Esvazia o bar, fica lá com os músicos, tu e essa história toda que não tem começo nem onde ir, felizmente há uma certa calma no espaço vazio, as cadeiras, somos poucos, o rapaz limpa os copos, parece um ensaio, também aqui, no ritmo a fazer mira, deitaste as flores no lixo, posso ligar-te amanhã? Não ligo, mas conforta saber que posso, perguntar-me se o farei, virar o copo e desafiar-me a isso, até me aborrecer, pôr um fim ao agonizante romantismo que se esvai com uma mão dentro das calças, e volto à cadeira de pau, entre cada som metálico, quase vejo um campo, como se pedalasse, sinto desenhar-se uma flor alta, cada vez que bato, menos a sequência, a própria frase do que o vigor, a perseguição de um ritmo que me alce, deixe ver por um instante, ser assombrado pelo meu perfeito detalhe. O que acontece a seguir? O que eu detestava que mo perguntasses, que a própria interrupção não fosse o bastante, e como me ficou repetindo isso que talvez nem tenhas considerado bem, pesado como eu depois faria com cada palavra, ao dizeres que há sangue no modo como as conto, eu que nunca quis cair na história, que me sentia a escorregar, incapaz de ter uma cena escorreita entre a sombra que fazia no papel, o gelo no copo, a janela, o tempo sem costura da lua e do sol, mas não consigo tirar as distracções do caminho, sigo-as, cada uma, sou eu quem as persegue, como essas mulheres baixas e magras mas que, depois, ao seu jeito, com um certo encanto imprevisto, se revelam todas capazes de dar cabo de nós. Feições mais delicadas de cada vez que muda de opinião sobre qualquer coisa, te puxa e se desinteressa de ti, como as linhas que outro escreveu e que quase te humilham. Sobreviverás à margem das antigas ambições, até ao dia em que possamos ser cruéis de novo, sem pestanejar. Viver do outro lado, onde nos olham sem a menor ideia, sem uma fresta, nem uma morada ou contacto, mas simplesmente longe do mundo, por detrás da nossa espectacular falha de carácter, sem paciência para ouvir uma vez mais alguém explicar-nos porque deveríamos reconsiderar. Indiferentes para os nossos próprios sonhos, como se mesmo o sentimento não fosse mais do que uma sensação de mal-estar. Mas gosto do teu vestido... Incapazes de perdoar porque das memórias nada nos resta senão um certo desdém por quem fomos, quem se cruzou connosco e se lembra, e até nos teve afecto. As histórias levam-nos um pouco mais longe cada uma, até não podermos mais fazer sentido, tomando-o como uma traição. Nas melhores alturas, calei-me. Não sabes o quanto me arrependo de todas as outras. Se não nos virmos por aí, imagina o melhor. Estarás errada, mas ao menos fazes-me esse grande favor.
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terça-feira, outubro 16, 2018
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domingo, outubro 07, 2018
O mais natural é que tudo isto acabe em desastre. E às vezes, para lá da crise e do colapso, já divisamos o nosso próprio rastro pelas últimas aldeias onde o corpo se embriaga na qualidade tranquila da luz, no modo como o vento explora as casas, meio derruídas. O abandono é sempre o grande tesouro que uma era cede à seguinte. Deixar tudo como está, no desvario de um mundo antigo murmurando na sua língua de cacos. Na sala é provável que as notícias tenham sido ignoradas a favor da música. O giradiscos passa por sublime artefacto de uma civilização digna de memória. A agulha infectada de um estranho som pinga uma gota fria que nos imobiliza. Certo é que o vinho secou finalmente em duas canecas de porcelana. Levo uma aos lábios, de um cheiro vago ou imaginado, bebo-o morno e o chão volta a estremecer. A luz repartida e triste no quarto, a sombra de um felino derramada sobre a cómoda e um frasco junta selos, moedas estrangeiras e borboletas como se fora um velho encantamento. Nesta cama, depois deles, terão dormido astros com gafanhotos. Terá sido testemunha das maiores intimidades no transtorno das estações. Já não contando ser lidos, os poucos livros suprimiram o drama, enterraram os personagens, e a tinta ficou num delírio desatando as descrições. De modo semelhante o amarelo dos girassóis mancha-nos os dedos só de olhar a imitação de Van Gogh, tão pobre mas tão fiel, talvez mais triste ainda que o original. Há outra tela no cavalete, o pincel caído, e algo como a sombra de uma mão cheia dos cabelos dela. Não me perguntes. A beleza sempre parece ocultar-nos um segredo. Aqui a chuva tem o peso inteiro da casa. Penso nas sucessivas inundações, enquanto vejo as formigas carregando às costas barcos de cinza. Pelos caminhos afogados, irmãs do silêncio, as flores não têm mais que a sua beleza e solidão. Ecoam em uníssono doces impressões que nos cobrem de abelhas o pensamento. No largo, a capela tornou-se agnóstica, as velhas loucuras foram apaziguadas. Ouvem-se ritmos distantes cruzar a superfície da terra. Os finais todos, as cidades dinamitadas pelo sonho. E a realidade que lhe escapou chegou aqui sentindo-se culpada depois de ter dado por si a ansiar por toda esta desolação.
