terça-feira, junho 12, 2018


Um tiro que vem lá de um canto da cabeça
como um animal atravessando
o perfume da presa, trazendo-lhe a morte
doce, inteira e negra,
anunciada desde os primeiros passos.
O difícil é negar-se a uma coisa dessas.

Nos recantos esbatidos da história
saboreamos venenos,
atraiçoando o sangue até que os nomes
nos firam de rompante. Até lá vão abrindo
pequenos cortes, arrastados.
Mas depois há a luz para que se corre
como se faltasse o ar. O terror, afinal,
é um modo de dar-se. Lâmpada balouçando
para que nos veja de tantos mais lados
o escuro.

Ao chão eu fui tarde demais e
soube-me como uma brisa, mas hoje
cuspo um sangue velho
do murro que me vem, fende-me o lábio
mete-ma dentro, esta cara que já mal
reconheço. Um gosto amargo, admirável
refaz-me a boca cada noite,
e negro floresce arterial
como vibram as lesões cantando vida fora.
Cada dor que me esquece, refaço-a.
Espremo os pobres materiais à minha volta,
e a idade passa-me a limpo o susto.

Uma água na cabeça, subindo calmamente
como o caçador ao apanhar-lhe o rastro.
Oiço como a distância só alimenta o grito,
e estende os seus passos sufocando o próprio eco,
num ritmo dissoluto: vem, vadio, soprando
a demência ao ouvido de cada coisa.

Quando a língua deixa de ser de carne
há um vento que só as sombras move,
o resto deixa petrificado.
De flores já mortas desata o perfume
e eu venho respirá-lo por que lado?
A que cabeça me chegam as imagens,
a frase tremida que o espelha?

Silêncio infuso da comichão dos astros,
desde essa torre obscura e desordenada
tomo o pulso das estrelas carentes,
as extintas apurando os seus lances finais,
decomposições lentas escoando milénios.
Como canções vagarosas, como
frutos rachados de odor inquietante,
como tudo o que o sol disputa
aos bichos. Terrenamente,
com estes poucos sentidos, espreito
os modos em que tudo se desfaz,
o olhar cheio dessa gente que faz lembrar
nos caminhos os afogados.
Do que parto com estas mãos, do mal
que lhes reconheço, deste frágil
talento para os desastres,
nem me arrependo, pois mato para abrir
e admirar. Talvez seja um pouco tarde.
Para eles. Não para mim.
E o que os pássaros me roubam, por aí
vou sabendo quanto do erro tocou o fundo.
Comem a beleza, eles, eu recolho
ossos vivos. Tacho e lume, a sopa
que sirvo aos meus fantasmas.

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