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sexta-feira, fevereiro 12, 2010

sábado, fevereiro 06, 2010

No próximo Sábado

[lcriat4.jpg]

A apresentação deste número ficará a cargo de José Manuel de Vasconcelos e, além de um programa de leituras de alguns dos textos reunidos na revista, haverá depois música da boa passada por um dj atrevido, a loucura portanto.

sábado, janeiro 30, 2010

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Sobre Criatura nº 4

"Leituras e mais Leituras"

Podemos seguir o ano com mais um número da Revista CRIATURA cujos editores escolhem para antologiar poetas e poemas variados, nos temas e julgo que nas idades. Há um lugar para os jovens, com os seus primeiros versos (o Diogo Vaz Pinto que me corrija se estou enganada) e para autores já com obra feita. Bom espaço, boas escolhas - esta é uma qualidade rara que me faz ler a revista com interesse e cuidado.

Claro, como todo o leitor, não sou inocente na leitura, tenho preferências que me fazem voltar a alguns autores que vou acompanhando e conhecendo melhor.

Outros vou descobrindo.

Desta vez, e fazendo sempre jus às vozes femininas, escolho um pequeno poema de Ana Salomé, uma espécie de diário de intenções que me recordam o conselho de Rilke nas Cartas a um Jovem Poeta: se está a começar não escreva poemas de amor...esse amor que julgamos único na realidade torna-se banal pois o amor é de sempre, é de todos, e de início vivido de forma igual.

Ora a grande poesia é feita da diferença e não do mesmo que possamos julgar, por ingenuidade, diferente e inovador. Há que ler muito, ler tudo, até chegar à desejada diferença.

DIÁRIO

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.

Todo o poema que não revolucione, fora.

Todo o poema que não ensine, fora.

Todo o poema que não salve vidas, fora.

Todo o poema que não se sobreviva, fora.

Vou deixar um anúncio no jornal:

Procura-se poeta. Trespasso-me.

(Ana Salomé, p.13)

Este é um Manifesto que bem podia comparar-se ao de Álvaro de Campos, também ele cultor de uma prática poética que se quis directa e quotidiana, sem resquícios de alguma evocação mais sentimental, ele que disse na altura que todas as cartas de amor eram ridículas...

É muito interessante descobrir nestas novas vozes poéticas uma herança que ali permanece viva, ainda que não explícita, e vai conduzindo o fio da experiência - que hoje em dia é narrada sem qualquer ocultação ou pseudo- timidez.

Tudo mudou na vida, nas opções mais sinceras ou mais de ocasião, cigarros e bebidas de mistura com sexo ora insípido ora mais feliz (passa por aí o Sexo e a Cidade da série conhecida) - tudo atravessa a linguagem poética como atravessa os chats, o face-book, o you tube e é essa trivialidade mesma que nos traz a mudança própria do século, e de que esta nossa poesia se faz eco. Forma, deforma, informa, num modelo que transforma estas vozes em mais do que poesia, documento social.

Poesia documental pois, viva e vivida, citadina, juvenil e jovial, também por vezes um pouco melancólica, como se os poetas soubessem de antemão que alguma vez os poemas terão fim.

Disse citadina: e também muito lisboeta, da Lisboa da moda, dos sítios da noite preferida, como por ex. vemos em David Teles Pereira, de que cito um excerto:

LUX/FRÁGIL

...

Há, claro, esconderijos perfeitos: Cais da Pedra

a Santa Apolónia, Armazém A, Sala 2 com

o rugoso paladar a fumo excessivamente caro.

....De novo o poeta reflecte sobre a necessidade

de imprimir no som o relevo de uma certa

distorção, em sintonia com as músicas

que constantemente ouve. É disso que se trata

no fundo, do poema ser como nenhuma outra música

e mesmo assim nunca ser silencioso.

...

O coração - simplifiquemos com simbologia

a questão - deixou de ser invisível, deixou

de ter o que dizer.

O poeta volta a olhar para a pista,

Já nem sequer sente vontade de escrever.

Só a uma centena de corpos a dançar a mesma

música se assemelha o poema.

Qualquer palavra agora seria escusada.

( D.Teles Pereira, pp.19-20)

Assim nos confrontamos com uma prosa poética, descritiva, (como a poderíamos ler no Livro do Desassossego, com a Rua dos Douradores de Pessoa, o mundo que o poeta vê à sua volta de um modo desprendido, de coração esvaziado ele também).

Neste poema observou-se primeiro uma rapariga que dança, e se torna cada vez menos interessante à medida que o tempo (o poema) corre: porque para o poeta a pulsão reside no poema e é mesmo assim que deve ser. O corpo é o corpo da escrita, a rapariga na noite do LUX é meramente um transitório foco de (des?) inspiração.

Quanto aos espaços, a música ouvida por todos com a tal centena de corpos a dançar - é mais uma manifestação do viver em comum ( no espaço do colectivo) uma vida que se torna talvez difícil de viver sozinho.

Sinal dos tempos.

Mas é bom que se saiba, com Rilke, e mesmo com Pessoa, que a flor do poema só abre na solidão.