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sexta-feira, outubro 05, 2018
Meses depois desfez a trança e o pólen dos jardins mais remotos impregnou o ar. De um vestido no chão fica um buraco por onde o coração desce mais fundo que a noite, e logo se começa a sonhar deixando o mundo fora. Dessa origem talhei um cuco, que me traz ecos, e sigo-a por esse aroma cada vez mais vasto. O tempo é a própria doença deitando no sangue a memória das galáxias, como se quisesse matar-nos de excesso, tal como apodrece a orquídea lutando pela beleza até à morte. Um zumbido de artérias turva o ar, sofro a asma, sorvo-o até à asfixia e a um fósforo tiro segundos de susto, registo à pressa as formas cruas, a realidade atrás da realidade dançando à luz dessa estrela cortada no escuro, dez mil sentidos dando harmonia ao que mal se vê. Tenho cadernos, estudos compreensivos, interrogatórios noite dentro, amo a demora. Quanto mais difícil menos me sabe a coisa minha. Caladamente me perco e na volta recolho a minha língua cheia de formigas. No fim, dou a ler à aranha que da garrafa fez a sua torre. Não me conforta, mas como ela sei que se o verso atrai moscas ao menos esteve vivo. Terei ainda ouvido para o crime dos gatos, o que os distrai, esse talento que perseguem, as espécies que caçam nos tempos mortos. A última primavera de que soubemos tem anos, desfasada como um velho jornal. Do mundo chega-nos alguma sílaba desconexa, balançando-se no vento. As xícaras estremecem à primeira carga da claridade, na hora em que a terra parece mais insegura, depois tudo retoma a pequena e suja ordem moral. Os pássaros metidos nas gavetas, as árvores servem-se dos próprios baloiços. Se o céu escurece, para lá da possibilidade de trovoada, há as composições incutidas na chuva, o modo como em casa toda a repetição aprende música. Quando a luz já não serve para ler, o corpo pede à própria sombra uma direcção. Tomamos os caminhos onde mais nos pesa quem somos. Uns passos adiante, um cavalo mastiga um grilo, a noite começa já toda estilhaçada. Só a lua com a sua navalha abre certas flores. Sei de uma ali isolada que por esta hora se fecha com um insecto na boca. E o que ele se debate. Explode em flashes, exaltando a cor e os nervos no abraço das pétalas, como uma máquina fotográfica no interior do bosque.
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sábado, setembro 08, 2018
"Quem disse as melhores coisas sobre mim foram os meus inimigos"
Vicente Huidobro
Que seja verdade tudo o que dizem... em algum momento e a ponto de tremer de vergonha, ao mesmo tempo fascinado, mirando essas ficções - um reflexo apurando o gosto ao lume do ódio. Já não podemos transformar-nos em animais como dantes, mas em bestas sem nome talvez, anunciados por uma trepidação que chegue de outras terras, e o que mais se dizia dos lugares inexplorados, antes de qualquer decalque dos cartógrafos, ambientes em que os marinheiros sentiam as entranhas gemer supondo que aí pudessem ver-se dragões. Eis toda a magia que nos resta: como os inimigos se rezam uns aos outros - dores misturadas, rogando-se um acto de absoluta vileza, a roçar o indescritível, nesse limite contra o qual nos abatemos. Depois da conquista dos pólos, faz mais de um século, pelos mais geniais e desonestos suicidas, hoje, com a extinção em curso do que nos aterrorizou no escuro durante milénios, só no terreno da inimizade resta margem para riscar a superfície das lendas. Entre estas gerações definhando antes que tenha início o assalto ao cosmos, olhamos os céus nocturnos e essa vertigem como quem escava em vão a terra, resignados com os cacos de antigas civilizações, um astro fóssil que ao invés de iluminar nos cega... Mas o que temos para expedição onde ensaiar um estilo? O zumbido dos canos atrás da parede desta época só nos sufoca, temos ratos neste pardieiro, superfícies mofadas, barulhos inexplicáveis; o tempo passa por uma assombração, a decadência consome-nos, em vez de uma candeia deve andar-se pelos corredores de faca na mão, a chamar como a um gato, aqui bicho, anda que te fodo; tresvariados da cabeça, a milénios de distância das presas mais notáveis, essas de tão fabuloso porte que as sonhamos em fascículos, ao longo de uma série de noites. Vamos cercá-las nalgum museu, a voz abafada do guia a trautear qualquer coisa sobre a pré-história, a apreciar a perícia do taxidermista que falsificou esse assombro, tacteando no escuro das suas suposições, cosendo as partes de animais da mesma família, dá-nos essa montagem de uma coisa que ainda há pouco estava viva. Fora isso, é a mesma humilhação diária dos nossos instintos em toda a parte pela afamada era da técnica. Temos ainda no vocabulário as marcas de uma terrível refrega, os traumas mais fundos na gramática, um resíduo mágico que pelas palavras nos liga ao prazer de se estar algumas posições abaixo na cadeia alimentar, e, se os versos parecem armas toscas, mantêm a fiabilidade do que poderemos sempre retomar: uma perícia essencial que separava quem viveria, quem fala por frases verdadeiras, ainda que caminhe alucinado, com o ar demencial que toma um arcanjo quando se avizinha de um bairro terrestre. A arrancar a pele do que se diz para que o sentido dê alguns passos por nós, os mais difíceis. Temos noites para essas coisas: estrangular os débeis que só fazem número e atrasam toda a geração, mantendo debaixo de olho as nossas imperfeições, com a ajuda desses formidáveis inimigos que se querem por perto. Tiro o rosto do caminho, procuro dividir-me em sete dias como ensinam os mais velhos, vigiando os avanços da catástrofe enquanto cronista meliante destes estados gerais da javardeira, e, nisto, tiro o pulso a todos esses sonhos de merda, com gente a mais, ponho um espelho frente à fraca respiração da musa, doente, arrastada, exposta como uma triste aberração de feira. Os pássaros cantando pior do que em qualquer outro período da história, ela a tossir e eles a caírem-lhe mortos à cabeceira.
