem for de acusações na sequência de assombrosas gatunagens, glosas que tiram o contorno, o ritmo, versos tal e qual, e em que se sonega o autor moral do crime que vem a praticar-se, sacando-lhe a intenção numa apropriação e reescrita, e, pior, copiando o arranjo dentário, mandando fazer uma dentadura para morder o braço do leitor como faria o outro, longe, longe de mim (ah, o que eu sempre quis começar um texto com esta expressão enfatuada), mas se não deixo de compreender a carga de suspeita que agora se lança sobre a obra da Golgona, sendo de admitir que haja por ali outras incidências em que, mais do que sacar um verso, um impulso, a direcção de um vento, haja toda uma dívida que começa na arquitectura e desce até aos pormenores, sendo mais que tudo condenável o coroar-se com o verso de um autor obscuro, um poeta desconhecido mesmo dos mais informados leitores portugueses de poesia – o que exclui a ideia de uma intertextualidade, pois se espoliou o outro, de uma forma que nem se pode apreciar (e convém que haja alguma violência no furto, até para causar alarme social) –, não gosto das filinhas de patarecos, estas que formam pelas bandas onde raramente se produz alguma coisa que cause o menor abalo, tenho mais vontade é de pedir ao justiceireco de capa e espada das Caldas que, além do belíssimo serviço que prestou ao tropeçar no poema original, expondo a glosa abusadora, nos fizesse também ele o favor de ir roubar mais coisas lá fora, de forma mais ou menos assumida, mas que ainda mostrasse o talento para ensaiar uma releitura, desviando, maltratando, traduzindo mal, mantendo os ossos mas deitando-lhe outra disposição ao nível da carne, saindo de uma batalha, de um drama fecundo, e levando a corneta mesmo que para uma mera insolência de salão, uma tão calculada pose de miúda reguila, de língua de fora, pois que entre gente que mal se assina, mais azucrina, deixa o cão na varanda do poema, a ladrar e esfalfar a paciência da vizinhança, vem-me esta virgem pestilenta, em que ninguém pega, queixar-se das indecências daquela poeta 'dissoluta', que pelo menos faz a cama onde e com quem quer. Diz ele que, por vezes, lhe ocorre “a possibilidade de alguém estar no outro lado do mundo a ler um texto que me saiu do pêlo, apropriar-se dele, mudá-lo para a sua língua, publicá-lo, ser felicitado pelo feito, etc.”… Tem graça porque isto é daquelas coisas que ocorrem justamente àqueles que só do outro lado do mundo (mas que mundo?) os imaginamos a serem felicitados por alguma das coisas que publicaram cá, vendo assim alguma justiça ser-lhes feita, num efeito a la Cyrano de Bergerac, já que neste lado do mundo, com todo o génio, todo o seu impoluto talento, as felicitações são essas lambidelas trocadas entre a rataria que não precisa de copiar nada pois só reproduz o génio imundo e descerebrado que deflagra e se dissolve ao ritmo da mais banal consciência e sensibilidade das coisas. Assim, sem defender a Golgona, assumindo que foi mais longe do que seria aceitável na sua liberdade de pilhar horizontes menos à mão, e que isso acontece por privar-nos das coordenadas que situariam o seu poema como uma bela glosa, também adianto que prefiro chegar a um poeta em segunda mão, mas vivo, respirando noutra voz, do que esbarrar nestas antas que, de tanto zurrar, não passam de barreiras opacas, arame farpado, e que, sem brilho nenhum, sempre que não reproduzem ou traduzem fielmente, informam sem deturpar ou estrangular com açúcar e afectos, apenas nos desgastam, estragam, cortam o fio, e, no geral, tiram à poesia, tiram à literatura, e vão dar a esse imparável curso desgostoso, esse rio de mijo e dejectos. Como leitor ainda prefiro ser enganado, ludibriado, a ser aborrecido. Se aquela ainda pode exigir de nós o perdão, já esta retira-nos simplesmente o desejo de viver. E o que me dá mais pena é que tenhamos tantos guardas prisionais, freirinhas e padrecas vendendo a redenção de joelhos sobre um altar qualquer, e isto para tão poucos (ou tão pouco empolgantes) ladrões.
Fala um soldado da conquista (Jorge Calvetti, tradução de Henrique Manuel Bento Fialho)
Vim porque me pagavam
e eu queria comprar espadas e mulheres.
