domingo, maio 27, 2018


É meia-noite, sinto-a vir pelos fundos
revirada pelo sonho dos seres mais próximos
como se fosse raro estar vivo acordado
mal te oiço dentro da carne
faço um gesto por dentro do desejo
cortando a língua um pouco acima
da impressão que me causa
a pose violenta de uma mulher que levarei
em pedaços num saco negro como no sangue.
Prendo-lha no cabelo e pergunto-me
a que horas essa flor imita a morte.
A louça secando, e uma abelha a rondar
intrigada as roupas largadas
por um minuto inteiro sigo de lábios
onde tem pulso, e toco com o quê
no fundo?

Que mãos ouvem, partilham isto, atam
a uma só corda tanta noite, conto-as lá em cima
esse astro parcial, fendido, turbulento.
Abri o estômago da noite dissecando um grilo
coisas mínimas, peças, as partes de um relógio;
foi precisa uma gigantesca operação.
A sintonia com o cosmos de tudo aquilo,
um eco imortal alimentado
(lixo secreto, mutilações de sombras),
ali mantido em cativeiro. Assim mesmo,
também o mel escolhe entre quantas bocas
apura uma doçura que traz milénios
num repentino balanço.

As luas extinguem-se e eu tento medir
a que altura me leva a luz, descalça
abrindo um caminho tão longe
do que eu pudesse dizer.
O saboroso som do regato onde Keats
lavou o rosto, algum pássaro dando-se corda
nuns versos calmos em que se vê o fundo,
e não o oiço na carne, mas na água
esse corpo que sigo
contando-lhe os soluços, cada um
mais junto, sugando-lhe as feições uma
por uma, o rosto, a síntese da fome ao excesso,
o cabelo descendo-lhe vivo as costas.
Num relance aparece, desaparece, e talvez
faça algum sentido bem longe daqui
e de tudo o que lhe diz respeito
eu só resgato um eco desfeito.

É meia-noite e colho num jarro esse tremor
envolvido em raízes de outra terra,
sombras que nem naturais são.
Chega para a pouca razão que me chega.
Fruto tombado dez vezes sobre si mesmo,
derramando-se debaixo de si
enquanto o olor cose um vestido
e é o próprio desejo o que nos faz companhia.

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