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quarta-feira, setembro 05, 2018
Também a voz nos inferniza, põe-nos na boca palavras que não podíamos ter dito, magoando esse personagem cultivado num fútil e ocioso protesto diante da pequena moral que nos servem. Intervalos, nesgas é o que resta quando não se pode mais conspirar. Em letal minoria, isolamo-nos para fazer lume, nos apaixonarmos por mortos, dar-lhes mais filhos doidos. E estamos nisto, o mesmo uns séculos depois, e o tempo sem melhor que fazer, atirando-se à cara palavras, ditos, impropérios em papéis de acaso, e o que somos nós? Uma gente que encarnamos por desfastio, debruçados sobre livros onde se desmentem uma a uma as brandas ficções de que se cose a vida. Temos um bar nos bastidores de onde nos vemos como um jogo de uma liga secundária no televisor; ao balcão, a garrafa a meio caminho de uma miséria total, e em Seide ou aqui, com Camilo ou algum outro cabrão a assegurar-nos que nem o génio nos salvaria. Linhas frias, sem o menor rasto de emoção, tremendo frente a um monstro de sensações: só osso e nervos, antigas migalhas na caixa de uma bússola e aquela prosa como um continente selvagem e inexplorado, a voz sustida a golpes de catana, avançando a custo, esmagando os mosquitos na pele, numa sopa de humidade e alucinação, fervendo com os gaguejos de miragens. Ágil, estuporado inferno a toda a volta, a vegetação rogando-te pragas, uma loucura incapaz de estreitar-se à conformidade das narrativas. O plano era cruamente simples: aguentar, progredir numa linha minimamente recta contra uma paisagem capaz (finalmente!) de devorar-nos. Passados uns dias nem nomes tínhamos, e a memória atabalhoada punha-se diante de nós confundindo o sonho com as horas acordadas. Como bêbados de nascença, sentíamos os pés entre gengivas e dentes, o chão engolindo o que pudesse, mastigava ou cuspia, montando outro desses lugares onde cada passo que avanças te mete medo. O nosso próprio cheiro adquire uma estranheza fenomenal. Estamos connosco e somos arrastados, perseguidos. A vontade nunca nos convenceu tão pouco. Incapazes de dominar o que quer que seja, a asfixia não nos inquieta mais do que o tomarmos o fôlego e sentirmos entranhar-se-nos na consciência a dimensão de tudo isto. A febre, ao menos, ajuda: ritma delírio e realidade, distancia-nos um pouco. Vamos fracamente, de nervos em franja como tambores blasfemos, a boca amarga, o debate minucioso que nos impõe tudo; apertando a garganta ao desespero, vamos. É o vinho que se bebe nos odres do terror, o riso que se escapa de um e exprime perfeita e consoladoramente o escárnio entre nós, por nós mesmos. Rimos o que podemos, e é como se o destino nos fizesse vibrar. Desfaz-se a culpa - ao menos isso - e tudo nos sabe como uma bala nos miolos, para logo depois termos de limpar a sujeira desse acto derradeiro, rindo alto, de como o absurdo assobia despedindo-se de nós, e do quanto a vista do nosso túmulo nos apazigua.
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terça-feira, agosto 21, 2018
Há um sal de tempero, mas não o grão que faz sozinho o seu trabalho, esfola a língua, tira-lhes do sentido o pouco mundo, ritmado, dando aulas de dança. Podia chegar-se a um diário ele mesmo ladrão, que puxasse a cavilha, expondo a calma antecipação de um desastre. Esperando o que vier, dividindo os passos dos lados de um carril já desusado, quando o abandono vem com a sua vegetação, se alça sobre os atrelados, mete ninhos disto e do outro, e é como se o chão mastigasse com todo o vagar essas carcaças sonhando já a nossa extinção. Vejo a electrificação da linha, o outro lado, o exílio desses merdas, tão dedicados onanistas controlando a entrada de ar. E o que acho? Que o esplendor um a um, sim, o mel e o mal, claro; os dois até trocando abelhas, não é coisa que peça explicação. Mas de tudo o que nos põe na boca um gosto abrupto, para aguçar o mínimo, há a mais essa operação suja, insuportável e que serve para espanto de quase todos. O fedor da persistência, motor dessa prosa de coleccionismo, umas rarezas mortas, uns roedores de volta, e o álbum dos insectos, lepidópteros e o raio provando a paciência do carcereiro. Não tenho lume para tudo isto. Estou com o susto que foi ficando, que ficou tarde. A rua vem dizer-me um crime que nem interessa; irá passar despercebido, por mais grotesco: de saco de plástico na mão, catando lixo, os resíduos, com um sabor de coisa artificial, até pomposa. Demasiada inspiração, como se sabe, volatiliza a bruta clareza do autor, isto quando devia ser ele mesmo o aspecto mais sinistro da coisa toda, sem desculpas, sem vir arrumar tudo, talentosamente, numa bela justificação. Eu espero um desses que descansam a cabeça, e os demónios dela, à margem de um disparo: o ar interrompido, buscando-se todo. E depois uns meses num nomadismo sem a menor ênfase, recalcitrante, lembrando-se das intenções que antes tinham um bando. Quando miúdos mijávamos um muro socialmente (medindo-nos a que olhos?), e não havia ainda esta sensação de limite, esta moral que se foi fazendo da nossa indolência. Não sei comparar senão com a fantasia de um passado que colou os cacos, abriu a cova para não ir arrastado. É esta a estória que posso, sem rodas nem trilho. E não é desconsolo. É vidro que trago moído na boca para assim, nem por distracção, acabar engulindo outra.