José Carlos Barros traz neste número as várias evocações dos seus escritores preferidos: Florbela Espanca, Bernardo Soares; e Luís Filipe Parrado fala-nos de Gauguin, no intervalo de falar de outras coisas, mais próximas e mais íntimas, como no poema da Natureza Morta Com Maçãs:

É triste

o espectáculo do amor

apodrecendo aos poucos,

na fruteira

as maçãs que te trouxe

têm agora a pele seca e enrugada.

(p.106)

Poderia continuar por mais tempo, mas é o espaço que me limita no blog.

O importante é ler e dar a ler; está feito. E só mais uma chamada de atenção, last but not least: esta é uma poesia culta, de poetas que vão aos museus, aos concertos, compram livros para ler ...para além das noites e dos dias de que nos falam.

E agora vou, como diria o L.F.Parrado, à minha vida: levanto-me/ para tratar dos pratos e talheres (no meu caso dos netos)/O blog, desculpem, tem que ficar por aqui."

Yvette Centeno

in Literatura e Arte

(Ainda sobre Criatura nº 3)

terça-feira, janeiro 12, 2010

Criatura, n.º4, Dezembro, 2009

O mais recente número da revista Criatura apresenta o mérito indesmentível de reunir um conjunto de poetas que, pela solidez das suas propostas, fazem desta edição um momento particularmente interessante. Na diversidade de poetas coligidos (de autores inéditos em livro àqueles com obra já publicada), na convivência de modos e abordagens necessariamente diversos, reside a surpreendente solidez deste quarto lançamento – o conjunto mais equilibrado e mais forte de quantos publicou o Núcleo Autónomo Calíope.

Poderá salientar-se – entre outros caminhos possíveis – a convivência, que diria proveitosa, entre dois modos de entender a poesia – os quais, sublinho, não se excluem, antes parecendo complementar-se, ou deixar transparecer uma interpenetração de forças e motivações que não fazem pensar em escolas ou tendências antinómicas. Comum a ambas – entre outros factores, repito –, uma postura assinalavelmente despretensiosa e descomplexada, em relação, por exemplo, à própria poesia – «o sabujo mistério da poesia» (Miguel Martins) não parece tentar a generalidade destes poetas –; e posturas, marcadas pela degenerescência e pelo desejo de renúncia – «Quem acredita hoje na poesia?» –, serão, talvez, menos um instrumento retórico do que um profundo arreigamento a esse tempo que a «Nota Final» aponta – «mais ombros/ que sustentem o peso/ deste que é/ o nosso tempo». Um tempo que precisa de ombros, um tempo que precisa da possibilidade de força.

Por um lado, podemos considerar uma poesia marcadamente realista – «[E]screvemos uma história hiper-real» (Nuno Brito, sem grande sentido de ajuste à composição em causa [trata-se, mais, de um índice ‘metapoético’]) –, assinalada por marcas que enviam para um quotidiano, mais que presente – «Azul o seu discman e o disco de Los Planetas» (Elena Medel) –, inescapável, como o da tecnologia, caracterizável por uma espécie de micro-realismo, que se detém em ocorrências gastas pelo uso, mas por vezes resgatadas para o poema de forma capaz – «Um cigarro que nos conte das cinzas pulmonares/ em trabalhos de restauro e contrabando./ A paisagem é interior e facciosa em milhares de degraus./ Mesmo quando nos levantamos, descemos» (Ana Salomé). Lembremos, ainda, que Déborah Vukušic foi representada numa antologia chamada Generación Blogger – mais, por certo, do que um mero tique epocal.

Por outro lado, é possível reparar numa poesia que, sem enjeitar uma postura severamente atenta ao concreto, dá passos timoratos em direcção a um certo lirismo digressivo. Modo esse que – ainda marcado indelevelmente por propostas poéticas anteriores – demonstra uma já sólida constituição de fazeres poéticos reconhecíveis, de autor para autor, e distende o discurso poético, dotando-o de uma respiração ao mesmo tempo mais passional e derivativa. «De novo o poeta reflecte sobre a necessidade/ de imprimir no som o relevo de uma certa distorção, em sintonia com as músicas/ que constantemente ouve.» (David Teles Pereira). Por meio de uma irónica autotelia, o poema – servindo-se embora de um artifício canónico – chama, de forma curiosa, a atenção para um componente centrado em si próprio – a (menosprezada) atenção ao som –, mas abre-se ao que o rodeia, sem cair no anedótico. Noutros momentos, a narratividade assoma nos versos, mas é frequente que tal suceda como forma de operar o boicote e de transviar um percurso apenas indiciado – «nem sequer distrair os sinónimos/ que chegam, às vezes demasiado cedo,/ quando o coração é um ódio/ tão natural, uma forma de pedir/ que não contem mais connosco» (Diogo Vaz Pinto). Por outro lado, pense-se na desmontagem de mecanismos como o da descrição – «Lá fora,/ árvores entorpecidas de jardins/ que podiam não existir, ruas que levam/ por um suave desencanto/ e animais desses/ de beira de estrada.» Não se trata já meramente de considerar que a apresentação poética do referente se tolda com a marca do sujeito, mas antes que a própria complexidade crescente do real, aliada à busca de simplicidade de expressão, desaguam num tratamento poético particularmente conseguido de uma matéria que, o mais das vezes, redunda no brilho fosco de postais anotados.

