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quarta-feira, novembro 19, 2014

Hoje és menos


Alguém que andava a ver se te esquecia
e a cuja memória, por isso mesmo,
regressavas como a melodia de uma canção da moda
que todos trauteiam sem querer,
ou como a frase de um anúncio ou um lema;
alguém assim, agora,
provavelmente
(seguramente) sem o saber,
começou, finalmente, a esquecer-te.

Hoje és menos.

- Roberto Fernández Retamar

terça-feira, maio 27, 2014

A grande arte


E se mentir não fosse malévolo
nem sequer muito grave, se não tivesse
consequências fatais,
não fosse irremediável nem cheirasse a pólvora;
e se mentir
não fizesse murchar os jardins
nem congelasse o manancial sagrado
que rega os nossos sonhos;
e se no fim de contas
mentir nem fosse mau
mas simplesmente difícil?

- Andrés Neuman

quinta-feira, janeiro 09, 2014

Autobiografia


Se a minha vida não é isto
o que será a vida?

Martín Adán

Perguntas-me pela minha vida à queima-roupa:
que posso responder, com o quê e de que modo?
O que sei da minha vida risca-o tudo o que dela não sei:
as palavras não alcançam, as memórias confundem-se.
A minha vida é o que fiz,
o que desfiz, o que deixei de fazer.
Para saberes da minha vida, pensa na morte;
pensa em ti que estás viva e hás-de sobreviver-me.
Não sei se terei tempo
para viver o não vivido, para matar o que vivi,
para viver a morte antes que me morra.
Minha vida recebe instruções de outras vidas
anteriores a mim, às quais sirvo
como fiel sucessor e que em mim revivem
– não tenho olhos senão para o que não vejo.
Minha vida é uma noite que não se adapta à luz,
um astro fugitivo extraviado na terra;
é também a palavra que ainda não me achou,
a mensagem misteriosa que não decifrarei.
A minha verdadeira vida talvez ainda venha a inventar-se.

- Ángel Guinda
in Avanti (Poetas españoles de entresiglos XX-XXI), Olifante

quarta-feira, dezembro 11, 2013

Alicia já não vive aqui


Procura-se Alicia. Descrição:
corpo pequeno, tetas como meninos adormecidos.
No seu cu aninhava-se a nossa felicidade
e na sua cabeça tudo o que está errado.

É procurada. Não sei o que é mais cruel:
se os seus olhos fechados na grande madrugada das canções,
se seu colo, polpa democrática sobre a qual ofegam
– arf arf – cães e velhos.

Doce Alicia: amiúde cabralouca.
Mas eu desejei-a, oiçam-me, e ela a mim um pouco menos.
Levava-me perdido da cabeça pelo passeio, como
uma nanny perversa a um miúdo luxurioso,
e eu feliz, feliz.

A vil colegial atirou com os livros
e saiu a correr. Deus, como corria!
No que depender de mim nunca a apanharão.

Alicia, em ti deixei as minhas impressões digitais:
ponham-me as algemas! O guarda
ficou louco e ela ri, ri.
À tua saúde qualquer um se embebeda pelo menos uma vez,
e por isso que não sejas boa não faz qualquer diferença.

Procura-se Alicia. Descrição:
a curva das suas costas um vidro embaçado,
pernas que têm manha para oprimir o mundo assim e assim.
Seu preço, o que tiveres
nos bolsos.


- José Luis Piquero
in El fin de semana perdido, DVD

Inestimável


Francamente, o teu não tem bom aspecto.
Ficaste parada no tempo, como num grande engarrafamento,
os olhos lastimosos.
Mas os demais passam a teu lado,
run run, pela tua direita e pela tua esquerda,
adeus, adeus, e logo ficas entregue a ti,
com os teus pulsos abertos.
                                                Menina feia, o que fizeste,
recolhe os pedaços.