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terça-feira, agosto 14, 2018
Para o Miguel
Espalhadas ao redor da minha paciência, uma porção de coisas resistindo a toda a utilidade: baldes, a pá e o arame, gatos de cimento, pulgas, defuntos, os retratos segurando as paredes, uma ameixa mole num prato... Tenho uma fome sobrenatural de objectos naturais, e peço a cada um que não me deixe só com as palavras. Na minha vida é tarde, mal oiço já os passos do sol e se os frutos caem sinto-me seguido. Vivo intrigado com as notas secas, ínfimas que escapam de troncos húmidos, o refúgio de bichos que esticam a corda ao mais espantoso silêncio. Afinam tudo, até que toda a terra se converta em eco. Na pedra ainda há pouco a chuva citava Verlaine perfeitamente, as poças ficaram calmas como segredos de escura água estelar. Não vou dizer que os conheço, mas sei de tipos a quem o mundo de verdade pertence, só têm os cigarros em que passam perdidos, isso e um ouvido de pardal, tão trabalhado que não lhes escapa um soluço de bom calibre, nem inversões na brisa, cortes de sentido ou imagens dessas que iluminam bruscamente a nossa época. Não os encontro por estas ruas, mas tenho-os lido, sigo esses cuidados todos: como cada manhã limpam as armas, como de noite tiram o chapéu e tapam o peito quando olham para cima atentos a movimentações no céu, como compõem debaixo da pele os ossos numa certa ordem. Se em tempos só tínhamos por horizonte a parede, hoje trazemos ao cinto as chaves desta terra. Sobre ela as flores projectam sombras na forma de cruzes. Enterrámos tudo, impusemos o terror da beleza. Quando passamos as distâncias ainda movem os lábios, aos poucos retomam os idiomas abolidos. Leio sem descanso. E se já desapareço, ou me custa dizer o que faço do tempo, no chão, os vidros do copo partido de que agora mesmo bebo, dizem-me que estou acordado. No piso de cima, de um lado ao outro, agitado, pareço ter companhia – vou-lhe perguntando em que guerra nos poderemos salvar? Por muito que me trema a mão, o quarto ou o juízo, isto pelo menos eu tenho: a confiança de saber que um golpe firme, de pura intenção, basta para que o meu verso rompa a mola dos anos. Neste país que me oculta e me nega, naturalmente, quero a admiração do meu inimigo. Quero que se entregue, traga a corda e o nó feito. Hei-de cuspir o caroço da ameixa, podemos esperar juntos que a árvore cresça.
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segunda-feira, agosto 13, 2018
Talvez seja só a ressaca de descer de uma tão alta criatura o que de um homem fica para rastro (ligaduras, a casca de um fruto), tendo descoberto pela manhã o ensaio de seda no quarto dela, a metade de uma maçã no espelho, e deste lado nada. O copo no chão, um peixe deitado na carpete, e, se a boca mexe, a cauda já faz parte do padrão. Empurrar portas, avançar pela idade essa invasão musicada e o álcool de que se erguem lentamente suaves vultos cruzando a tua história. Queimado na roupa, nos papéis, esse buraco de perfume vivo ou a simples atenção ao mundo, o olhar animal que tudo volta sobre nós, e como as flores se dispõem em itálico, vergadas por esta luz. Atravessamos a terra, vistos de longe pelos nossos sonhos. Temos vinte anos, uma mão perdida, outra voltando as páginas do jornal, comendo aos gomos uma estrela apagada. As descrições abalaram-nos, tremíamos com o rosto encantado pelos simples factos, luzes fortes no meio das frases, certas variações abrindo sulcos na circulação do sangue. Há dias um homem foi morto ali, em frente aos pássaros. Estão calados, a tarde no meio e o segredo a roê-los; tão distraídos agora que dá para agarrá-los à mão. Corta a flor escura e o pulso erra, mas volta pelo caminho que fizeste virando as sombras com um pau. O necessário antes do mais é dominar a arte de adivinhar, quando bêbado, o caminho para casa; por doçura. A hora perde-se e tu num ramo, o retrato de pássaro escutando esses sons vertebrando o escuro nalgum bosque solene, carnívoro, onde a rosa de um mundo acabado se abre, sorri e desfaz. Do aroma que desloca as paisagens, colhes as ervas, levas ao lume e a cozinha torna-se rumorosa. Levantas a pedra daquilo que escreves, as linhas tremem como se um comboio fosse passar, e perguntas-te quantos passos nos separam das noites naturais a essa visão de um território bêbado. Talvez não passe mesmo de ressaca, meu vinho atento e os cães que não voltam do cheiro dela.