Neste espaço editorial desde os primeiros passos marcado por uma rara sobriedade gráfica, um minimalismo de registos visuais que se estende, de resto, aos elementos paratextuais – como se a poesia a si mesmo se valesse, de modo semelhante ao que Apollinaire fez com a pontuação –, deparamos, agora, com o branco. Possível símbolo da síntese da diversidade – que se mantém, todavia –, poderá entrever-se, no cromatismo hiperminimalista da capa, tanto a aporia como o prenúncio de jornadas do maior interesse.

- Hugo Pinto Santos

segunda-feira, janeiro 11, 2010



Já algum tempo que desejava apresentar aos meus leitores, sobretudo aos leitores de poesia, esta revista, CRIATURA, organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, com o apoio da Associação Académica.
Por várias razões:
o mérito da iniciativa, num momento em que todos se queixam de que é difícil publicar poesia, ninguém compra livros de poesia, ninguém lê, etc.
e pelo que o esforço revela de um entusiasmo não perdido, o mesmo que outrora, na mesma Associação Académica, nos anos 60, permitiu que se criasse um grupo de teatro estudantil que levava à cena peças de um experimentalismo inovador, desafiador também por vezes e nem sempre bem acolhido pela censura; faziam-se ensaios diferentes: um aligeirado para a censura, outro que já seria o ensaio geral do espectáculo concebido.
Revejo-me no espírito desta revista: inovar e criar pela escrita dos poemas, com sua linguagem própria, muito reflexo da experiência que é a dos jovens de hoje, como outrora foi a nossa;e inovar ainda pelo modelo que escolhem, de uma revista independente, de boa apresentação gráfica, bom papel, letra agradável de ler; a estas qualidades acrescenta-se ainda a pluralidade dos autores que colaboram, num conjunto de vozes bem diversas, nacionais e estrangeiras, e todas interessantes seja pelos temas seja pelos estilos.
Alguns autores colocam em epígrafe os seus preferidos: Walt Whitman, Luiz Pacheco, Nuno Júdice, outros.
A escrita feminina afirma-se coloquialmente sem recusar nem obscurecer as palavras ou imagens necessárias para exprimir alguma situação: do corpo, do eu, do outro, da cidade ou do mundo; é uma poesia liberta e viajada, uma poesia atravessada de cultura - outras culturas, outros mundos e muitas outras leituras.
Leia-se Elena Medel:

Habitat

O tecto do meu quarto é Hollywood.
Nunca ninguém
me poderá ver chorar no seu clítoris de néon.
Aconchegam-me pirilampos que se derramam em lugares distantes,
pontos de interrogação que viajam de graça,
enaltecidos por acrobatas que gozam comigo
e com as suas pegadas fulminam a Via Láctea
e o seu suor e o vestígio são a silhueta no chão
de Salomé a pontapear a cabeça do pregador:
piedade, deus frio, para a minha mesinha de cabeceira.

Filhos de Haley a destruir o meu refúgio,
Sunset Boulevard na noite escura do meu tecto.

(a autora é espanhola, esta é uma tradução de David Teles Pereira)

Veja-se como no entresonho de um quarto às escuras a viagem corre de um presente hollywoodesco sexualizado a um passado mítico como o de Salomé, figura que a história ampliou devido à decapitação de João Baptista exigida a Herodes.
Outro dos poetas antologiados oferece, com grande originalidade uma revisitação do pintor Munch (p. 113-114).
O que reforça o que eu já disse atrás sobre este fenómeno de uma nova poesia contemporânea, culta, de expressão coloquial ou directa, viajada, e que a revista Criatura nos dá a conhecer.
Parabéns e que continuem em 2010.

- Yvette Centeno
in Literatura e Arte

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Actual, 24 de Dezembro de 2009 (Expresso)

4 estrelas

CRIATURA Nº4
Núcleo Autónomo Calíope, 2009, 168 págs., €7

Esta revista volta a confrontar-nos com um original elenco poético.


Graficamente, o negrume esbateu-se, embora a “Criatura” continue a manifestar o desejo de ser um “grito sem voz”, algures “entre a loucura e a beleza”. Mas o que sobressai, neste quarto número da revista, é a reunião feliz de poetas pertencentes a timbres e gerações muito diferentes. Há autores que aqui nos surgem inesperadamente ‘reabilitados’, com poemas bastante superiores aos que anteriormente tinham publicado em livro – casos de Luís Pedroso ou Ana Salomé. Mais sóbria, a escrita de Maria Sousaé outra agradável presença. São menos aliciantes Nuno Brito, autor até agora de um inquieto mas desigual livro de poemas, e José Carlos Barros, de quem era legítimo esperar melhor. Luís Filipe Parrado, quando não resvala para um lirismo inóquo, revela-se de uma grande e singular mestria. Outros nomes a reter são, certamente, os do quase sempre invisível Miguel Martins (que colabora com dois magníficos e ‘desalinhados’ poemas), de Rui Caeiro e de Rui Miguel Ribeiro. É de salientar, ainda, a cada vez mais nítida veemência dos discursos de David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Dir-se-ia, em ambos os casos, que passou a haver uma voz própria, capaz, respectivamente, de vencer o risco do poema curto e do poema longo. Veja-se do primeiro, ‘Reciclagem para C.’: “O deus do Eugénio/ é muito mais verde/ quando lido pelos teus olhos.” E, do segundo, o excelente ‘A Carne Agarrada aos Ossos’ e a aguda consciência desse “desgosto geracional” que “lixou já/ poemas mais que suficientes”. Este ‘desgosto’ prolonga-se, de algum modo, na escolha de poetas traduzidos: Déborah Vukusic (passível de nos lembrar Adília Lopes), Jesús Jiménez Domínguez e os exercícios por vezes fúteis da sobrevalorizada Elena Medel. Dito isto, parece-me evidente estarmos perante um núcleo editorial/poético que reivindica “uma arte que se deixe/ de arrotos místicos”. E, pelo menos nesse aspecto, a batalha está mais do que ganha.