Vim porque me falaram de montanhas resplandecentes
como um entardecer no mar
e como o ouro com que haveria de me vestir quando regressasse.
Mas só encontrei flechas envenenadas,
humidade e mosquitos.
Conheci o terror, noites sigilosas,
índios vestidos com sua beleza sinistra,
a força de uma terra que nos dobrou
como a sede aos animais,
e a movediça mortalha da selva.»
«Alguém falou de honra a bordo.
A bordo
falavam e rezavam com lentas mãos sobre livros dourados.
nessas mãos se apoiaram o grito e o desespero;
com essas mãos escavaram a terra que nos iria cobrir.
Alguém falou de «história» e de «futuro»;
eu apenas penso no que perdi.
Creio que tudo é igual,
as mentiras que nos disseram e as verdades que encontrámos.
Haverá sempre loucos que viverão de palavras,
e sempre o mundo misturará com a mesma indiferença
a vida, que cresce no esquecimento,
a glória, que se arrasta,
e a laboriosa cobiça da morte.
Vim porque me pagavam (Golgona Anghel)
VIM PORQUE ME PAGAVAM,
e eu queria comprar o futuro a prestações.
Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos de Páscoa e pulseiras
de lata.
A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quanto mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.
Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.
Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.
Alguém se atreve ainda a falar de posteridade ?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.
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segunda-feira, novembro 19, 2018
Poesia e combate
Não sei se a história tem fundo verdadeiro ou se é zunzum das moscas que vivem de volta das lendas, mas para o caso tanto faz, visto que é só um fósforo para largar fogo nisto. Ora, ouvi ou li algures que o entusiasmo do Bruce Lee com as artes marciais foi uma descarga dessas que nos fritam o juízo, encantou-se da ideia de resolver a vida ao estalo, e lá foi ele ser gauche na vida… Impaciente, não trepou um muro ou alguma árvore só para espreitar as aulas nalgum dojo, mas saltou fora da infância em andamento, estaria na flor chavala da vida e arranjou-se com um parque de estacionamento movimentado, uma praça qualquer onde a miudagem reunia, elas a ver se descosiam os olhos aos rapazes, eles a desenharem aquele exagerado jeito macho, a falar grosso, escarrar fininho entre os dentes, e ensaiar uns golpes nas fuças do vento. O Bruce nem molhou o pé a ver a temperatura. Foi logo numas grosserias, a dizer onde lhes tinha visto as mães, coisas dessas feitas para desaustinar, insultos dos de fazer um santo levantar os punhos, e tudo para ganhar logo ali um adversário. Nem ia pelos mais franganitos, mas apontava era aos matulões que lhe embraivam a inspiração. Parece que andou ainda uma temporada valente nisso. Lá saía cedo, roto, com a cara nuns desarranjos expressionistas, e da rua fazia uma arena, armando zaragatas, a enfiar uns, comer outros, sentir as partes frágeis da matéria no balanço face às outras. Enrijeceu assim e, já sem cerimónias com a violência, lá foi depois aparando a coisa, deixando o fervor dessas sessões de desancagem pela disciplina dos golpes e traumas de que o adversário recebe notificação ao acordar no hospital.