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domingo, agosto 12, 2018
Lánzate sobre el mar
Separando las olas como el cadáver separa la eternidadeVicente Huidobro
Ao despir-se, pendurava a roupa do outro lado do mundo. À cabeceira, a flor servia de armário para as roupas dela, chamando a si as abelhas da memória. Estende, feito rede, nas sombras o coração, dissolve dois dedos no copo e é arrastado pelas águas até à canção de amor do que o destrói. Por causa da chuva, por causa do jeito como narra gestos de afogados e, com o mesmo fio paciente, cose a noite, só tem já a espera de si mesmo, o desejo de sumir-se e não morrer. Ir pelo escuro até onde a terra perde o seu ruído, quando só lhe resta a piedosa conta dos nossos passos. Acharão os seus ossos entre os de uma noite maior, com os vestígios do que se tinha por lendas, outra história das coisas, o que foi caindo de mundo a mundo, toda a louça pintada de épocas perdidas, os quartos fechados, odores de oficina, em cada verso vozes, olhares trocados com paisagens aflitas, o timbre dos campos sob o relâmpago, as grandes tempestades. A lâmpada balouça, como se em alto mar, estrela imunda apavorando as coisas. Desenha a raiz das nossas horas demenciais, roídos de lucidez, ébrios de intempérie. As ondas rebentam, o mar ouve-se pela casa, o seu cheiro como de um corpo em lentíssima e suave, eterna decomposição, mas talvez seja só a gota da noite que se descalça no lavatório, canta para a sua própria música. Ainda chove, e é difícil imaginar o que ao amanhecer será retirado do fundo dos nossos passos. (Talvez lhes dê a sensação de que éramos mais, e isso só porque tantas vezes caminhámos em quatro patas.) Interrompido o ritmo solitário, tudo nos atravessa, o vento faz de nós vento, as sombras derrubam-nos. Donos da quietude, do último lance de cada jardim, a terra prolonga-se de rosa em rosa, mas para os outros a nossa será a substância das coisas remotas, a distância que vai do homem à lembrança que serve, a aventura que só partilhou com os deuses extraídos à mais profunda das suas noites.
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sábado, agosto 11, 2018
Flechas envenenadas é o que ficou
de um sonho mal digerido
um rato ainda vi sumir-se
e tremendo da incerteza e do que já não podia
pus os olhos no espelho
quis como nunca um rosto que se visse
do outro lado da noite,
granítico, de pedra acordada
traços fundos seguindo o que se diz
de olhos fechados.
O tempo perde, o vento passa os dedos magros
ao longo dos braços,
a roupa que despiste eu ouço-a; eras miúda
e eu mal via no escuro
foi uma idade perversa que hoje eu aprecio
tomei-a dos teus lábios e ele traduzia
nuns gorjeios, bebia connosco
recebia as migalhas, pedacinhos de nêspera
até a tarde ficar cheia, virando
agora o vento baralhou-me o pássaro
desmemoriado, zumbe aflito
faz-se de mosca para não ficar de luto.
Nas costas do mundo, sem fim nem começo
uma frase devora-nos
o quarto de dormir inclinou-o um ritmo
passos que dou por outros
segredam, balouçam as lâmpadas
e não tenho poderes senão essas coisas que leio
de que nasço, voltando-me ao contrário
a sombra arrancada entre o texto e a terra
sou o que quer morrer disto
de um estilo bêbado,
menos do corte que da sensação da lâmina
e o sentido a desfazer-se da língua
uma possibilidade de música dissolvendo-se
num silêncio frio até para os deuses
de tudo, como um soro, enchi a garrafa
e bebo um gole à vez
o sabor a grito que ficou naquela água.
Depois de discussões o poço foi tapado
ficaste tu, eu e as explicações do pássaro
caídos lá em baixo.
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quarta-feira, agosto 08, 2018
Como se vive a própria voz, se renasce dos papéis onde um homem é a difusa mitologia das suas selvagens migalhas de saber. O sangue fica curto, comovido com as pequenas flores de pó que se erguem pelos cantos. Enche-mo mais; vira o copo, deixa a mosca molhada arrastando-se sobre a página - meu pobre anjo de tantas horas -, o preço a que paguei as minhas tão escolhidas sementes retirado nalgum quarto, nos hotéis com essa estrita penúria calculada, silencioso, como o instrumento de um morto guardado no estojo. À luz de candeeiro, transforma-se-te o rosto, a sede inteira cabe-nos na concha da mão, no pedaço de espelho quebrado em que te fechas, e a noite intensamente de volta, embaciando-o. Todos os dias passam e o que fica senão esta brecha aberta deixando a palavra à míngua para que os ossos ganhem leitura? Talvez o caroço de um fruto inventado de tanto o trazer ao canto da boca possa vingar nesta terra. Escreve-se com as sobras e o que sobrevive consegue-o só se nos escapa. Nos confins da tarde esse poderoso olor, de costas para ti, para mim. Fuma as velhas águias voando baixo de roda do cachimbo uma figura que se confunde com essa infância aproximativa onde vi o mar levantando-se a cavalo e antigas estrelas serem baixadas como cartazes publicitários. Baldios onde um sapato guarda as ovelhas de sombra, na cabeça vivem-me hoje mais descrições do que propriamente memórias, cinzas. Do chão apanho as próprias mãos debaixo de chuva colhendo a sua dispersa lição. Ali, destapado, um frasco de paisagem, num só postal todas aquelas tardes de calor medíocre, formigas avivando contornos onde se derramou a breve idade, a rede deitada no chão arfando e as borboletas como fósforos ardidos ainda coladas ao vestido. Medes o ritmo dos minutos para deixar passar o tempo do mistério, essa luz, a doce putrefacção do sol revirando as cascas do horizonte tantos anos depois. A palavra só é suficiente para ver, no mais, abres os olhos vazios. A roupa interior molhada, desfazendo-te o corpo. Só tens para sonho os detalhes do teu próprio esquecimento.