- Manuel de Freitas

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Amanhã na Poesia Incompleta

[novissimos.jpg]

REVISTA CRIATURA nº 4 – Dezembro de 2009, 170 pp., 7 euros
(Tiragem Única de 300 exemplares)
Direcção: Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto
Impressão e Acabamento: Guide - Artes Gráficas Lda.

sexta-feira, novembro 20, 2009

Em Dezembro



Ana Salomé
David Teles Pereira
Déborah Vukušic
Diogo Vaz Pinto
Elena Medel
Jesús Jiménez Domínguez
José Carlos Barros
Luís Filipe Parrado
Luís Pedroso
Maria Sousa
Miguel Martins
Nuno Brito
Rui Caeiro
Rui Miguel Ribeiro

Criatura nº4, Dezembro de 2009
Núcleo Autónomo Calíope

sábado, maio 23, 2009

CRIATURA 3

Texto lido na apresentação da revista criatura n.º3 – da autoria de Rosa Maria Martelo.

Apesar de ser uma publicação periódica, numerada, que reúne vários autores e mantém uma periodicidade até agora bastante regular, Criatura diverge da estrutura habitual das revistas, cruzando-a com o formato dos livros de autoria colectiva. E, nisto, é provável que reflicta um contacto com a poesia certamente marcado pelos novos hábitos de publicação e leitura criados pela internet, embora, no seu caso, a publicação em papel aponte outro caminho, não contraditório com esse, mas antes cumulativo.

Os três números da Revista até agora publicados apresentam a mesma estrutura. Todos abrem com um pequeno texto que podemos aproximar de uma nota editorial ou de abertura e terminam com um poema que, embora diferente de número para número, mantém sempre o mesmo título, “Notal Final”. Nenhum desses dois textos é assinado, e todos têm como tema a escrita, a poesia, ou a própria Criatura. Entre esses textos, de abertura e fecho, o corpo da revista é determinado pela ordenação alfabética dos nomes dos colaboradores de cada número, correspondendo a colaboração de cada um dos autores a uma espécie de secção. Não há qualquer imagem, nem sequer na capa, que apenas varia na cor, e as cores utilizadas não chamam a atenção a não ser pela sua discrição: preto no primeiro número, castanho no segundo, cinzento no terceiro. Na capa, só uma palavra: Criatura. Na página de rosto, repete-se o nome da revista, seguido do número, do mês e do ano. Só pelo cólofon é possível saber que a revista é organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa com o apoio da Associação Académica da Reitoria da Universidade de Lisboa, sendo seus directores Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. A revista não tem índice.

Não são pormenores sem importância, estes que acabo de referir. Há entre eles uma grande coerência, e, de resto, alguns destes “pormenores” foram apontados por Manuel de Freitas, logo na recensão que fez ao primeiro número. No seu conjunto, eles reiteram o quanto esta é uma CRIATURA de papel é VERBAL, única e exclusivamente. Só é possível falar de imagens, na revista, tendo em conta imagens verbais como a que está presente no nome, Criatura, que as três notas prévias retomam para sugerir a chegada e as possibilidades de metamorfose de um SER EM ESCRITA, um ser que se autonomiza de quem o cria, precisamente por ser criação verbal.

Gostaria de acentuar esta condição exclusivamente verbal de Criatura. A revista dialoga com outras linguagens artísticas (por exemplo, com o cinema ou com a pintura), mas é sempre no contexto do discurso verbal que esse diálogo se vai estabelecer. Os seus textos citam por vezes imagens visuais, na verdade até evocam com frequência um mundo saturado de imagens visuais. E todavia, se Criatura fala delas (e fala), o certo é que também interpõe alguma distância entre o que ela é e aquilo que tematiza. Uma distância talvez crítica, talvez reflexiva, que a afasta da prevalência do visual e das muitas agressões visuais de que é feito o mundo em que vivemos.

Eis, portanto, uma revista que QUER SER LIDA, e lida apenas. Que se recusa a ser vista, naquela forma mais imediata e mais rápida em que uma publicação com imagem se dá a ver e se deixa folhear. Uma revista que exige um tempo mais lento, que é ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE o da leitura. Talvez seja por isso que ela nunca apresenta o seu conteúdo através de um índice: o leitor ou entra e lê, ou, caso não queira ler, simplesmente não entra. Ou entra mal, pois não percebe bem a configuração da revista, já que não há uma página em que a direcção, a estrutura do número, os conteúdos e os nomes dos colaboradores sejam apresentados conjuntamente. E no entanto, é assim, mas não apenas assim. Quem procurar a revista na internet, encontrará um blog que inclui imagens, registos audio dos poemas, listas com os colaboradores de cada número e as críticas de que a revista tem sido objecto. E, de facto, há também essa outra face, esse outro modo de diálogo, até porque grande parte dos colaboradores de Criatura usam os blogs para se publicarem e para discutirem os seus textos antes da publicação em papel.