Se bem que talvez fosse justamente isso
o que sempre quiseste:
a estranha perfeição da quietude.
Tu, toda branca, um feto distraído,
medida tibiamente no silêncio,
depois de nos deixares como herança o pesar
e os remorsos.
Deve-se morrer com algum objectivo
mas alegro-me que não o tenhas feito.

Quanto ao resto, suponho que te lembres
de como celebrávamos aqueles aniversários
da tua não morte: deitando-nos juntos
apenas para dormir, como irmãozinhos dickensianos,
o meu peito contra as tuas costas: dois parêntesis.

O sexo vinha então, com alguma sorte.

Se me perguntares, julgo que o teu erro
foi pensar que viver era presente
condescendente que tu nos davas,
um sacrifício teu: esse mar calmo,
a brancura perfeita e o feto e tudo o resto,
a troco do sossego de quantos gostamos de ti.
Mas pagarmos o preço do teu fantasma ia-nos saindo,
com o passar do tempo, muito caro.
Perdoa o mau jeito: metes medo.

A tua sede é da vida dos outros.
Agarras-te ao que não pode tocar-se, cheirar-se, ser vendido.
Que fazem com o calor
pequena lambidela de olhos ávidos
e o coração tão frio?

Ainda assim, há algo de bom em tudo isto:
enfim alguém que está em dívida para comigo.
Eu quis-te, ao meu jeito, e tu a mim não. E jamais
te disse alguma coisa que não
a verdade.

Guardei para mim um pouco de calor
no meio deste frio.
Agora o tempo passou e eu sou outro.
Pela tua dívida, descansa: não te cobro.


- José Luis Piquero
in El fin de semana perdido, DVD

Judith em Esterri


Aí não se vê o mar, não gritam as gaivotas.
Mas o que fazes aí, nesta tarde de sol,
faz tanto tempo já que não me lembro,
intocável no tempo.
A terra puxava por ti como pelo cordão de uma cortina
mas soprava um pouco de brisa e isso era,
à falta de outra coisa,
o que entendias por felicidade.
A casa familiar, com todas as suas promessas incumpridas,
e a astúcia do rio.
A música causava-te tantos estragos que parecias tonta. Todas essas canções!
E este era o meu conselho: que te mandasses.

Agora já estás de volta. É a vida real com as suas merdas do costume.
Mas nem tu nem eu aprendemos:
que apesar de acreditarmos nesses paraísos mortíferos
nos matará algum dia.
                                        Enquanto isso,
deixamos que as lentas, meticulosas cartas
ponham ordem no mundo por nós.

As cartas, a memória dos pecados,
a música mecânica das cartas apenas encobrindo
o medo de que isto – este cansaço um dia e depois outro dia – seja tudo.
Temos vindo a respirar nas cartas durante pelo menos cinco anos.
As palavras e logo mais palavras.
E amiúde assusta-me pensar que tenhamos posto mais do que devíamos nelas, como espelhos
nos quais um tipo se olha e volta a olhar
para no final se deparar com o rosto de um autêntico estranho.

Assim te deixa o tempo: intocada, em ti mesma,
num lugar sem mar no qual eu nunca estive.
Não saberia dizer se te conheço.

Mas neste poema vou salvar-nos aos dois. Escuta:
tu e eu nunca nos fizemos mal
e isso é algo que não podem dizer muitos amantes.
Acrescento os beijos que não há que lamentar;
as manhãs nus na praia, sem nos forçarmos,
desfazendo o juguete do mundo em pedacinhos;
as ausências e como te atraí até minha casa puxando
suavemente por um cordão invisível,
como quem se busca e – milagre – se encontram;
as garrafas de vinho e seu fragor amável, a renúncia a ir mais longe, o desejo,
que não nos falte nunca a pica do desejo.

Quanto ao mais, quisemo-nos bem.

De noite, enquanto escrevo, parece-me ouvir-te chorar.

Acalma-te, já não estás só.
Acabo de pôr uma das tuas canções
e já não poderás nunca mais ser-me uma estranha.