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terça-feira, agosto 07, 2018
Trouxe a minha vida até aqui cansado da morte que escrevem outros. De tanto os ler sinto os ossos marcados por mil dedos. O copo de água escureceu, um ritmo vertebrado surde nos fundos da casa, os sons sacodem-na como a uma floresta, de um livro estalam os galhos, abre-se uma clareira súbita onde um corpo consome a estrela de uma antiga idade. O mundo acorda porque se ouve algo passar, talvez sopre hoje o vento que conheceste primeiro, esses ventos das estórias lidas por vozes perdidas, anciães barbudos descalços que pisam os juncos melodiosos. Caem árvores distantes deixando os frutos derramados para o baile que organizam as abelhas jovens. As perdizes, de novo, levantam-se dos versos. Com o ouvido na erva escutamos as formigas dividirem sobre a terra o peso do coração. Pé ante pé a paisagem move-se como um pequeno circo itinerante. Entre os quartos como por velhos caminhos, a luz acende-se, toca o nervo de certa antiguidade, no corredor dispõem-se pinturas de tal delicadeza que ferem, directas tão pungentes que as proibiram. Estende-se um reflexo doloroso entre corpos, sombras reverberando noutras. Enche os olhos apressadamente e foge de si, as mãos na cara, escondendo tanto o deleite como o terror, cavalgando uma suspeita de loucura. As distâncias põem-se a voar. À hora em que as sombras atravessam os muros, na corda, os lençóis abanam os prédios, o mundo resume-se às distâncias mais sórdidas. Não suporto esta terra firme, cada dia anoitecido em que o silêncio se debate com o canto triste da canalização. Só vejo evoluir o musgo que cresce na sombra da garrafa, o insulto da mosca apalpando-me. Nas mãos a realidade não tem já consistência, lembra a impressão de uma luz que se apaga. Como o índio, testo a minha força em mim mesmo, puxando do poço um grito, uma água que tomou o gosto a tantos séculos. Correspondo-me com esse corpo frio lá em baixo: para duas partes de podridão, uma de eternidade. Nem a boca nem a morte dizem tão fundo aquela dor, mas os olhos tem-nos radiantes de uma terra ao longe. E de imaginá-la, o delírio de um condenado, reúno as suas esperanças, chamo a vida e ela vem.
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segunda-feira, agosto 06, 2018
A lâmpada fraqueja e dá o caminho a essa corpulenta manhã que põe a merda de uns pássaros em sítios altos e cala o murmúrio dos corredores. O quarto desmoronado, folhas a meio de um gesto, um soluço no copo – a mosca que, antes de se afogar, ainda dança na água para desenhar o estertor num silêncio que esqueceu o que implorava. Fiz tempo com uma gente melhor, seres removidos, lustrais. Dessa luz escura criou-se a mesa, flutuando sobre a corrente, e um leme, rude lume sobre um velho mapa celeste. Copiar tornou-se-me, de há uns anos, uma obsessão. Do vício inerente às coisas que li, dei comigo feito um possesso e até, mais tarde, um danado. Avistei o Tigre, sigo-lhe o rastro quente entre gritos e névoas. Extenuado, rouco, sinto cada artéria abreviar a sua rota, o próprio sangue em bicos dos pés. E se já não escrevo, é porque antes filmo, documento e sei de uma certeza acidental as coisas, por aproximação. Feras em sequência, reflexos, perseguidas sob um sol negro. Vocífera mão que me faz as medidas, a estratégia e o cerco. Este corpo no seu avanço indigesto, feito de palavras imprecisas, rituais, como um louco vulgar dizendo o inferno aos balcões. Estranho virado em sonhos, um outro nome por que me chamam. Falaremos disso mais tarde. Por agora, no lado da casa que canta, faz-se um perfume de cuidados, folhas de chá esvaindo-se, o sabão de ervas, a luminescência de um verso tocado pelos sons de uma mulher no banho. A tarde é prometida a uma sinfonia, mas isso fica do outro lado da casa. Deste, os segredos estão cansados. A hora é dos turistas, há que esperar que se fartem como se fartam de tudo. Voltemos assim que a noite os vença.
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domingo, agosto 05, 2018
Que insaciável beber de uma água que tem sede.Ángel Guinda
Deitada a garrafa, fica o peso e o som de passos numa conta de perder, tudo o que já me esquece ou apenas se repete neste sangue, ansioso entre falha e vício. Ligar a imagem e o reflexo antes que se anulem, antes que a manhã reúna as sombras a um canto e nos venha dizer em que ficámos. Descer o corpo amanhecido, para ver gente, sentir a rua, parando às esquinas a soletrar grandes cartazes, a soma de infinitos que finge correr diante de nós. Li tudo o que apanhei do chão nestes suspeitos cafés tristes onde lhe recortei a figura vezes demais: lume entre contornos deliciados, o molde de um tempo que sabia de música. Muitas páginas cheiram ainda à praça onde as tardes mais nos juntavam. Resta um olhar sobre o olhar, uma folga na corda, e ficar aqui tirando as horas pelo desmancho de certos corpos, uns restos de gente tentando em vão defender-se com o álcool. Presa na beira do copo, a alma já farejando o inferno, ficar aqui e esconder a voz nas mãos, noutro caderno de restos e reflexos com vagarosos cuidados e em íntimas deserções. Isso que se impõe contra a nossa ruína. Pouco mais senão o escuro fixa ainda alguma direcção ou sentido. Candeeiros vagueando pela bruma dão-nos uma ideia da distância a que enfim nos tornamos anónimos. E não há desejo mais forte que o de esquecer o nome que nos chama, aquilo que outros sabem de nós.