Estas características estruturais da revista podem ser colocadas em paralelo com uma questão levantada há pouco tempo por Emília Pinto de Almeida no Dossier sobre revistas literárias publicadas em papel que organizou para uma outra revista recente, Callema (nº 5, Nov. de 2008), no qual defende que, hoje, “o gesto de publicar uma revista (...) [em papel] diria respeito a um certo modo de encarar o tempo, e nomeadamente, a actualidade”, traduzindo-se num “movimento de desaceleração e diferimento relativamente à velocidade da circulação de informação”. Ora, eu creio que a total recusa da imagem visual nesta Criatura de papel tem tudo a ver com a reivindicação de um tempo essencialmente lento, esse tempo da escrita e da leitura, de algum modo lateral à dinâmica da sociedade de informação. Assim, suponho que as características formais da revista radicalizam a um ponto extremo aquele “imperativo de desaceleração” de que fala Silvina Rodrigues Lopes no dossier organizado por Emília Pinto de Almeida. Olhando para trás, lembro-me de certas passagens da poesia de Al Berto, nas quais é sempre o mundo que é vertiginoso, enquanto a escrita serve para suster essa vertigem e dar lugar à emergência de um tempo que resiste à velocidade.

Neste terceiro número de Criatura, com onze colaboradores, dois dos quais espanhóis, traduzidos por David Teles Pereira, num dos casos em colaboração com Luís Filipe Parrado, esta questão surge de modo explícito várias vezes. Num dos poemas de António Ramos Pereira, “Rosebud”, é formulada assim:

(...)

Uma corrida, com ou sem calças à boca-de-sino, vale menos

se entrar para o livro de records: o relativismo deve ser evitado

e de qualquer modo não é a velocidade que nos anima.

Ao contrário, por culpa dela só trago comigo o início e o fim

da corrida, entre eles, nada senão uma mancha esfumada:

(...) (12)

No poema, esta corrida na estação de Orsay (que, na realidade, é agora um museu) parece ser uma alegoria da doença contemporânea da velocidade, devoradora de todos os trajectos, à qual Paul Virilio chamou poluição dromosférica (de dromos, corrida). Em “Loucura”, Beatriz Hierro Lopes também equaciona a mesma questão, embora num outro plano:

A informação que passa entre os meus neurónios atinge uma velocidade excessiva. Resumamos: não sei parar. Não consigo parar. Organicamente estou viciada em alta-velocidade. (19)

Com respeito a Criatura, um ponto que me parece importante é o modo como a revista nasce e se propõe crescer sem precisar de equacionar o (supostamente difícil) lugar da poesia no contexto desta temporalidade adversa. É possível ler as notas de abertura dos três números da revista como partes de um mesmo texto in progress e observar que esse texto é essencialmente “expectante”: ele espera que, criando, se faça surgir uma criatura que não parte de nenhum programa, mas que simplesmente se procura, “sem reclamar uma posição fixa” (nº1), confiando na possibilidade de descobrir em si mesma a sua justificação (nº2) e antecipando uma “promessa de contágio” (nº3). Essa condição expectante é reequacionada depois nos três poemas em “Nota Final”, que insistem na vontade de diálogo e de encontro (nº1 e 3) e descrevem a poesia como “um projecto de beleza”, “um excesso libertador” (nº2). Apesar de a “Nota final” do segundo número reconhecer explicitamente que “(...) a poesia / (...) não interessa, não é necessária / não convém nem é útil”, a mesma nota também sugere que a poesia pode muito bem com isso, “não precisa que acreditem nela”. No contexto dessa temporalidade adversa, ela não faz concessões: cria, cria-se, e redesenha um território que lhe é próprio, particular, específico. “[Q]ualquer vagar é de muita pressa e toda a rapidez / é lenta”, avisava Herberto Helder. Aos que acham que esse tempo lento nada tem a ver com velocidade e vertigem, Criatura parece responder com um simples encolher de ombros. De resto, há muita deambulação urbana nestes poemas: a movimentação nos transportes colectivos, idas e vindas entre a multidão, vista, por exemplo, do lado de cá da “barreira de som” criada pelos auscultadores, como acontece num poema de Cláudia Santos Silva (41).

A busca de interioridade, procurada do lado “de cá” dessa e de outras barreiras, bem como a apropriação integradora do desfilar das imagens e da experiência contemporânea da velocidade são tópicos importantes na revista. Mas, paralelamente, existe uma grande atenção ao mundo, em Criatura, passando da raiva, ao desalento, do desalento ao grito, do grito à ironia, porque há muitos registos diferentes nos poemas. Neste número, Ben Clark, um jovem poeta espanhol de ascendência britânica, nascido em 1984, fala da sua geração, à qual teriam chamado a dos “filhos da bonança”, para corrigir: “os filhos dos filhos da ira, / herdeiros de todos os despojos” (25). “Já não havia consolo nas nossas almas. Tínhamos chegado tarde ao mundo” (29), dirá noutro poema. É uma temática que estava presente já no primeiro número da revista, particularmente nas colaborações de Beatriz Hierro Lopes e de David Teles Pereira.