Este preâmbulo enfarruscado é para ganhar balanço e chegar ao ponto que aqui nos interessa. E aqui, depois do Bruce Lee, entra toda airosa, com a maior das naturalidades a Maria Gabriela Llansol, para nos lembrar que “se a maioria dos poetas visse a poesia como drama e combate, não fazia poesia”. E ainda nos adiantou, numa demagogia lá com os da seita, posteriormente lavrada a escrito, que está bom de ver como a “noção habitual de poético é terrível, porque é sentimental”. Anda aí uma gente nuns agastes líricos, numas enfatuações de tal ordem, e para quê? Pois, para muito pouco, que vai-se a ver e, tirando uns versinhos sem querer, que este ano saem a este, no outro àquele, muito pouco mais faz luzir a lusa língua. Até lhe dá mais para trazer os cantos torcidos, com uma vontade de rir desta tristeza saloia que não ofende mundo nenhum. Diz-se muito para aí que andam negros os tempos, tudo ameaça trajar de viúva, volta e meia os versos ensaiam umas virgindades muito pudicas, desfalece-se, soltam-se uns ais, mas, no geral, segue a mesma cega-rega, e acabamos no de sempre: “toda essa merda douta que nos cobre há séculos cagada pelos nossos escravos”. Nem a Oeste, nem a Leste, nada de novo. A Sul ainda andam a tentar resolver com baldes o naufrágio, a Norte há sinais, certos, esperançosos, curtos, cronometrados. Coimbra foi pelo ralo e mal se ouviu um arroto. Lisboa é esta charanga que não aquece nem arrefece. Dá a sensação que se acabasse a cerveja, faltasse o vinho e o resto ficasse mais caro, a produção poética, os lançamentos, as leituras públicas, toda essa correria acabava-se a jogar canasta no mais ralo jardim. Antes o Cesariny que, chegando ao café, pedia o seu leitinho. Depois ia-se a ver a rota do barco dele, e nenhuma, fosse com as mãos no bidé, fosse com a cabeça no mar, levava mais fulgor ébrio que a dele. Poesia como drama, combate? Vira a boca para lá! Isto anda tudo mais feliz a coçar a falta dos tomates, ou nessas galhardias de grandes cavaleiros da ordem ética, pelas costas é tudo uns São Jorges a dar morte a terríveis dragões. Se o verso arreganha a dentuça, logo as damas se enchem de uns ares de repulsa, só a ideia é já prepostera, um absurdo.
E lembrei-me disto diante dos tremeliques a que se deu um dos nossos mais distintos tarecos de salão, o emérito Luís Quintais, que aqui há umas horas vi passar numa filinha de carpideiras por um poeta morto. E não interessa vir agora desassossegar o espírito nem a memória do homem, mas o cadáver fresco logo serviu ao outro para vir implicar com “eles” – sim, e se não sabem, eu dou-vos a notícia: anda por aí um bando, um bildeberg da poesia que tem mão nisto tudo. Também se reúnem em Cascais para decidir quem é sobrevalorizado e quem é apagado, silenciado, atirado à fossa sem nenhuma consideração. Pois. E então veio este comedor de madalenas largar a sua lagrimita no chá pelo poeta que a morte levou sem cerimónias, quando andam para aí outros tão lembrados, exaltados, e assim. Mas se lhe pedi que concretizasse, que nos desse os nomes, nem se escusou, fingiu que não tinha indicador, e pôs-se como fazem os miúdos a esticar o médio. Olha que bem, Luisinho. Depois ainda se lembrou, a modos de insulto, de chamar-me “fascista”. E é isto o que se pode esperar das raivinhas que mais cedo coram do que esticam a língua, fazem dela uma forca. Não estava à espera de um insulto camiliano (“ilustre paspalhão” servia, “pasmo dos orbes, nata da estupidez, álcool dos parvos” – disto, honrado, até eu bebia), muito menos cenas de tiro, cabeças rachadas, convites para duelos, mas “fascista”! Porra, ó Quintais, não se arranja melhor? É o que temos para nosso contentamento, e de um dos expoentes da poesia portuguesa deste século XXI! (Sim, é o que dizem, e eu só não acredito porque não me regalo com fuminhos de sacristia.) Prefiro tratá-lo mesmo pelo emplastro dos versos que sei que é, a arrastar aquele luto por ter morto uma formiga quando tinha quatro anos. Não é nenhum Bruce Lee. Nem dá para lhe chamar um idiota piramidal, mas só um nostradamus de tenda, a profetizar gripes das aves e pragas de mosquitos em Alcoitão. Este, que no seu trote raros anos deixa em branco, não deixa às gavetas nem uns ossos dos tempos de franguinho, até nisso põe laço, nesse pobre mundo com dois metros em redondo, lá reúne os gansos e toca de os encher de antibióticos. Mas depois, não lhe bastando o tijolo na Assírio mailas sucessivas adendas, ainda se exaspera com os críticos, que diz que numa hora não existem e na outra são simplesmente imprestáveis. Aqui há uns anos teve um