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modus operandi
sábado, agosto 04, 2018
Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpoum corpo já não tem imaginaçãonão tem paciência com nenhum outro corpoHenri Michaux
Foi-se o coração do quarto e eu fiz um buraco no meio da realidade por onde nos vejo passar, encharcados, fugidos lá de só-deus-sabe. Segredamo-nos com gestos de muito longe, assentimos. Fundamos rastos firmes nesta terra, hoje fraca, e cheiros lentos, alegrando a aragem morta. (Que desvio triunfal ao destino pulha que nos conta os dias.) Com os loucos, perdida e docemente, bater à porta da noite vertical e arcaica. As ninfas passam em bando, como sombras, putas de tambor vincam as esquinas das zonas de guerra onde se entrincheira o desejo mais vago. Exércitos disfarçados aguardam ordens no encalhe dos cafés, eu só mastigo umas hesitações enquanto os meus olhos, como dois rafeiros, raspam o fundo de outros olhares. Perdidos, estagnados. Tudo lento e asmático, entre a encenação fumarenta assistimos ao can-can das moscas. É sempre de noite na memória que roubo aos dias: um espelho erguido a medo entre corpos, um espelho que se inunda, que num instante se embaça do fulgor desta carne entreaberta a eras passadas. Ouço remos forçar as águas, empurro o meu barco sobre o brilho de um traço de cuspo a ver se amanheço noutro mundo. Cansa-me a puta desta solidão implacável, atenta a cada gesto. Aos ombros leva-me a cabeça numerosa, as infernais discussões, votações e a revisão ponto por ponto da minha defesa frente a um tribunal da menor instância possível. Arrumo os papéis e venho de lá a respirar pelo buraco do peito, baixinho, canto-me cinzas e vejo-a sempre ali, em frente, naquela pele de sol, corpo de caroço, e esse perverso pudor da mulher-criança (seios breves, corpo breve, toda ela breve). Se eu vinha de amores que me ensinaram a ter maneiras, ela parecia descolada das fitas do Godard que viu no lugar dos clássicos da Disney. E da vaga que me abriu no peito apenas me ficou a sensação de ter caído num saco de gatos. Punhais e sangues frios. Corações cheios de gritos, de ruídos, de bandeiras e, no fim, faz frio, um frio medonho. É tarde. Tiram-se as luvas cheias de sangue, tira-se a camisa cheia de sangue, diz-se qualquer coisa a esse rosto que ainda vem ao espelho recolher-nos, fechas os olhos e segues esse sono de pá e cemitério, sem nada do outro lado.
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sexta-feira, agosto 03, 2018
É ainda a dor esmagada que vos prendeQue em nós torna saudável a loucura.
Ruy Cinatti
Quando já não importe nem nos oiça a voz o tempo que temos, no sangue frio se instale essa distância segredada, tão perto, débeis flores submersas e nós sempre no mesmo passo, derramados como água no chão. Abandonada a subtileza, vem uma elegância desgraçada, encantados só como perdidos, e o ar que treme ouvindo algum ditado. Porque os caminhos são longos, fazes-te também viajante de silêncios e águas perdidas, enquanto a luz da tarde fere, inclina as sílabas, o corpo serve de mastro, uns ossos pobres assentes na simples mesa. A mão treme da reescrita do seu gasto provérbio. Já a boca fede a verso, fechas o caderno, trazes só a garrafa de virar marés. Metido com as ruas, atrás de um hálito de música ou de sonho que faça mais por esta vulnerável coisa de carne. Castelos doidos erguidos à pressa antes que a tarde se acabe. A escala que aproveitamos dos cafés que já meio inventamos ou trazemos lidos, portos ausentes destas cidades que sobram de um tempo sem vontade. E assim ainda por vezes alguém há que nos olha e desfaz nas tantas personagens a que servimos de abrigo. Toda a fauna dos banidos e dos desamparados, marcados pelos vestígios de outros mundos, os aborígenes no fundo de nós. Como o sol acende os ombros deste aguarelista alcoólico, como depois ele serve a luz na sua cópia de pássaros e de aromas, mexendo os lábios como se estivesse a ler o passado. Estamos do lado mais frágil, fechados com um público que se fixou na sala depois do espectáculo ter há muito terminado.
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quarta-feira, agosto 01, 2018
Codesto solo oggi possiami dirti,ciò che non siamo, ciò che non vogliamo.Eugenio Montale
Em que sítio perdido ainda escutas os regimentos do vento, hoje ociosos? Depois das guerras de infância, perdeu-se o sentido das fronteiras que tanto lutámos por fixar. Um espaço já só guiado pelos mesmos muros gretados de flores e de intermináveis lendas analfabetas, ínfimo reino de uns putos ancestrais cujos gritos já mal se ouvem. Minha vida para sempre ancorada nos velhos pátios, entre as sombras que não se mudaram. As salas de aula vazias e, de castigo, a nossa antiga grandeza. Ainda nos reconheço pelas vozes. Fui jovem aqui e fiquei de voltar. Não pensei é que o tempo fosse tornar tudo tão ridículo. Com a carne entreaberta volto enfim, ferido um pouco de tudo. O avesso de um perfume roubando a brisa. E apanho-lhe cada pétala, para cair de volta no embalo mágico desse gesto desequilibrado que tanto te procurou. É uma dor certa, ordeira, a identidade que me resta. Teu nome sem memória já, só canção. Volto a repeti-lo como quem se ensurdece, dou por mim a rezar a deuses escabrosos, a desfazer em trocos a alma para te comprar no inferno. Por vezes sentir chega, e muitas vezes a carne já não aguenta aproximações. Não há dor na voz. Só existem os dentes, mas dentes que caem entre frases destruídas. Não deixam passar um fio de calor. O mundo cheira em mim um estranho, pede licença, afasta-se. Neste rosto fixo de vidro que me serve de reflexo, sorrio do meu ar decapitado entre cabeças que roçam outras estrelas, corpos com as rédeas quebradas, que da solidão fazem uma música espaçada, soando docemente num lugar estranho à sua dança. É pouco? E triste, eu acho. Talvez te lembres também que não foi para isto que crescemos. Não íamos só envelhecer para um dia oferecer o peito às balas do passado.