E todavia, como assinalou Luís Miguel Queirós (Público, “Ípsilon”, 12 Setembro 2008), a condição geracional da revista não é imediata para o leitor, dado que em lugar algum ficamos a saber a idade dos colaboradores, embora, neste terceiro número, haja uma nota a indicar que os poetas traduzidos nasceram em 1984 e 1985 (de resto, como os responsáveis pela revista). Mas Cláudia Santos Silva, José Carlos Barros e Luís Filipe Parrado, pelo menos esses, são mais velhos. Os dois últimos constavam da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa organizada por Pedro Mexia em 1997 e têm livros publicados já na década de 80.

Apesar disso, alguns dos autores mais novos, como Beatriz Hierro Lopes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto, ou o espanhol Ben Clark, trazem para os seus poemas a questão geracional, de modo muito explícito. “Puta de geração esta em que nasci!”, escreve Diogo Vaz Pinto num dos poemas deste terceiro número, fazendo eco de um texto publicado por Beatriz Hierro Lopes no nº 1, intitulado “Geração do Silêncio”: “Somos a geração da revolta sem revolução, herdeiros dos sonhos naufragados dos nossos antepassados próximos” (Criatura, nº 1, p. 30). Neste terceiro número, Diogo Vaz Pinto termina um poema escrevendo:

Outros sacudiram daqui o peso da rima e

o das sílabas contadas, talvez nos cumpra a nós

tirar de vez o açaime à besta, largá-la nas ruas

e deixar que morda, rasgue, estrafegue e fôda

tudo o que cheire a mijo, hesitação e medo.

(81)

Nestes versos, importa reparar no sujeito plural, “nós”, de resto presente também um pouco antes: “Tiramos umas notas, comparamos ideias, / vamos avançando com as primeiras noções / para pôr esta porra a mexer” (81). E é nisto, e não simplesmente por a palavra “geração” estar presente em alguns poemas, que podemos sentir uma diferença geracional. Nisto, que é uma forma de desenvoltura, uma agilidade que se pressente no modo como estes poemas atravessam muito do que tem sido paralizante: o tão anunciado fim (?) das utopias, o relativismo e a indiferença, a contracção do tempo e do espaço no mundo contemporâneo, os efeitos da globalização e da mercantilização massiva, a dominância da imagem visual, etc.

O que esta revista tem de novo no seu conjunto, mesmo se nem sempre o grau de conseguimento dos textos é idêntico, é, creio eu, esta desenvoltura. Como se manifesta ela? Em primeiro lugar, na fluência discursiva, herdeira dos processos de contaminação entre poesia e prosa que marcaram notoriamente o final do século XX, e na maneira como ela permite trazer para os poemas aquilo que Diogo Vaz Pinto chama “toda esta sucata que encalha nos meus versos”:

(...) É bom saber que somos muitos,

nós que temos a vida engasgada entre golpes

publicitários. Já viste o novo da Superbock? (70)

Depois, essa desenvoltura está também presente no modo como alguns poemas fazem confluir referências poéticas e estéticas muito diversas, como tem vindo a acontecer nos textos de David Teles Pereira. Neste terceiro número, para dar apenas um exemplo, o poema “I Love LX” arranca num ritmo e num tom que fazem pensar em “América”, de Ginsberg, mas isso não impede que no poema compareça também um célebre verso de Shakespeare – “Shall I compare thee to a Summer’s day?” –, embora inteiramente subvertido: “Lisboa, posso comparar-te a um dia de tempestade?” (49). A variedade e a diversidade de tradições poéticas convocadas e sobretudo o modo como elas se misturam entre si e com outras referências culturais muito diferentes parecem implicar uma agilidade na mudança de registos que traduz uma relação com a poesia certamente associável com a cruzada intermitência com que hoje lidamos com os muitos meios de informação disponíveis e com os seus efeitos sobre a experiência da temporalidade.

A transposição dessa experiência e o contraponto estético que ela pode gerar configuram certamente uma questão geracional – a de cruzar o tempo lento da escrita e da leitura da poesia com a velocidade da vida e da circulação da informação contemporâneas e com os modos de leitura rápida que esse tempo lento vem suspender. E dir-se-ia que Criatura responde a isto apurando, também ela, muitas vezes, um discurso marcado por transições muito rápidas, por cortes, por uma espécie de zapping temático, temporal e intercultural. Esta situação não é inédita, mas parece-me notória e significativa a maneira como os poetas mais novos da Revista cruzam diferentes tempos e diferentes literaturas – e isso é particularmente visível nos poemas de David Teles Pereira –, evidenciando um modo de ler tentacular e muito descentrado, onde a poesia portuguesa já não é aquele ponto de partida do qual se ia para as outras literaturas. Do ponto de vista cultural e estético, as fronteiras nacionais fazem cada vez menos sentido, o que também se reflecte nesta agilidade de que estou a falar.