ensarilhamento de cornos até com uma certa piada. Mal agradecido com o José Mário, puxou-lhe as orelhas depois deste só lhe ter servido um daqueles filetezinhos de prosa com vista para um céu de quatro estrelas meio despegadas. Veio a arraial por uma vez, rasgou a camisa, lançou a honra que o outro nunca teve na lama, ainda o acusou de não fazer mais nas críticas que chegar um espelhinho de bolso às fuças dos poetas, parafraseando-lhes os versos em lugar de fazer crítica, e contando com a vaidade deles para não ser chamado à liça pela patranha, por picar o ponto e tugir umas apreciações desmioladas. Como competia ao críticoxo, logo veio pedir mil desculpas, que lhe faltava o espaço, que o Balsemão não deixava, que só tinha as migalhas que caiam da mesa, que nessa semana tinha a senzala em obras… O de sempre. É curioso como os nossos literatos congeminaram em laboratório este galináceo para lhes fazer o jeitinho ao fim-de-semana, mas depois se queixam, de tempos a tempos apertam com ele; uns beliscões, deixam-no a côdea e água, até sacarem a crítica com todas as estrelas a que têm direito. Do que me lembro, o Quintais veio todo galifão, até mandou que o Zé metesse as estrelas no cu. E aí parece-me que esteve bem, pois se foi de lá que elas saíram era justo que para lá voltassem. Suspeito é que bastava que tivessem sido as cinco, e se em vez de um filete fosse uma página inteira, já o Zé era um crítico honradíssimo, a fazer das tripas coração, bater-se com o patronato, “eles” todos, em nome dos nossos Quixotes versilibristas. E já que o excurso aqui nos trouxe, merece também a pena lembrar de outra das vezes em que o Zé andou aí a deitar lágrimas por um olho negro, quando também o Bruno Vieira Amaral, seu superior, mais graduado na ordem escrava dos literatuços, enrolou o jornal e lhe apertou o focinho por uma crítica que não trazia a camisa dentro das calças, nem botões de punho ou gravata na hora de se lhe dirigir. Mais uma vez provou-se que é preciso chegar-lhes a roupa ao pêlo e dar indicações muito claras se se quer a coisa bem feita. Desde aí, dois e dois, quando se contam estrelas, dá cinco. Mas nem assim se satisfazem. Nunca foi bonito repeti-lo, mas sempre foi notório que em Portugal a vida literária se ficou pelo projecto... À última a malta diz que não pode, dá-lhes para a indisposição, são achacados por todo o tipo de maleitas, ficam esquisitos, não vão se aquele for, se for a um domingo não dá porque o clube joga, e, depois de ajustes, o que fica é mesmo uma coisa, uma gente que escreve, e uma mais desfalcada gente que diz que a lê. E no que toca aos versos, porque o primeiro é dado pelos deuses, não faltam os anjinhos para prosseguir a obra. Babam-se. Dá nisto, esta trupe que, ou anda em excursão pelo país ou mesmo, atrevidamente, lá fora (e por conta de uns bordados!) ou temos o caldo entornado. Aborrecem-se e lá volta a conversa de que não há crítica nos jornais que não compram, nesses que mesmo se lêem é às escondidas, e por mera “curiosidade mórbida”. Uma gente sem urgência de espécie nenhuma, depois tão recomplicada, tão bielo cosida, tão ininteligível... Quantos críticos seriam precisos para saciar tanto poeta tão satisfeito consigo? Diz o Quintais que andam para aí tantos tão sobrevalorizados pela crítica... E era tão bom se nos pudesse dizer quais. Mas depois também me lembro da vez em que o vi tomar para si as funções do crítico, como esteve lá na apresentação de uma dessas coqueluches que hoje são titulares nas guadalajaras enquanto ele fica a aquecer o banco. Ainda me lembro como a propósito da Fonseca Santos ele era Melville para aqui, Whitman para ali, uns atrás dos outros, fez a chamada, correu os círculos infernais, e não faltou nenhum dos preferidos do diabo, tudo invocado em nome daquela coisinha doce, e na sala inteira não houve quem não sorrisse, se indispusesse ou jogasse aos pés da miúda que, afinal, estava ali sorrindo-se, mas vestia o Camões como se fosse Prada. Isto tudo tem uma graça danada. E triste mesmo é ver como ninguém se ri. Nem sabem como (...ter lavados e muitos dentes brancos à mostra). Em vez de corridas medievais, grandes bulhas, e uns loucos a ameaçar moinhos de todo o tamanho, encher à fuça aos gigantes, andamos nisto, muito contristados porque todos faltam à chamada (faltas tu, faltas tu...)... e a vida literária são restos, é o que a deixam ser. Esta vil tristeza. Muito séria, muito convencida da sua importância. O lado suculento fica de fora, depois só resta para distracção ver passar o cortejo fúnebre em honra de uma coisa que nem chegou a ser.
