quinta-feira, agosto 09, 2018


Sobre o telhado, a passagem das nuvens, podres da alba, num arrebatado gozo de fantasia que acerta em mim o tempo, retira-me o fuso para se assombrar plenamente. E eu que, absurdo, me tinha descido fundo como um preso, perito em consertos de nada (colava cacos de porcelana, refazia leques, despertava velhos relógios...),  arrependi-me da morte, sentida mas igual à dos outros, e cheguei à margem oposta: tirar o cansaço às coisas, dar à sombra estremecimento. Se descesse agora, que perdesse uns anos e me visse sujo, sumo aflito do queixo à roupa e as cascas de laranja na intimidade da água maravilhada de um poço. Do tanto que daqui se alcança, somado ao que podes imaginar, não exijas menos do que voltar ao quarto e ver um jardim a tremer sobre a mesa, o verso como um canário adolescente à janela, as sombras domésticas na imitação das marés, a própria casa a desenraizar-se, largando velas. Fantasiamos sobre coisas tão vastas; doentes de histórias, cercados e em minoria, caímos para ver os sentidos sujos, sol nos ombros e a ganância dos caminhos. A possibilidade de um tipo se meter nos assuntos do vento, perder de si o rastro. Ante a saborosa origem do suspiro, ter a voz reduzida ao soluço desatando da brisa um perfume que reerga na memória o desastre calmo do que tivemos diante dos olhos. E com a noite – mas outra noite, a admirável, secreta, comovida noite que debaixo desta pele árida encontra o sangue turvado pelos astros – dar passos cada vez mais fundos, uma água de estrelas no cantil e ganhar uma sede que meça a fundura que levamos em nós. Como hábitos que temos sós, porcarias sem valor que nos tornam ávidos, mudos, capazes de chorar sem aviso. Uma gente perdida, virando em direcções que aos outros escapam. Coisas como os sapatos que deixou vazios e as suas redondezas. Detalhes que ficam de um rosto como de uma época: sorriso delinquente, olhar disperso entre o vislumbre de uma cidade a arder e o golpe frio e talentoso da flor perfumando a sua agonia.

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