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terça-feira, julho 31, 2018
Lisboa é ainda o pior dos séculos. Ensinou-te, assim mesmo, o andar ágil dos vadios de antigamente, este ritmo seguindo ileso entre as notas sujas que o vento arranca a cordas feridas. Algum café e a sua vulgar eternidade onde sobram figuras de recortar entre a sede e o tédio. Do mesmo prato comem deuses, homens e bestas, numa intimidade incrível. Sombriamente debruçados, reproduzimos o morse burilado nestas mesas. E nalgum canto soluça um acordeão que conduz uns gestos cegos e acenos ao sinalizarmos um perfume solitário de não se sabe quem. Truque das obscenas donzelas que nos puxam para este ballet parado entre o amor e o desdém: juras nocturnas que a manhã não cobre, a vida secreta que imploramos. Tens a tua cercada. Mas, aqui, a corte é coisa para levar entre meses, anos, mesmo décadas. Ensinas as sombras a puxar-lhe os fios do vestido, revelar-te mais desse contorno que vens copiando à mão: o desenho lento da boca, lábios enegrecidos de tanto discutir preços, e aqueles dois olhos claros que te parecem às vezes frios, cobrindo-se já de formigas. O mundo tem-te aí de castigo e ouves como chove ainda na tua infância, e um vento sem direcção te devolve, passados anos, ecos já mortos. Recolhes os papéis e tomas caminho. A luz gelada dos candeeiros recorta uns vultos contra fundos esbatidos. Trazes a voz uns passos mais atrás, a maltratar uma canção enquanto inventa ruas e te empurra para debaixo das arcadas onde os capitães do fim reerguem o seu hotel de grilos e constelações. De regresso vens a estudar as janelas, sinais de presença e do mais. (Há horas no mundo que pertencem a tão poucos, a esta raça infalível, àqueles de nós que já não somos apenas os últimos dos últimos mas os primeiros de um por vir.) Procuras as chaves, encontras e abres a doce cela onde, enfim, vens bater com os ossos. Teu quarto minúsculo, a cada noite mais estranho e inclinado tudo chegado à tua enorme janela rasgada. Aqui e ali, moscas e astros poisando entre os versos do imenso poema que cobre estas paredes onde os sonhos deixaram as unhas e bizarros abecedários com raízes fundas que trepam florescem e as estalam abrindo passagem.
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segunda-feira, julho 30, 2018
É inútil que durmas se já não achas no sono esse lado para que te viras quando suspira a ausência. Procuras assim no próprio sangue algum corpo doce e clandestino que te ampare a cabeça. O amanhecer rompe com os seus ritos impiedosos como formigas sobre um grilo inerte. Com a barba, o rosto inteiro por fazer, trazes já semanas sem cortar a vista no espelho. Levantas as roupas mudas do chão e tomas balanço antes de caíres no vento. Uma espécie de fé, essa cabeça baixa de quem faz seu um destino qualquer, leva fundo as mãos nos bolsos e acha dons. Essa frieza terna quando as ruas te cansaram já e achas certa graça só de encher os olhos de gente, apalpar-lhes de leve as intimidades. Pontual como os desesperados, entras na pequena e miserável capela atulhada de santos em cacos e ilustrações beatas que, dos sucessivos restauros, saíram com bigodinhos e cornos. Os anjos, desmoralizados, catam piolhos uns aos outros aos pés do altar onde as aranhas conduzem os seus sacrifícios. Fazes o sinal da cruz e segues com estranhos gestos inventados, acendes um cigarro e ajoelhas entre as cinzas, comovido, ainda sem teres motivo. A luz entra também cheia de cuidados e desprende uma recordação, vendo-a desabrochar e morrer vezes sem conta. O peso de um céu inútil resvala enfim desses ombros cansados para as mãos, e cada gesto que se segue tem a doçura de uma admirável insubordinação.
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domingo, julho 29, 2018
Desperto. Um travo dói, persiste e enreda a manhã, musical e estranha. Depois da escrita, o corpo pouco mais faz que repetir-se numa segunda língua e em má tradução. Solitário resto, cinza que se levanta a sopros curtos neste halo de ressaca. Serves a casa de canções descarnadas, sombras de vozes remendando o tempo. Contentas-te em abrir os olhos pela tarde, pela sombra. E menos pelo que vês do que pelo que sabes. A própria respiração é já uma lição de história e pelos dedos roda um copo que traz o mar inteiro a bordo. Rema a tarde devagarinho até à margem, entrando na penumbra e no exílio, e deixa a sua rosa apontada a um mundo desviado das rotas. Um pouco afastado, de leve no escuro, chega este entregue a uma sorte de afogado, como um trágico provinciano que sabe Shakespeare de memória e vagueia pela cidade, sofrendo. A noite é tanta e tão difícil de contornar, que só nos salva uma certa desmesura, misturando no álcool a razão e a dor. Desfeita a esperança, educa-se melhor uma paciência mortífera. Resta-nos ver como ela morde os outros. Como cintilam de passo em passo, roídos de beleza. Carne falida e mortal, puxando do sonho as suas raízes. E com que histórias se destroem, nesta arte alada e fluida de contar, de tomar os dias um por um e contra todos os outros. Tentar acertar com o erro neste embalo de fim de estirpe. Ando a escrevê-los, a estes poucos a quem peço chão, mais lucidez, um verso que se afunde e recrie com uma força hereditária. Mas que posso dizer que um simples olhar não entendesse melhor?
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