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sábado, outubro 27, 2018
Barricadas de feira
Il y a la culture qui est de la règle, il ya l’exception qui est de l’art. (...) Il est de la règle que vouloir la mort de l’exception.
Jean-Luc Godard
Reparem na citação, firme, aí à cabeça, como um chapéu de coco com o furo de uma bala e um buraquinho fumegante, chapéu que se levanta à passagem dos curiosos num gesto malandro de cumprimento. Fanei-a de um texto todo abotoadinho, desses que querem fugir da academia mas que, com aquela ânsia toda, se trancam na despensa. Já lá iremos. Por agora, fixemo-nos nisto: está a decorrer este fim-de-semana a primeira edição da Feira Gráfica, e a coisa diz que é um “evento” e que “procura juntar no espaço do Mercado de Santa Clara, em Lisboa, várias iniciativas micro-editoriais, de diferentes pontos do país, ligadas ao livro (de literatura, ilustração, fotografia) mas também a outros universos da tão vibrante intervenção criativa contemporânea constituídos por revistas/jornais culturais e/ou publicações de autor como as fanzines ou impressões de diverso tipo (em serigrafia, gravura, risografia, etc.)”. É a costumeira sufixação desses modos de resistência prezáveis e que se compensam pavoneando-se como excepção enquanto vão faltando os meios para uma verdadeira projecção cultural. É-nos lembrado que, além da “venda propriamente dita das publicações”, não falta também um programa com lançamentos, conversas, concertos... O de sempre. "E se são muitos – como lembrava Emanuel Cameira, um dos organizadores – os que actualmente fazem do livro um comércio igual aos outros”, depois outros há que se movem à margem disso, até nos "antípodas”, como foi o caso da “heterodoxa & etc”, que foi um modo de “poesia em acto, ‘nas escassas poças de vida que restam’ (Epstein, 1963: 63).” E se Cameira exaltava o exemplo do “abnegado editor” que Vitor Silva Tavares foi, impelido “pela ética missão de editar o livro necessário”, vale a pena também lembrar quando, faz já mais de duas décadas, VST se atreveu a lançar uma moeda à fonte, desejando em voz alta: “estou à espera que a rapaziada nova ponha cá fora algo com o mesmo tipo de vontade de intervenção crítica que existiu na & etc. As condições actuais de treva cultural são mais do que propícias para isso”. E nisto, deve poder dizer-se que estamos todos à espera, e alguns mesmo inquietos, empenhados nisso e actuantes. Mas depois, paralela à noção da cultura de massas como um “instrumento de repressão e não de sublimação”, pode falar-se também de uma torpe tropa enflorada, uns seguranças da intervenção criativa independente que, em nome da pureza da causa, pedem apoios públicos, e logo, não apenas fazem a festa como, pela via da exclusão, determinam quem merece estar e quem não, tornando-se os carrascos de certos ecos. E passo a explicar: Ora, este senhor Cameira determinou que havia espaço para tudo o que fosse projecto editorial desnalgado, menos, é claro, para nós. Na hora em que se determinou que um dos livreiros representaria várias editoras, entre elas a Língua Morta, aí houve um pólen que se instalou nas narinas do rapaz tão evidentemente empenhado em fazer a sua parte para aplicar uns furos na “indústria da cultura”, e logo torceu o nariz. Explicou que infelizmente já eram demais as editoras. Que para as outras ainda dava, mas para esta não. É a tão vibrante intervenção criativa contemporânea que, naturalmente, abalroou a Língua Morta, atirando-a pela borda fora. Um azar do caraças foi o que tivemos. Ou isso ou então já lá estava uma bala com o nosso nome. Pois, é que esse é o outro lado de que