Ainda a propósito de esta me parecer uma poesia desenvolta (e estou, propositadamente, a evocar o título de um ensaio de Eduardo Lourenço), gostaria de sublinhar também os registos dos textos de autoria feminina presentes neste número da revista, de Beatriz Hierro Lopes, Cláudia Santos Silva, Marta Caldeira, e da inquietante espanhola Elena Medel. Apesar de tudo quanto os distingue, eles partilham uma desassombrada assertividade no feminino que faz pensar que muitas das lutas das mulheres ao longo do século XX se refazem, no início do século XXI, pelo lado da evidência, o que só pode significar uma vitória, ainda que sectorial, é certo, mas que explica o cansaço de Cláudia Santos Silva diante do machismo e da misoginia (38), apontadas como remanescências de um passado que, mesmo se não se resigna a morrer, é já visto como irrevogavelmente morto.

Não é, julgo eu, por acaso, que esta Criatura tem sido recebida com assinalável entusiasmo. Ela faz-me pensar numa figura dos Dezanove Recantos, de Luiza Neto Jorge: a de Vaídio, esse ser entre o humano e o gato, sempre entre ir e vadiar, figura expectante e futurizante por princípio e natureza, da qual diz Luiza Neto Jorge: “Seu corpo de outra época / nas superfícies menores é corpo grado a incidir. // Seu corpo de animal / só fala de sorver / tudo o que encontrar”. Ao ler Criatura, sentimos que a revista atravessa, com essa desenvoltura de que falei, lugares e circunstâncias que têm sido de melancolia e, por vezes, também de parálise – o que não quer dizer que não exprima desconforto, ou mesmo uma saudável raiva. Mas esta criatura passa, sem perder a energia, e um pouco como passam os gatos. Com aquela elegância esquiva com que o corpo do gato se adapta a ter pouco espaço – e passa. Não sabemos ainda onde vai, mas a maneira como vai é seguramente bonita de ver, ou melhor, de ler.


Rosa Maria Martelo


terça-feira, maio 12, 2009

Este sábado

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De todas as formas de violência o silêncio é talvez a mais perfeita, e a escrita também aprende a servir-se disso.
Há em toda a criação um grito que se insurge como uma forma de resistência, ainda que não consiga mais do que inscrever um intervalo digno no silêncio que arrasta a maior parte dos dias.
Escreve pelas razões que te apareçam, ou na falta delas; pelo gosto que sentes nisso, ou mesmo por desgosto; pelo ritmo que se ergue a cada linha, ou na arritmia que te consome. Continua. Do fogo às cinzas a criatura irá inventar-se de novo as vezes que quiser, antes de deixar um eco – uma promessa de contágio.

NOTA INTRODUTÓRIA - CRIATURA N.º3

sábado, maio 09, 2009

No próximo fim-de-semana

vamos ao Porto para apresentar o terceiro número da revista criatura

domingo, abril 26, 2009



Um livro cada domingo. Desta vez não é livro, é revista, criatura de seu nome. Chegou em Abril ao número 3, facto de assinalar em tempo de rarefacção de poesia. Ao contrário dos poetas revelados nos anos 1990 (entre outros: Ana Luísa Amaral, Fernando Pinto do Amaral, Luís Quintais, Manuel de Freitas, Pedro Mexia e Rui Pires Cabral), que puderam contar com editores abertos às suas propostas, jornalismo cultural atento, uma bateria de críticos da mesma geração e cumplicidades institucionais de vária índole, os que chegam agora têm de seguir o protocolo de regra: publicações artesanais fora do circuito dominante, edições de autor, visibilidade restrita a círculos de iniciados. Não tem mal que assim seja. O tempo se encarregará de fixar os melhores. A nova revista é disso exemplo. Organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, com o apoio da Associação Académica, criatura é dirigida por Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Além de portugueses, a revista publica autores de expressão ibérica, que neste número são dois: Ben Clark (Ibiza, 1984) e Elena Medel (Córdoba, 1985). Sobre os portugueses, nenhuma referência de natureza biobibliográfica. Têm 20 anos? Têm 50? (Um deles anda lá perto.) Isto não é mania. Como é que podemos, com propriedade, falar de uma revista de novos, se nada o garante? Podemos ir por aproximação ou presunção, mas não chega. A uma primeira leitura, diria que Cláudia Santos Silva apresenta (em particular do ponto de vista formal) o discurso mais consistente. E que os poemas de David Teles Pereira [ex: 1.LX] e Diogo Vaz Pinto, [ex: “No metro, em pé, ainda a acordar no abafo subterrâneo”] no largo fôlego dos respectivos enunciados, podem vir a ser grandes poemas no dia em que os autores forem capazes de os limar. A ideia da prosa dos versos é tentadora... mas não cai do céu. Isto dito, sublinhar o óbvio: o mais difícil, que é começar, está feito.