- José Luis Piquero
in El fin de semana perdido, DVD

Raquel


Raquel, o que te passou
pela cabeça? Talvez
uma dessas canções agarotadas, tralará,
ou quem sabe algo que não disseste a tempo
e de que agora já não te lembras.
Coisas que nos põem tristes. A tristeza,
a Puta,
prendeu-se-te às bochechas
como uma aranha.

Eu prefiro pensar em ti dançando,
na minha casa, não se faz muito disso, e asseguro-te
que o teu sorriso era o mais bonito da terra.
Parecias uma taça ou uma fruta
às quais se chega lentamente a mão:
algo para se apreender na memória.
E, contudo, aquele não era o teu lugar, hoje sei-o,
na desgraçada felicidade dos que dão tudo e nunca fazem perguntas.
Raquel, eras um anjo que fodia e bailava e bebia cerveja,
mas os homens nunca
te trataram muito bem.

Lambe essas feridas, querida, pega-me no telefone.
O veneno do mundo molhou-te os lábios.
Sê realista.
Todos os homens te desejam mas
que flores tão estranhas, não é verdade?

Tu e eu sabemos três ou quatro coisas
que dão para viver
e nunca cometemos o erro de nos encostarmos.
Raquel, deixa-te estar quieta entre as flores
e tenta ser feliz. Aquilo que todos fazem.


- José Luis Piquero
in El fin de semana perdido, DVD

terça-feira, dezembro 10, 2013

Oração de Caim


Obrigado, ódio; obrigado, ressentimento;
obrigado, inveja:
devo-vos quanto sou.
O pior de nós mantém o mundo a andar
e a ira é um dom: estamos vivos.

A que demónios pertencem os sorrisos,
esbanjados feito mercadoria barata,
nunca me dei ao trabalhado de averiguar.
Obrigado por não me deixares ser inconstante e doce
enquanto o mundo ergue a sua minuciosa obra de dor
e nos fazemos mal uns aos outros
amando-nos às cegas,
com torpes estaladas.

Eu sou essa pergunta da insónia
e a sua horrível resposta.
Beija-nos na boca, multidão, e esfuma-te,
que estamos sempre sós e não somos felizes.

Obrigado, angústia; obrigado, amargura,
pela memória e pela razão de ser:
não quero que me desejem ao preço da minha vida.

Obrigado, senhor, por me mostrares o caminho.
Obrigado, Pai,
por deixares que teu filho seja Caim.


- José Luis Piquero
in El fin de semana perdido, DVD

Fotografia


Vais-me roubando a alma enquanto me tiras a foto
e a cada disparo fabricas um cadáver.
Onde estará o meu tempo
e a minha respiração e a constância
com que observo as coisas, se observo um assassino?
Posar para uma foto é simular a vida
e a casualidade.

Quem estará no papel não serei eu
mas o meu fingimento e a tua versão dos acontecimentos.

Tu és bom na tua profissão.
Eu engano o Ciclope e chamo-me Ninguém.


- José Luis Piquero
in El fin de semana perdido, DVD
 

Apartamento 341


Oncologia

A morte desempenhou a sua tarefa
neste corpo: deitados bem juntos.
o olor dos dois invade o quarto.

E são sinais o timbre, a garrafa de água,
o pólo estendido da visita, a maçaneta da porta,
de algo impostado, apenas duradouro
nesta eternidade real da agonia.

Decoração casual das coisas práticas
para um a morte nunca calculada,
como todas as mortes.

(Recordo-o rindo-se num casamento,
muito tempo antes desta pasmosa eternidade.
A morte já pisava sobre folhas secas
bem perto de qualquer de nós.
Mas a música estava muito alta).