se fala menos nestas coisas, o modo como entre a piolharia dos literatiços, os bosquejadores e ratos de pincel na mão, os fazedores de livrinhos, panfletos, tretas, a horda que se entretem entre o roer ou não roer a corda (eis a questão!), damos nós com uma gente muito arregaçada das mangas e que vai dos braços ao juízo, e que se lembra de vir com exclusões a brincar aos Estalines, aos apagamentos sumários. Penalizar todo um catálogo, uma série de autores, em nome de quê? Que mesquinhez... E eu ainda m'espanto, depois dá-me para rir de tudo. Se, por um lado, arreganham muito a dentuça ao grande capital e aos grupos virados para o homem-massa, depois onde vêm dar as mordidas é naqueles que não fazem a Oh-Posição nem marcham como manda o livro de regras deles. E então logo se vê como concebem o esquema contra-cultura como uma festinha de anos: só convido quem eu quero, quem faz anos sou eu! E façam, muitos anos, e que se enterrem de tanto auto-agraciamento, mas que se lembrem de vir boicotar uma editora, excluir uma entre tantas? (A lista é tão longa que seria um disparate reproduzi-la aqui.) E não é que não nos agrade, como noutra ocasião já fizemos notar, o vermo-nos excluídos à partida do rol de distintos marginais. Nem temos muito a coisa de ir às festas de anos, mas é só uma certa apreensão e lástima que nos causa ver que, ao invés da crítica, do ataque directo, vem este alfinete debaixo das mesas, a parolice persecutória de certos actores independentes embiocados e que não resistem a exercer o seu pequeno poder burocrático. Até nos honra sermos lançados borda fora e ficarmos logo à parte desse grupelho de “ratazanas de nau engalanada”. Mas a questão é: para quê tais honrarias? Para quê estas barricadas de feira, estes que se pintam como índios mas, depois, actuam como algozes, e de libertários só têm o brinco e a pose. Uma vez mais, reafirmamos que é uma alegria não ter já perna para os tantos que se atiram a ela a tentar meter o dentinho, mas sempre seria bom ouvir explicações do senhor Emanuel Cameira, que a última vez que se nos dirigiu foi para perguntar se não lhe dispensávamos uns livros por nós editados porque ele estava mal de massas (e não estamos todos?). Não lhe respondemos. Talvez tenha isso sido o bastante para provocar estas atenções especiais. Seria bom receber algum eco, mesmo que uma tapona bem dada aqui nestas nossas fuças. Infelizmente, já começamos a duvidar de que desta rapaziada nova venha mais que a snobeira do seu silêncio, do: “não me rebaixo ao nível deles”. Ai esse Céu na Terra, com toda a sua presunção e água benta, está-se a transformar numa terrível praga e numa condenação à morte da crítica, que é coisa que a esta nova geração de “independentes” deve parecer muito démodé. Mas aqui fica o desafio: será que é desta que vem de Cameira, insigne editor das “Postas de Pescada”, uma lição aqui para a borralheira? Pode ser que seja desta, já que das outras tem sido sempre difícil assacar-lhe uma proposição destemida que não balance entre as aspas ou fique a roçar-se até à indistinção nas palavras de outros, lavradas com outro alcance (é o caso do texto a que pertence a citação que vem à cabeça deste e que integra o livro-homenagem “& etc. Uma editora no subterrâneo”, ed. Letra Livre). No fundo, e para alguém que nos deixa entrever o seu quarto de adolescente forrado de posters com as fuças heróicas de astutos sacanas e sumidades da crítica cultural, e também das frases destacadas ao molde de slogans, é curioso achá-lo depois de gatas, a avançar timidamente, no meio da gente, misturando tudo, numa confusão tal que, no fim, nada se tem de pé.