- Eduardo Pitta

sábado, abril 11, 2009

Actual, 10 de Abril de 2009 (Expresso)

CRIATURA Nº3
(3 estrelas)

Núcleo Autónomo Calíope da Fac. de Direito de Lisboa, Abril de 2009, 156 págs., 8€
REVISTA - Por aqui passam novos poetas.

por António Guerreiro

A REVISTA de poesia "Criatura" chegou ao nº3, facto que merece destaque e louvor. Tratando-se de uma publicação onde se divulgam poetas novos (poetas que ainda não têm livros publicados), ela fica sujeita a uma recepção que reclama revelações. No primeiro número ressaltaram os nomes de David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Lendo o que publicam neste número, devemos observar que mantêm uma razoável qualidade, mas é nítido um certo conteudismo, um investimento semântico e declarativo que depois não têm resposta nem na sintaxe nem na prosódia. E isso nota-se ainda mais nos poemas de David Teles Pereira. Mas ambos se mostram permeáveis aos perigos da frouxidão a que sucumbem facilmente os poemas longos e descritivos. E, em maior grau, este é um problema da maior parte dos poetas que surgem neste número (nove portugueses e dois espanhóis): uma dicção a que falta concentração formal, que não se fique pela música descritiva e pelos recursos expressivos baseados no vocabulário e no semantismo das imagens.

quinta-feira, abril 09, 2009

Criatura 3 - nas livrarias

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Lisboa

Alexandria (Calçada do Combro)
Artes e Letras Lda (Largo da Trindade)
Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel)
Book House (Saldanha)
Bulhosa (Campo de Ourique)
Guimarães (B.N. - Entrecampos)

Letra Livre (Calçada do Combro)
Poesia Incompleta (Príncipe Real)
Portugal (Chiado)
Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar)
Sá da Costa (Chiado)
Trama (Rato)

segunda-feira, março 30, 2009

quinta-feira, março 26, 2009

Chega amanhã às livrarias do costume

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REVISTA CRIATURA nº 3 – Abril de 2009, 156 pp., 8 euros
(Tiragem Única de 300 exemplares)
Direcção: Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto
Impressão e Acabamento: Guide - Artes Gráficas Lda.

quarta-feira, março 25, 2009

Estação de Inverno

A 60ª edição do programa Estação de Inverno foi ontem para o ar e nela foram lidos poemas que integram o segundo número da revista criatura. A versão em podcast já está disponível para download no seguinte endereço - http://archive.radiozero.pt/inverno20090324.mp3

Aqui fica também o endereço para o programa em que foram lidos textos do primeiro número da revista - http://archive.radiozero.pt/inverno20081216.mp3


Este é um programa da responsabilidade de João Blake

terça-feira, março 03, 2009

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Criaturas, seguindo Ruy Belo

Reunidos em torno da revista Criatura, Diogo Vaz Pinto, Hugo Roque e Pedro Jordão são, em maior ou menor grau, extremamente atentos à possibilidade de sentido que o literal pode fazer deflagrar no poema. Cenários urbanos, cafés, bares, discotecas, mas também a Bíblia, Deus, paisagens industriais, uma total (propositada?) ausência da rima, mas uma curiosa impressão rítmica fazem destes três poetas vozes muito originais que, esperemos, não se tornem epígonos de uma qualquer tendência meramente literal. Há poemas de Diogo Vaz Pinto (n. 1985) em que os ecos de Ruy Belo são evidentes: a torrencialidade discursiva, um tom de pequeno conto, mas elidindo os versos, um entrecruzamento de referências eruditas (Debussy) com um léxico ao mesmo tempo prosódico, a sua poética define-se pela assunção do falhanço da poesia: «Pratiquei em verso a arte de abrir sorrisos/ a quem não tem dentes./ Falhei».
Já em Hugo Roque qualquer coisa de Cesário parece reencontrar-se connosco. Baudelaire e Hart Crane são leituras que se pressentem. Também Roque nos vem falar do dióxido de carbono social, da cidade como espaço do vazio, do quotidiano mais ignóbil porque exausto. Neste poeta, em cujos poemas há a tentação da quadra, ou do poema vertical, atomizado, à Carlos de Oliveira, igualmente se indicia a ironia deceptiva à O'Neill: «Estou demasiado cansado/ agora que dormi horas a mais/ estou com tempo/ ia bem um lanche ao final da tarde/ à noite uma peça de teatro/ que já faz tanto tempo [...]». Todavia, Hugo Roque (n. 1978) é, parece-nos, um trabalhador do verso, um cinzelador não de palavras, mas das sensações: uma extenuação, um abatimento, a recordação do tempo, a certeza de estarmos em tempos do fim farão de Hugo Roque um autor a seguir com toda a atenção.
Relativamente a Pedro Jordão (n. 1977), a sua escolha poética é marcadamente inglesa. Há uma vontade de internacionalizar a mensagem e uma bem conseguida oscilação entre o aforismo e o poema em prosa: «os mais perigosos são os desejos com arestas/ tão exactos. Ensina-nos a prudência/ a arredondar-lhes os cantos a desenhá-los/ ambíguos mas a ambiguidade/ sempre tão frágil e não sincera [...]». Jordão, apesar do que fica dito, exprime um confessionalismo por vezes saborosamente adolescente: «não os dias mas as noites/ as noites são mais honestas/ pelo que escondem e/ pelo que nelas se acende». Uma curiosidade: em muitosdos poemas reunidos na revista Criatura, Pedro Jordão, parece deixar sugerida a lição de Manuel de Freitas: o único real absoluto é não haver real absoluto nenhum, muito menos o da poesia.
Estes rios vão desaguar onde? Lirismo, ou haverá outro caminho?


- António Carlos Cortez, in Jornal de Letras n.º 1001