- José Luis Piquero
in El fin de semana perdido, DVD

terça-feira, dezembro 03, 2013


Os lábios impacientes da noite curam-te enquanto abrem o olor da pedra
conduzem-te se perseguem a alma da pedra
se bebem o seu terno coração mineral
é a tua hora é a noite

assim, dirás que te roubaram como um vinho noviço
e hás-de fazer-te pedra aguda como um agudo líquido
limpo como ópio de oiro
e serás a tua própria trégua
e aliança

assim, dirás que essa que és contigo leva um jeito desigual e se balança entre estrelas
é-te idêntica mas mais favorável
tua obra nocturna rara
é a que se abre em sorriso e gritaria
e escuta um piano suave como uma estrela, estrelas

- Blanca Andreu

sexta-feira, novembro 29, 2013

A garrafa


Dentro desta garrafa cabe o mar.
Dentro desta garrafa
cambaleia o céu,
cambaleia o sol dos bêbedos
com sua verdade às costas,
com a maré das suas amarguras.
Dentro desta garrafa bailam moscas
como helicópteros bombardeados,
passeiam baratas com guarda-chuvas.
Dentro desta garrafa chove ausência.
Sua parede giratória desfigura meus rostos,
curva-me a expressão, abre-me as pupilas:
há tempestades de golpes no seu magma.
Dentro desta garrafa está o vazio
de que me encho quando bebo e bebo.
Abandonada para a reciclagem,
eu sou esta garrafa.

- Ángel Guinda
in Caja de lava, Olifante

Mensagem aos adolescentes


Isto não o deveis tentar repetir em casa, crianças.



Crianças, experimentem fazê-lo em casa
e sabereis o que é bom sem que ninguém vos conte como é.
Recordem que não há nada que os vossos pais possam ensinar-vos.
Eles não se substituem a vós.

Recostai-vos, bebei.
Há séculos que estas coisas se passam
e ninguém conseguiu provar
que sejam muito piores que uma guerra.
Existe um paraíso no fim dessa linha de pó.

Quanto causa dano e não o reclamam,
crianças, estais a trocá-lo pela serenidade.
Já vos falaram dela? Alguém conhece a que sabe?

Se ignorais quem sois evitem o rodeio
de o averiguar unindo-se aos demais. Uma praça em grupo
é um posto no mundo;
                                          pois agora,
                                                                  crianças,
que levante a mão aquele de vós que queira morrer sendo útil e sensato.
Tendes razão: não é nada divertido.

Além do mais, sei que não sois felizes,
na melhor das hipóteses pensais que todo o mundo vos odeia. Pois é verdade,
mas há razões de sobra para isso: sois jovens e estúpidos
e não tendes direito
a todo esse futuro que ides malbaratar (como fizemos nós).

E então, estais sozinhos? É claro que sim.

Aprendei a ser livres, não eviteis a mentira;
vereis por experiência que é mais sólida que uma verdade negociada.

E acima de tudo,
                               crianças,
                                                 não acreditem
que a vida merece ser vivida
apenas porque desde sempre o garantem os piores cabrões.


- José Luis Piquero
in El fin de semana perdido, DVD

sábado, novembro 23, 2013

Noite cor de alba


O silêncio da madrugada despertou-me. Como um rumor de pesadelo chegou até mim, sem anunciar-se. Era apenas um ponto, um buraco negro reciclando os olhos na escuridão. Vi janelas abertas, e paisagens com nuvens. Multidões sem rostro simulavam latidos. Soube que no fim a noite não se iria e aprendi com a sua presença o valor de estar só e sentir medo.

- Jenaro Talens
in Avanti (Poetas españoles de entresiglos XX-XXI), Olifante

sábado, novembro 16, 2013

Final do labirinto


O distanciamento de uma música a meio da tormenta não tem mais sentido que estas palavras irreconhecíveis que um náufrago pronuncia como suas, ainda ignorando a quem ou a quantos pertencem. Estéreis esboços para uma teoria da ressurreição.
O centro é a unidade, mas também o ponto de partida para uma infinita multiplicação de círculos concêntricos. Solidão que se expande como a dureza opaca de um seixo sobre a superfície do mar.
Somos o branco propício aos dardos do desespero. Somos o muro e o espaço onde o muro surgiu. O cárcere e a sua impossibilidade. E se, finalmente, segregamos dor e morte é porque morrer acaba por ser o único resíduo possível para uma chama solitária.
Romper o frágil e as suas espirais. A liberdade de conhecer os limites: já não o centro, nem o círculo, mas a realidade, agora inevitável.