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quinta-feira, outubro 25, 2018
Não deixa de ser recompensador ir catando amiúde esses reflexos desavindos que de nós se vão separando, e sacam papéis de vilão nas novelas de uma só nota e samba nenhum que servem de sustento às lamúrias suplicantes do género de descerebrado que tem a candura de vir partilhar como aos quarenta chegou ao texto crítico de Julien Gracq, "A Literatura no Estômago", e como, perante tão poderosa denúncia da podridão do meio literário francês (ainda assim um exuberante zoo quando comparado com a gaiola de rolas e canários atafulhados no que é o nosso), depois de lidas as primeiras páginas, o comentário lacónico que este monumento incendiário lhe provoca é uma pedrita lançada a esta janela. É assim que o Domingos, com aquele português de cabeleireira, aceita o close-up para levantar das ancas as mãos e deitá-las à cara, exclamando ah, então não me queres ver que o sabujo do i me veio beber inspiração para a sua sanha aqui ao Gracq! Mas se me medalha notando o eco deste autor, logo adianta que este se esfalfa em modo de cacarejo. Seria até surpreendente que se desse conta de quanto tudo o que o ultrapassa, defensivamente, é entendido na escala de um som primário, e isto para não ofender tão secundária consciência das coisas. Seja como for, é a homenagem possível, e uma que aceito em nome do furor com que cheguei, algures pelos vinte, ao dito texto, a que espero voltar algumas vezes mais, sendo sempre um exercício para esticar as pernas, espreitar um catálogo mais vasto do que o nosso pobre chiqueiro, uma terra média onde os orcs ainda obrigam a uma certa dose de heroísmo da parte de quem se lhes opõe, ao contrário dos nossos trogloditas acobardados, grunhindo um desconforto sem mais argumentos do que aquela irritação diante da vilania do personagem que mais faz por estragar a grande festa que, com invejoso comedimento, também eles olham de lado. Subjacente a tais acessos de urticária, está a pretensão destas lânguidas penas de publicarem fosse o que fosse, esperando que todo o juízo crítico se suspendesse para que a sopa dos pobres-egos pudesse instalar-se no centro do espaço literário. Sirva a ocasião para relembrar as palavras de Ernesto Sampaio (o tradutor daquele panfleto) quando diz que para Gracq "não há razão de ser para a literatura congelada e cinzenta: o escritor, seguindo o terrível conselho de Céline, deve calar-se 'quando já não tem em si música suficiente para fazer dançar a vida...'." Ora, basta ir descendo pelas entradas daquele blogue para nos darmos conta do quanto este se parece com a arca frigorífica de um triste salsicheiro que, ao sangue pisado dos seus dias, junta uma emulsão de carnes de animais de outro porte e dignidade, fazendo passar por vagido existencial o seu estertor com veleidades estéticas.
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sexta-feira, outubro 12, 2018
Boas notícias para a consolidação
Baita revolução no meio editorial lusófono: Carlos Mexia substitui Pedro Vaz Marques na Granta. Vaz Mexido deixa a revista ao fim de dez edições portuguesas mais duas a saltar à corda atlântica. Marquês de Mexia assume que tem uns grandes sapatos que encher, mas conta com a amizade de Carlos Mexiques para orientá-lo. O colaborador do Expresso será substituído pelo crítico literário da TSF, e este vai dedicar-se mais à Rádio, mas partilhando o quarto de banho com o outro na TVI24, onde continuarão a reunir-se aos primos para a emissão televisiva ao fim-de-semana. Entretanto, a revista passa a ser bicéfala: um editor em Portugal e outro no Brasil. O objectivo é, até 2020 provar, sem margem para dúvidas, que conseguiu tornar-se acéfala. Chamada a comentar, a endogamia felicitou os seus rebentos por mais esta genial troca de cadeiras. Carlos Já-Não-Mexe despediu-se com um agradecimento profundo e comovido, abraçando-se, certo de que o talento, entusiasmo e dedicação de toda a equipa da Acetona-da-china são a garantia de que a Granta será cada vez melhor.
Quanto a este post, ficará para aqui estilo road kill, com um número de likes como flores que se deitam sobre o contorno a giz de um morto, um número igual à quantidade de imbecis que se estão nas tintas para publicar com a Bulhosa, dizendo adeus à hipótese de verem um título na colecção de poesia ou um conto na Granta, e de um dia serem convidados para os jantares da Bulhosa, que, depois de confirmar os bons modos à mesa, decidirá se vos põe na rampa para terem vendas bárbaras, pegando de empurrão com as recensões pré-escritas que enchem a família de orgulho lá no Ípsilon.
Ahh, e entretanto um leitor lembrou que Isabel Lucas acaba de substituir Pepetela no júri do prémio Leya. Acumulando com o prémio Oceanos, é mais uma boa notícia para a consolidação familiar. E agora é fazer figas para que Mexia, já proposto por Maria João Cantinho e António Carlos Cortez, consiga ser eleito para presidente do PEN Club. Com sorte, lá mais para o final do ano, reabrimos o Parque Mayer com uma revista com as trombinhas doces desta gente toda.
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