- Jenaro Talens
in Avanti (Poetas españoles de entresiglos XX-XXI), Olifante

Arde o mar


Ah ser um capitão de quinze anos
velho lobo marinho as velas desfraldadas
as sirenes dos portos e a fuligem e o silêncio nas barcaças
os cachimbos fumegantes dos armadores pintados a óleo
as greves dos estivadores as gruas paradas ante o céu de zinco
os tiroteios nocturnos na doca clarões um corpo nas águas com surdo estampido
o fumo nos cafés
Dick Tracy os vidros embaçados a música cigana
as histórias de polvos serpentes e baleias
de ouro enterrado e de flibusteiros
Um mascarão de proa o velho deus Neptuno
Uma dama das Antilhas ri e agita o leque de nácar debaixo dos coqueiros

- Pere Gimferrer
in Avanti (Poetas españoles de entresiglos XX-XXI), Olifante

A casa


Era branca a casa do assombro.
A partir dela podia cheirar-se o mar.
Sua chave: uma estrela de cinzas;
a clarabóia: o olho dos sóis.
Que esperavam as portas sempre abertas?
Uma vertigem de céu entrelaçava
nossos pés, raízes dessa febre
feita do frio da solidão!
Fora do mundo nosso mundo em branco.

- Ángel Guinda
in Caja de lava, Olifante

Pelas manhãs dá aulas no conservatório, pelas noites, faz ruído.
Aos sábados adoras os sapatos de salto alto, às segundas a sensação de uma pedra no sapato.
De ida mastigam rios, de volta aspiram tiras de mofo.
Com olhos abertos abro-me em frigideiras, com os olhos fechados, atravesso esse buraco.
Ontem sanduíche de destino com aplanadoras, hoje, pó de debaixo do tapete.
De portas para fora agarro-me a eles, de portas para dentro apanho um tiro.
De cintura para cima faz marmelada às metades, de cintura para baixo, sabe perdoar.
À direita os vícios do cortejo, à esquerda as virtudes da corte.
De dia ordenha a vaca da responsabilidade, de noite meto o meu encanto debaixo de martelos percutores.
Por diante que nada se lembre de nós, por detrás a metralha está na carne.
Em cima do papel prodigioso folclore de indícios, por baixo do papel, medo de voar.
Às 23:45 estrias no antebraço, às onze da manhã, como um vulcão.
Antes isto não me agradava nada, agora, adoro.

- Yolanda Castaño
in Cuadernos de Villa Waldberta

sexta-feira, outubro 18, 2013


Tu eras coluna na Babilónia ou quase,
capítulo do beijo de Babel quando eras mão
lábios dedos torres
história alta de ti,
o livro da voz desfolhando-se com passo de
dança,
e a colónia que desperta e escreve estrofes
verdes,
e o vento que se estende aos teus pés
na lua escarlate do salão.
Ou quando foste deuses, deuses para a
adolescência que se vende,
ou antes, sim, antes de esperares casas
da linguagem arquitecta,
templos para a minha solidão e o rastro longínquo de ti,
observando o suave Mediterrâneo,
aguardando uma iluminação do mar nervoso,
um feixe de dias,
uma ninhada lírica.

- Blanca Andreu
in De una niña de provincias que se vino a vivir en un Chagall

Sangro a sério sangro luz que se escapa e é em mim onde os
cavalos se reúnem para arrancar com os cascos orlados lascas
de pedra preciosa a assassina vegetação do tomilho e as chamas
de maio. Também arrasto o meu sonho como um vestido manchado
sujo e celeste cosido pelo anjo que espalha o sangue a sede
arrasto meu sonho emerjo de um meio-dia imoderado arrastando
e deixando ângulos letras que pendem dos céus do sangue da sede

- Blanca Andreu
in Báculo de Babel